Steven Spielberg: “Nestes momentos, somos todos jornalistas”

O longa do diretor ‘The Post - A Guerra Secreta’, que estreia no Brasil no próximo dia 25, é baseado na investigação do 'The New York Times' sobre as mentiras do Governo dos EUA na Guerra do Vietnã

Mais informações

Em 1971, Steven Spielberg estava muito ocupado filmando seus primeiros curtas na universidade e evitando ir ao Vietnã para poder prestar atenção à publicação no The New York Times e The Washington Post dos arquivos do Pentágono. Como muitos, focou-se mais no Watergate do que na publicação de alguns documentos, que revelaram anos de mentiras por parte do Governo norte-americano e aceleraram o fim da guerra e da Administração Nixon. "A verdade é que, naquela época, não lia muita notícia", confessa o cineasta, que agora lê diariamente o The New York Times, Los Angeles Times e o The Wall Street Journal "para equilibrar". "Mas meu interesse aumentou à medida que aprendi mais sobre aquela época", reflete.

É por isso que não hesitou em ler o trabalho de uma roteirista, Liz Hannah, recomendado pela amiga Amy Pascal. Estava interessado no assunto, mas não pensava em dirigi-lo. Só queria deixar de lado a frustração por suspender a produção de The Kidnapping of Edgardo Mortara, que seria seu próximo filme, e passar o tempo durante a filmagem de Jogador No 1, que também estreia este ano. Mas, enquanto lia o trabalho, percebeu que tinha de contar aquela história. E tinha de contá-la logo, e por isso surgiu The Post - A Guerra Secreta, que estreia dia 25 de janeiro no Brasil. "Havia muitos paralelos com o momento em que estamos vivendo. Nixon não é o único presidente que distorceu a verdade, que não a defendeu como merece", explica. "Nesses momentos, somos todos jornalistas. Acredito firmemente na liberdade de expressão e na imprensa livre. Acredito que o verdadeiro jornalismo é o melhor antídoto para esse termo horroroso que questiona o que é verdadeiro e o que não é, chamado fake news [falsas notícias]", resume. Tanto que, se não fosse diretor, afirma que teria sido jornalista, e "dos bons".

Durante anos, teve como vizinho um desses jornalistas, Ben Bradlee, o diretor do The Washington Post quando os arquivos do Pentágono foram publicados e também peça-chave durante o Watergate. Além disso, conheceu pessoalmente Katharine Graham, proprietária do jornal naquela época. Uma figura ausente em Todos os Homens do Presidente, mas central em The Post - A Guerra Secreta, interpretada por Meryl Streep. É o primeiro trabalho dela com o diretor diante da câmera e a primeira colaboração de Streep com Tom Hanks, que interpreta Bradlee.

"Fiquei interessado em como uma personagem como Katharine Graham encontrou sua voz em um mundo de homens", diz o diretor, em um ano em que o empoderamento das mulheres é o último tsunami em Hollywood. "Se esses arquivos não tivessem sido publicados, duvido que Katherine poderia ter dado luz verde a Ben para autorizar a investigação de Carl Bernstein e Bob Woodward sobre Nixon, que levou à sua renúncia." Ele dá crédito a uma mulher não reconhecida antes: "Graham encontrou sua voz em 1971, como muitas outras mulheres fizeram este ano por outros motivos. E só espero que muitas mais encontrem sua plataforma". Spielberg está acostumado a trabalhar entre mulheres: sua mãe Leah Adler -- "que me criou como igual" --, Kathleen Kennedy, Laurie MacDonald e Stacey Snider, todas elas em algum momento de suas carreiras, no comando dos estúdios DreamWorks, que ajudou a fundar.

Há mais paralelos que Spielberg traça entre o antes e o agora, um momento da história que, em sua opinião, parece um reflexo do mundo atual. Inclusive a figura de Daniel Ellsberg, o homem que forneceu à imprensa o relatório de Robert McNamara sobre a Guerra do Vietnã e o qual é possível comparar com Edward Snowden. Spielberg é muito cauteloso nas comparações, embora admita que o próprio Ellsberg apreciou a coragem de Snowden quando vazou os documentos da CIA. "A diferença é o objetivo. O de Ellsberg era claro: acabar com a guerra", ressalta o diretor. "A única coisa que espero é que nosso filme volte a despertar o interesse do público em conhecer a verdade, em buscá-la e defendê-la e mostre o esforço necessário para isso", resume Spielberg, eternamente otimista sobre o poder do cinema. Não fala tanto em ressuscitar a imprensa escrita, porque sabe que há outras plataformas igualmente válidas: "O mais importante não é defender o apoio, e sim a verdade. Porque a verdade nunca sairá de moda.