‘Os Últimos Jedi’: Mais do mesmo, que chatice…

Essa franquia se tornou tão previsível e inconsistente que me deixa entediado. Não tem inspiração nem alma. É servil, com uma fórmula pronta para ter sucesso no mercado

Finn (John Boyega) luta contra o capitão Phasma (Gwendoline Christie), em ‘Os Últimos Jedi’.
Finn (John Boyega) luta contra o capitão Phasma (Gwendoline Christie), em ‘Os Últimos Jedi’.

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A suntuosa encenação desse suposto ou régio acontecimento mundial, que envolve ir à pré-estreia para a imprensa de Star Wars: Os Últimos Jedi — o oitavo, nono, centésimo? episódio daquilo que começou com uma música exultante e sublime e uma mensagem que anunciava, com lendária fascinação, “Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante” — é a longa introdução para testemunharmos o que esperam milhões de espectadores de qualquer cultura e em qualquer lugar. E já não se trata de ver um filme, essa coisinha inicialmente prazerosa que há 40 anos é algo cotidiano em meu trabalho. Logo de cara, numa fila asfixiante, confiscam meu anacrônico, pobrezinho, tão velho, tão só telefone Nokia, que ainda me serve para falar com cada vez menos pessoas. Depois revistam carinhosamente minha envelhecida anatomia para evitar que algum artefato diabólico possa solapar a hipercalculada bilheteria de sua divina criatura. E depois uma cortês, natural, muito profissional assessora de imprensa nos avisa que alguém vai nos vigiar na sala durante a projeção, para que as tentações dos corsários audiovisuais não triunfem. Meus castigados rins e bexiga me avisam que preciso visitar um perfumado toilette no meio da projeção (é imperdoavelmente longa, algo como 150 minutos) e, quando volto à sala, voltam a me revistar para afastar a possibilidade de que houvesse algum espião no lavabo. E quando termina essa lúdica e inesquecível saga do atual cinema de aventuras (muitos avisam sem o mínimo rubor), volto a fazer a interminável fila para que devolvam meu celular. Também sugerem que deixe num papel minha opinião sobre o que vi. Já me esquecia: também nos pediram, antes, que só escrevêssemos ou falássemos do que vimos a partir das seis horas e um minuto — da noite. Também nos pedem educadamente que não contemos a trama em nenhum momento, nem cometamos o pecado do spoiler. E recordo um verso nada original de uma canção do meu amado Leo Ferré: “Les temps sont difficiles”. Sempre foram, Ferré. Mas está cada vez mais difícil para os dinossauros.

E vamos ao tema. Ou não. Continuemos com as digressões gratuitas. Supostamente o que vi, esse roteiro sem pé nem cabeça de Os Últimos Jedi, só referências nas quais me sinto perdido, dirigido rotineiramente, é uma pré-sequência, sequência, remake ou seja lá o que tenham inventado daquele cinema e negócio fastuoso (descobriram que essa coisa do espetáculo era só o suporte para um merchandising genial), que começou com a memorável Guerra nas Estrelas e prosseguiu com a inquietante e sombria O Império Contra-Ataca (nelas apareceu Yoda, um personagem que me fascinou, assim como Darth Vader e Obi-Wan Kenobi, e havia também um menos perturbador, mas que me agradou muito: o vitalista, audaz e insubstituível Han Solo).

Mas Star Wars virou uma franquia tão previsível e inconsistente que me deixa entediado demais, sem inspiração nem alma, servil com uma fórmula pronta para ter sucesso no mercado, um cinema que sabe que a paciência de seus espectadores só admite múltiplos planos com duração mínima, embelezados com essa música que ensurdece em todos eles, falsamente épico, inutilmente lírico, em busca de novos personagens que parecem caricaturas. Cinema com estratégia de ação contínua, frenético, que no meio dessa apoteose de batalhas, duelos, ruídos e efeitos especiais consegue o paradoxo de me fazer dormir às vezes. E são várias as gerações que seguem esse show galáctico com o amor e a lealdade dos fiéis. Benditos sejam. Como os invejo. Eu tremo cada vez que tenho de sofrer com o novo lançamento de uma saga que para mim é insuportável. E durará até o infinito e além.

Os ÚLTIMOS JEDI

Direção: Rian Johnson.

Intérpretes: Daisy Ridley, Mark Hamill, Adam Driver, Carrie Fisher, Oscar Isaac, John Boyega, Frank Oz.

Gênero: ficção-científica. EUA, 2017

Duração: 152 minutos.

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