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EUA bloqueiam comboio de militantes do Estado Islâmico e seus familiares

Jihadistas tinham acertado com Hezbollah e regime Sírio transferência a um reduto do grupo

ISIS
Ônibus de comboio com jihadistas do Estados Islâmico. AFP

No complexo tabuleiro da guerra síria, o inimigo do meu inimigo não é necessariamente meu amigo. Um comboio de 17 ônibus que transporta 300 combatentes do Estado Islâmico (EI) e 330 civis permanece bloqueado no deserto central da Síria por bombardeios da coalizão liderada pelos Estados Unidos. Os jihadistas e seus familiares partiram na segunda-feira da fronteira libanesa após fecharem um acordo com a milícia xiita Hezbollah e seu aliado regime de Damasco. Dirigiam-se a Deir Ezzor, principal bastião do Estado Islâmico na fronteira iraquiana, quando os ataques aéreos abriram uma cratera na estrada e destruíram uma ponte a 150 quilômetros de seu destino, em Abu Kamal.

As versões da milícia libanesa e do Exército leal ao presidente sírio, Bashar al-Assad, contradizem o posicionamento do comando central da coalizão internacional que enfrenta o EI. De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, uma ONG com sede no Reino Unido que conta com uma ampla rede de informantes no terreno, parte dos integrantes do comboio alcançou neste sábado a área situada sob controle do EI, onde puderam ser atacados como alvos jihadistas. O Hezbollah afirmou, em um comunicado citado pela agência Reuters, que 11 ônibus da caravana se encontravam fora do território sob controle governamental. Os outros seis veículos seguiam sob proteção militar e de seus aliados em uma zona desértica na estrada que interliga os povoados de Humayma e Al Sukhna.

Os acordos de retirada de inimigos que se renderam e concordaram com sua realocação têm sido relativamente frequentes na Síria desde a queda do reduto da oposição em Aleppo oriental, em dezembro, quando mais de 30.000 rebeldes, entre combatentes e civis, foram retirados sob supervisão de tropas russas aliadas do regime governamental. Esse também não é o primeiro acordo de retirada que se oferece ao EI, depois do recuo que negociou com a aliança insurgente Forças Democráticas da Síria (FDS), liderada por milícias curdas, na estratégica represa de Tabqa, no rio Eufrates, águas acima de Raqqa.

Os combatentes do califado foram surpreendidos há três semanas pela pinça formada pelo Exército regular do Líbano, cuja artilharia atacava suas posições na província de Arsal, e a ofensiva geral do Hezbollah e da Síria em Qalamun, do outro lado da fronteira. De acordo com a linha adotada em sua recente derrota em Tal Afar para tropas iraquianas, o Estado Islâmico parece ter abandonado o princípio de defesa até o fim que o levou a resistir durante nove meses em Mossul, também no norte do Iraque. Agora tenta reagrupar seus minguados efetivos em um último grande reduto. Suas forças resistem no eixo do Eufrates, desde Raqqa –onde ainda controlam um terço do território, após terem perdido a cidadela na sexta-feira para milícias curdo-árabes das FDS, que contam com o apoio dos EUA– até a província de Deir Ezzor, rica em jazidas de petróleo a ponto de ser cercada pelas Forças Armadas sírias.

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A notícia de que 300 jihadistas experientes percorriam 500 quilômetros armados com seus fuzis de assalto Kalashnikov de um extremo ao outro da Síria não foi bem-recebida. Só o Governo de Beirute ficou satisfeito com um pacto que afastava o EI de sua fronteira e lhe permitia recuperar os corpos de soldados mortos na frente da batalha. Em Bagdá, o primeiro-ministro iraquiano, Haider al Abadi, foi o primeiro a levantar a voz em protesto: “No Iraque nós enfrentamos os jihadistas, não os mandamos para a Síria”.

A coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos estabeleceu imediatamente um limite. “Não permitiremos que o EI se desloque até a fronteira iraquiana. Realocar os terroristas mediante um acordo não é uma solução permanente”, disseram em um comunicado divulgado na quinta-feira por seu comando central. O enviado dos EUA para a coalizão, Brett McGurk, foi ainda mais explícito: “Os combatentes do EI devem ser abatidos, não transportados em ônibus para a fronteira sem o consentimento do Iraque”.

Os bombardeios têm sido dirigidos até agora em bloquear a passagem do comboio e atacar as patrulhas de veículos do EI que se aproximam para auxiliar os militantes com caminhões-tanque com combustível. A coalizão advertiu a Síria através da Rússia de que impediria a passagem da caravana, mas não atacou diretamente os ônibus, nos quais viajam civis junto aos militantes.

Em um aparente sinal do início da debandada final do Estado Islâmico –de sua erradicação como califado territorial com milhões de súditos entre o Iraque a Síria–, os ataques aéreos à escapada dos jihadistas pelo deserto deixam claro que os inimigos da Síria e do Hezbollah –ainda que tenham concordado com sua retirada– são também, neste caso, inimigos dos EUA e de seus aliados.

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