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‘Três Anúncios para um Crime’: Menos do que parece

Os diretores de que mais gosto não fazem alarde, não precisam se exibir nas histórias que contam

Crítica ‘Três Anúncios para um Crime’
Frances McDormand, em um fotograma do filme 'Três anúncios nas periferias'.

Depois de um ano assolado por uma seca de qualidade especialmente lamentável no cinema norte-americano (nos outros também, embora o espanhol tenha me dado algumas alegrias nos últimos meses), repleto de super-heróis vendáveis e rotineiros, espantosos efeitos especiais exercendo protagonismo absoluto, som e fúria de papelão, intermináveis guerras galácticas que querem exercer a função de opiáceos para que os espectadores deixem de lado de vez em quando as séries de televisão (e tenho a sensação de que a era dourada destas está acabando, que o vale-tudo acompanhado de pretensões substituiu aquelas joias que tinham a assinatura da HBO) para ir à sala escura e à tela grande, tinha a esperança de que Hollywood tivesse guardado suas iguarias para o final, que as obras-primas apareceriam com a seleção para o Oscar.

Outra ilusão que se desvanece. Até agora, não encontrei nas últimas semanas nenhum filme norte-americano em estado de graça como The Post – A Guerra Secreta.

As opiniões entusiasmadas foram unânimes em relação a Três Anúncios para um Crime. E também o abençoaram com não sei quantos Globos de Ouro. Os antecedentes do roteirista e diretor Martin McDonagh eram entusiasmantes. In Bruges é um thriller muito original, tragicômico, estrelado por dois matadores de aluguel que paradoxalmente são dotados de humanidade, pateticismo e vulnerabilidade, com situações e personagens quase surrealistas, no meio de uma cidade tão inquietante e fantasmagórica como Bruges.

Martin McDonagh mantém sua vocação de autor insólito em Três Anúncios para um Crime (que estreia nesta quinta-feira, 15 de fevereiro, nos cinemas brasileiros). A cidadezinha da América profunda na qual o filme se desenrola, a atmosfera, os personagens e o tom lembram inevitavelmente Fargo, aquela esplêndida invenção dos irmãos Coen. Aqui, narra a odisseia de uma mulher reivindicativa, compreensivelmente implacável e vingativa para encontrar o autor do estupro e assassinato de sua filha, obcecada pela certeza de que as autoridades não fazem todo o possível (ou o impossível) para resolver o caso macabro . É o fio condutor para retratar esse universo caipira a partir de seus próprios códigos, deixando muito tenso o assédio a que é submetido por essa incansável e feroz mãe coragem. O panorama parece exclusivamente pungente e trágico, mas o diretor também introduz suposta comicidade, sarcasmo, humor surrealista. A mistura funciona em alguns momentos e em outros me parece cansativa (são tão frouxos quanto pouco críveis o ex-marido da protagonista e sua namorada adolescente) e de vez em quando sou assaltado pela desagradável sensação de que o diretor está empenhado em demonstrar em cada sequência o quanto é inteligente e a complexidade que introduziu em sua história, que esta se retorça em seu desfecho para te surpreender com a conclusão de que aqueles personagens que descreveu como vilões podem esconder um coração de ouro, que o aparente negrume está cheio de nuances, que nada é o que parecia pela inapelável razão que é ditado por seu capricho ou seus genitais, que encontrar o assassino é uma vulgaridade indigna da obra de arte que construiu. Ocorreu-me algo parecido com o também atraente A Grande Jogada, em que Aaron Sorkin e sua permanente metralhadora verbal tentam demonstrar continuamente que sua personalidade e inteligência são brilhantes, sem interrupção. Que mania ou, no fundo, que insegurança. Os diretores de que mais gosto não fazem alarde, não precisam se exibir nas histórias que contam.

E Frances McDormand, atriz exemplar, está perfeita em seu papel duro e áspero. E as cartas do xerife são muito ternas. E você não perde a atenção nesse filme pretensioso e brincalhão. Mas não me fascina. Por muitos oscars que possa ganhar.

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