Seca e guerra impulsionam êxodo rural na Síria

Pior estiagem dos últimos 40 anos leva camponeses já empobrecidos pela guerra a deixarem o campo

Agricultoras sírias transportan verduras na estrada entre Aleppo e Damasco.
Agricultoras sírias transportan verduras na estrada entre Aleppo e Damasco.NATALIA SANCHA

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A guerra na Síria atingiu duplamente os agricultores: além de sofrer com a morte e a destruição, eles perderam as lavouras e o gado. Com o conflito, a participação do setor agrícola no PIB encolheu de 27% para 19%. Números que o ministério da Agricultura sírio traduz em prejuízos de mais de 15 bilhões de euros (58 bilhões de reais). Apesar dos combates, a maior batalha que os camponeses enfrentam para sobreviver é a seca que persiste desde 2007, agravada por um conflito que destruiu ou danificou metade dos poços do país. A seca e a guerra impulsionaram um maciço êxodo rural. A população urbana passou de 56% em 2011 para mais de 72% em 2016.

“Retornamos a nossas terras há um ano”, diz o agricultor Abu Yusef, pai de seis filhos, na periferia sudeste de Alepo. Com o fim dos combates na região, a família voltou a cultivar sua lavoura. Ao longe, apoiada na porta de uma casa em ruínas, sua esposa alimenta galinhas esquálidas. “Tivemos de ir embora quando os combates chegaram. Pegamos nossos animais e saímos pelo campo”, conta Abu Yusef ao volante do trator, enquanto os discos do arado vão revolvendo a areia vermelha. As escassas cabeças de gado duraram pouco. “Algumas adoeceram, outras foram roubadas por homens armados e o resto ou comemos ou vendemos para comprar pão e cobertores”.

Abu Yusef nunca pensou em procurar refúgio na cidade. “Somos camponeses, filhos de camponeses, não sabemos fazer outra coisa”, responde. Dobraram a puída barraca de lona que durante meses lhes serviu de lar esperando poder colher seu trigo hoje e rezam para nenhum disco do trator topar com uma mina. Seus campos ficam à beira da rodovia que vai para Aleppo e ao lado de um canal de irrigação completamente seco. Abu Yusef optou por reabrir um antigo poço em desuso, sem se importar com a salubridade.

O trigo respondia por uma das maiores receitas do setor agrícola sírio, ao lado do algodão e da azeitona. Antes da guerra, o país produzia cerca de 5 milhões de toneladas do cereal. No ano passado, a Síria precisou importar 2,3 milhões de toneladas, calcula a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Abu Yusef é parte de uma minoria de agricultores que decidiu retomar o trabalho no campo. Mas pelo menos um terço dos 6 milhões de sírios deslocados (famílias que deixaram seus lares sem abandonar o país) são camponeses que saíram de suas terras devido aos combates. O êxodo maciço contribuiu para a queda da segunda maior fonte de receita depois do petróleo, que em 2011 empregava 26% da população ativa.

Sem condições de arcar com os custos de cultivo, manufatura, transporte e aluguel, o agricultor Anuar se recusa a pagar intermediários e vende diretamente seus produtos nas ruas de Aleppo.
Sem condições de arcar com os custos de cultivo, manufatura, transporte e aluguel, o agricultor Anuar se recusa a pagar intermediários e vende diretamente seus produtos nas ruas de Aleppo.NATALIA SANCHA

Às bombas e morteiros se somou, para esses camponeses, uma série de obstáculos insuperáveis. “O principal problema é a água. 50% dos poços do país estão danificados ou destruídos”, diz o diretor do departamento de Planejamento do ministério da Agricultura, Haytham Haidar. Além da crise hídrica, outros problemas transformaram a agricultura em uma atividade impossível: a falta de sementes, pesticidas, fertilizantes e veterinários, os preços exorbitantes do combustível e geradores para suprir a falta de eletricidade, e a insegurança nas estradas. A fim de evitar as despesas com intermediários e aluguéis comerciais, os agricultores se deslocam diariamente às cidades para vender seus produtos pelas ruas.

Cansados de ser vítimas dos combates, milhares de camponeses continuam se juntando ao êxodo rural. Há dois anos, Habba el Halil, de 66 anos, lamentava-se no que foi a linha de frente de Mahin, no centro do país. Filha de produtores de azeitona, recusou-se a abandonar sua terra. Viu chegar, primeiro, os jihadistas do EI e, depois, os soldados regulares sírios. Presenciou onda após onda de destruição nos seus olivais entre contínuos avanços e retrocessos da frente de batalha. “As colheitas apodrecem e são nosso único meio de sobrevivência”, dizia Halil na época. Nos últimos cinco meses, o EI massacrou cerca de 140 pessoas nessa região, segundo informações do Observatório Sírio Para os Direitos Humanos.

As províncias de Raqa, Deir Ezzor, Alepo, Idlib e Hassake, no norte do país, concentram 36% das terras cultiváveis, e são as mais castigadas pela guerra. Desesperados, muitos camponeses optaram por buscar refúgio nas desconhecidas e saturadas metrópoles, provocando drásticas mudanças demográficas. A mendicância aumentou em Alepo e Damasco, que hoje reúnem 37% da população urbana. Ali foram parar milhares de camponeses sem qualificação alguma. Outros optaram por se refugiar no vizinho Líbano, oferecendo aos latifundiários um exército de mão de obra barata.

Do outro lado da cadeia de produção agrícola, os consumidores enfrentam uma alta de 800% no preço dos alimentos desde o início da guerra. Nos bairros mais devastados de Alepo, os deslocados optam pela criação de aves, que correm entre os escombros deixados pelos combates. “A produção insuficiente de alimentos, somada à redução dos subsídios do Governo e à depreciação monetária [a paridade da libra síria com o euro passou de 45 para 450 em seis anos] levou a uma contínua e acentuada alta de preços, deixando nove milhões de pessoas [metade da população síria atual] carente de assistência alimentar”, diz um relatório do Programa Mundial de Alimentos.

Os criadores de gado também foram obrigados a empreender uma constante peregrinação através da região de Al Badia, na área desértica que corresponde a 50% do território sírio, onde pastoreiam seu gado. “Dos 18 milhões de cabeças de cordeiros contabilizadas em 2011, só resta metade”, diz Haidar sobre o valioso gado que antigamente era exportado para os países do Golfo.

Fugindo dos combates, e sem condições de pagar os exorbitantes aluguéis da cidade, centenas de famílias camponesas ficaram presas no limbo, como as cerca de 3.000 pessoas que arrastaram seus animais consigo para sobreviver três longos invernos e verões em barracas de lona em Yurud, região desértica na fronteira com o Líbano.

CORTES, SUBSÍDIOS AGRÍCOLAS E REVOLUÇÃO

A seca que assolou a Síria em 2007-2008 foi a pior em 40 anos e provocou um êxodo de 800.000 camponeses. Já nos anos 1990, secas anteriores expulsaram milhões de agricultores de suas terras a um ritmo de 400.000 por ano, segundo dados do Banco Mundial. Não são poucos os analistas que relacionam a eclosão dos protestos sociais à progressiva deterioração do setor agrícola, pilar de uma economia quase autárquica, e aos cortes de subsídios no final do século passado. Já a especialista regional em água, Francesca de Châtel, não vincula revolução e seca, mas ressalta que meio século de má gestão dos recursos hídricos do país contribuiu para afundar o setor vital e irritou os agricultores.

“O Governo desperdiçou os recursos hídricos obrigando a usar cerca de 90% em cultivos específicos subvencionados, como trigo e algodão, que necessitam de muita rega”, diz Châtel em uma entrevista por Skype da Libéria. Com o crescimento demográfico, as políticas de cortes nos subsídios de combustíveis e pesticidas foram um golpe final para os camponeses, incapazes de chegar ao fim do mês com os novos custos. No mistério da Agricultura em Damasco, Haytham Haidar afirma que está sendo elaborado um plano de subsídios e empréstimos para incentivar os agricultores a voltar ao campo. “Se retornarem à política de subsídios, será um paliativo. No curto prazo permitirá satisfazer os agricultores, mas, sem uma boa gestão, no futuro não haverá poços nem água para irrigar as plantações”, conclui Châtel.