Crítica | Cinema
Crítica
Género de opinião que descreve, elogia ou censura, totalmente ou em parte, uma obra cultural ou de entretenimento. Deve sempre ser escrita por um expert na matéria

‘The Post – A Guerra Secreta’: Era uma vez o jornalismo

São admiráveis a precisão, o dinamismo, a clareza e o tom que Spielberg utiliza em filme sobre a investigação que revelou o caso Watergate

Tom Hanks e Meryl Streep, em cena de 'Os arquivos do Pentágono'
Tom Hanks e Meryl Streep, em cena de 'Os arquivos do Pentágono'

O jornalismo já foi chamado de “o quarto poder”, e a história demonstra que a lama, a corrupção, a mentira e o abuso são acompanhantes ancestrais e fraternos do poder. A lógica leva a suspeitar que o jornalismo também deve compartilhar essas marcas algumas vezes, embora proclame continuamente e sem rubor que sua essência e sua meta são a investigação da verdade, a independência, a liberdade de expressão, a objetividade, a denúncia da injustiça, enfim... essas coisas tão edificantes, solenes e bonitas. Quando o cinema se ocupou dele, alguns descrentes geniais, como o roteirista e ex-jornalista Ben Hecht e os diretores Howard Hawks e Billy Wilder, se empenharam, nas divertidas e memoráveis Jejum de Amor e A Primeira Página, em mostrar o reverso canalha do jornalismo, a manipulação como regra, a mesquinharia, o vale-tudo para vender o produto, suas alianças com a conveniência. E, claro, o impressionante Welles de Cidadão Kane, inspirando-se no magnata da imprensa William Randolph Hearst, fez um retrato complexo e aterrorizante de alguém que encarnou o poder absoluto, capaz de causar uma guerra ou destruir a reputação e a existência de qualquer pessoa, inocente ou culpada, que não aceitasse suas ordens.

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E, obviamente, existem filmes notáveis que exaltam as façanhas de um ofício que pode ser tão necessário como perigoso. Alguns baseados em fatos reais, sem necessidade de recorrer às licenças narrativas da ficção. Uma delas é Todos os Homens do Presidente, em que Pakula contava com rigor e suspense a histórica investigação que o The Washington Post empreendeu com enorme risco e mérito para revelar o sórdido caso Watergate, culminando na perseguição e desmoronamento de seu mentor, esse político astucioso e sinistro chamado Richard Nixon, vulgo Dick Trapaceiro.

Steven Spielberg, esse luxo do cinema, alguém que se movimenta com legendário talento por todo tipo de gênero, nunca havia abordado o jornalismo. Faz isso agora com deslumbrante eficiência em The Post – A Guerra Secreta (que estreia no Brasil nesta quinta-feira, dia 25 de janeiro) abordando a investigação iniciada pelo The New York Times, à qual posteriormente se somou o The Washington Post, a respeito de outro capítulo da história universal da infâmia. Trata-se do vazamento de alguns relatórios internos do Pentágono que revelavam o conhecimento absoluto e cínico de vários presidentes dos Estados Unidos (incluindo o enaltecido e santificado John Kennedy) de que a Guerra do Vietnã estava perdida desde o começo, o que não impediu que, em nome do estratégico enfrentamento a um novo foco do comunismo, fossem sacrificadas as vidas de 58.000 soldados norte-americanos e de 1,5 milhão de vietnamitas, incluindo uma enorme população civil.

São admiráveis a precisão, o dinamismo, a clareza e o tom que Spielberg utiliza para narrar essa histórica complexa, sua tensa e brilhante homenagem não só aos profissionais que outrora deram sentido e razão ao jornalismo mais insubstituível, que vasculha os erros do poder político, mas também à aparentemente cinzenta dama que, arriscando tudo o que possuía, conseguiu conscientizar a opinião pública sobre essa mentira tão transcendente e tão cuidadosamente preservada. Essa senhora é a dona do jornal. E, diferentemente do mítico, audaz e pragmático editor Ben Bradlee, ela parece frágil, herdou o cargo do seu pai e do seu marido suicida, tem muito medo e não parece contar com a mesma coragem e a determinação. Advogados e conselheiros (o Post acabava de lançar ações na Bolsa) tentam convencê-la a impedir a publicação da notícia, tudo está contra ela – do Estado aos juízes –, e sua ruína será total se fracassar. Com sua arte, Spielberg torna emotivo e apaixonante o insólito triunfo dos bons, dos que defenderam questões tão importantes como inadiáveis. Tudo parece verossímil neste filme excelente. E Meryl Streep está além de qualquer elogio. Essa atriz injeta veracidade a qualquer personagem que interprete. E seus registros são inacabáveis. Pode ser (não parecer) o que bem entender.

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