Artes plásticas

A madeira matriz de Santidio Pereira

Natural do Piauí, o artista que trabalha com xilogravura busca sua voz nas artes plásticas

Santídio Pereira prepara sua nova exposição
Santídio Pereira prepara sua nova exposiçãoMarco Estrella

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No pequeno ateliê recém-construído em Vila Tiradentes, zona oeste da capital paulista, Santidio vai manuseando umas palafitas de mais de um metro e meio. Esculpidas, elas são a matriz de suas xilogravuras em grande formato. O novo trabalho, uma série de 16 aves da caatinga – caburé, garrincha, lambu, juriti etc –, está sendo preparado para uma exposição que acontecerá na Galeria Estação, no começo de 2018. Por enquanto, o artista está testando cores, composições. As xilos despertam atenção imediata por dois motivos: o tamanho das impressões e a sobreposição de cores e formas que resulta em imagens fugidias.

Em 2016, estreou com sucesso no circuito artístico paulistano na mesma galeria Estação, onde agora é artista da casa. O debute teve curadoria do crítico Rodrigo Naves, que também escreveu o catálogo da exposição. Os dois se conheceram durante um curso de História da Arte e, logo depois, surgiu a ideia da mostra. "Para o crítico que defronta pela primeira vez com um trabalho tão promissor, torna-se quase impossível não projetar sobre trabalhos iniciais uma trajetória longa e grandiosa", escreveu à época Naves. "Muitas vezes esse entusiasmo se revela ilusório, então agora só nos resta esperar que esse jovem e talentoso artista não se esqueça das dificuldades do início de sua caminhada, quando chegar – e se chegar – o momento de o canto das sereias tocar seus ouvidos", concluiu.

E ele está animado. Aos 21 anos, Santidio conseguiu montar seu ateliê, comprar ferramentas, casar, ter uma filhinha, entrar em um cursinho vestibular e pá-pum. Enquanto vai falando de seu trabalho e decisões, a gíria aparece em sua boca o tempo todo. É quase como se ela resumisse o momento de novas possibilidades que vive. Comprou ferramentas melhores e pá-pum. Optou pelo vermelho e amarelo, cores quentes que o remetem aos vestidos coloridos que a avó usava em Curral Cumprido – e que, talvez não por acaso, são as colorações encontradas majoritariamente na paisagem da caatinga e por isso também em seu trabalho –, e pá-pum. Agora, com o ateliê a sua disposição, quer testar novas ideias, talvez abandonar o figurativo, arriscar imagens mais oníricas e pá-pum.

“Desde pequeno, o Santidio faz poesia. Ele tem esse olhar sensível para o mundo, nas escolhas das imagens, sempre teve uma preocupação artística”, conta Fabrício Lopez, que foi professor de xilogravura do artista no Instituto Acaia, a ONG em que ele começou seus estudos assim que chegou a São Paulo. A xilo, explica Lopez, tem tudo a ver com o local em que a instituição está situada: entre as favelas do nove, da linha e do Cingapura madeirite, três comunidades vizinhas do Ceasa, centro de abastecimento da cidade, na Vila Leopoldina. Santidio, que antes de estudar xilogravura, passou por oficinas de marcenaria e desenho, assim que descobriu a técnica, aos 12 anos, saiu gravando as paredes de palafita da casa em que vivia com a família.

O xilo do Ceasa, como ficou conhecido o grupo de estudos plásticos do Instituto, atraiu uma geração inteira de meninos que, como Santidio, se viravam como carregadores e ajudantes no Ceasa para levantar um dinheiro extra. “O contato com a madeira que a xilogravura exige pressupõe um embate franco com o material, por isso é uma coisa que tem muito a ver com os meninos que estudaram no Acaia e viviam essa rotina de trabalho no Ceasa. E o Santidio tinha isso de sobra”, diz Lopez, que é artista e também trabalha com xilos em grande formato. Alguns dos meninos levaram as aulas da ONG para a vida profissional, como designers ou técnicos. Santidio, contudo, sempre teve um olhar mais artístico.

“Ele é puro Brasil. É um rapaz que está aí. Veio do Piauí, mora na favela. Sua história é pura desigualdade e superação. O sujeito para conseguir ter esse prumo e autoestima precisa ter muita força e coragem”, diz Lopez. “Agora, o caminho dele está aberto. Ele pode fazer o que quiser, ir pra onde quiser”, resume. Por enquanto, Santidio vai testando as possibilidades da xilo, dando aulas em centros culturais, e criando suas referências. Tem predileção pelo trabalho das gravuras japonesas ukiyo-e. Cita os artistas do século 19, Hiroshige, Hokusai e Utamaro, mas diz que adoraria que suas obras fossem confundidas com pinturas. Tem buscado abolir o preto, tão típico da xilogravura, para trabalhar apenas com cores. É obcecado por elas e, por isso, gostaria de descobrir todos os segredos de Matisse.

Outro dia deu início a uma série que chamou de “vistas do mar”. Contudo, o mar em questão é o tanque – espécie de açude comum em regiões muito secas – em que brincava quando criança. Ainda não acertou na composição, mas, colorida, ela passa longe do figurativo, apontando para o que Santidio começou a buscar recentemente. O trabalho é esse, diz, e ele espera que a vida o conduza de volta para o Piauí em seis anos. Em São Paulo não há nada para ele. Todas as suas referências estão nas histórias de Nasrudin – espécies de fábulas – de seu bisavô. E, claro, na caatinga e seu horizonte vermelho, amarelo, queimado de sol.

— Faço a xilo porque gosto, não espero ficar rico com isso, agora já estou feliz que ela se paga. O que ganho com a xilo, uso na própria xilo. Não preciso de Camaro, não preciso de luxo. Quero fazer uma faculdade de História ou Artes Plásticas, voltar para o Piauí, dar aulas lá, construir um ateliê e pá-pum.