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A última trincheira jihadista em Mossul após derrota do Estado Islâmico

Desesperadamente, alguns combatentes resistem entre os escombros da cidade antiga já retomada

Bombardeios contra os últimos combatentes do EI em Mossul, na terça-feira.
Bombardeios contra os últimos combatentes do EI em Mossul, na terça-feira. AP

“Não se assuste, somos nós que estamos disparando os morteiros”, tranquiliza um oficial iraquiano ao lado da mesquita de Al Nuri, na parte antiga de Mossul. Só depois ele esclarece que estão respondendo a disparos de atiradores do Estado Islâmico (EI) que ainda resistem a duas ruas dali, na região de Al Maidan, teoricamente liberada no último domingo, dia 9. O som seco e cortante de suas balas pode ser ouvido esporadicamente durante toda a manhã da terça-feira. Esses estertores mantêm ocupado um pelotão do Exército do Iraque um dia depois de seu primeiro-ministro e comandante-chefe, Haider al Abadi, proclamar a “vitória total” sobre o EI na cidade. É a última batalha.

O EI destruiu esta aljama, de onde seu líder, Abu Bakr al Bagdadi, proclamou o califado e o vizinho minarete “corcunda” para privar as forças do governo de sua tomada simbólica. Do mesmo modo, seus últimos combatentes em Mossul tentam agora tirar o brilho da vitória com uma batalha perdida de antemão. Encurralados em poucos metros quadrados e com escassos víveres, a resistência deles espanta até seus inimigos. Segundo o oficial citado, ainda somavam cerca de 200.

“Não sei quantos sobraram, mas os malditos estão lutando até a morte”, admite um soldado que se identifica como Nabil. É meio-dia e ele e seus homens fizeram uma pausa para almoçar. Gordinho, de camiseta preta, bandana e óculos escuros Oakley, Nabil se mostra implacável. Há 23 dias vem combatendo nesta frente e, ainda que as rotações sejam de 20 dias, ele afirma que não vai tirar o descanso que lhe cabe até acabarem com o último jihadista. “Não sei quanto tempo vamos levar, ainda espero que terminemos com eles antes do por do sol”, declara.

Nabil também diz que esses remanescentes são “ocidentais”. Como sabe disso? “Vi seus cadáveres”, afirma. Outros colegas seus falam de “russos”, em referência aos cidadãos das ex-repúblicas soviéticas do Cáucaso. Ainda que as equipes da Defesa Civil tenham removido muitos corpos, o penetrante odor agridoce da decomposição revela que ainda restam outros para serem recolhidos. As armadilhas explosivas deixadas pelos milicianos do EI atrasam a tarefa. É o que ocorre com dois “chineses” do edifício da frente, provavelmente combatentes uigures. Ninguém se atreve a tocá-los até que venham os especialistas em explosivos.

No entanto, todos concordam que essa resistência final é coisa de “combatentes estrangeiros”. Não só guerrilheiros muito ideologizados como carentes de toda escapatória. Enquanto os militantes iraquianos puderam tentar se infiltrar entre os civis para fugir da perseguição, estes aqui não têm outra saída. Decidiram morrer matando.

A última trincheira jihadista em Mossul após derrota do Estado Islâmico

“Sobreviveram escondidos nos túneis que escavaram sob as casas e esta manhã nos surpreenderam disparando e lançando granadas a partir da rua Faruk”, conta outro profissional uniformizado, em referência a uma das ruelas que se estendem entre as ruínas de Al Nuri e o rio Tigre. Vários helicópteros sobrevoam a região e de repente se ouve o repicar de suas metralhadoras. Pouco antes, um bombardeio aéreo fez uma coluna de fumaça preta subir ao céu.

Este soldado, originário de Diyala, é membro de uma unidade de emergência que atende os feridos na frente. A seu redor, a desolação é absoluta. É difícil imaginar com vida esta rua que um dia foi cheia de pequenas lojas. Al Sheizani era uma das principais artérias do souk. Agora, nas crateras de sua calçada jazem os restos calcinados dos caminhões-bomba que os terroristas lançaram contra os soldados.

As velhas construções da cidade antiga que não foram atingidas pela artilharia acabaram ruindo por causa dos tremores. Os interiores de algumas casas se mostram impudicos através dos buracos que as bombas abriram nas paredes. Uma manta marrom, uma cadeira de plástico roxo, um colchão em equilíbrio precário... São as pegadas de seus habitantes, alguns mortos nos confrontos. Os que conseguiram fugir se tornaram refugiados em seu próprio país. Seu passado, enterrado entre os escombros.

“Isso foi pior do que a Segunda Guerra Mundial”, afirma o oficial, que não fornece seu nome porque não é autorizado a falar com a imprensa. A conversa é interrompida pela chegada de Chris e Esther. São dois voluntários da Global Response Management (GRM), uma ONG fundada em janeiro passado para “facilitar os cuidados de emergência e de trauma de alta qualidade em áreas de alto risco e poucos recursos”. Acabam de encontrar um gerado em uma casa próxima e tentam fazê-lo funcionar para refrigerar a pequena clínica que, com a ajuda do Exército, instalaram em um antigo açougue, cujas paredes permanecem milagrosamente de pé.

“É perfeito porque os ganchos [para a carne] servem para que penduremos as bolsas de soro”, afirma Esther, uma enfermeira do Estado norte-americano do Oregon que veio durante suas duas semanas de férias. “Facilitamos a atenção pré-hospitalar; nos casos mais graves estabilizamos e enviamos o paciente ao hospital mais próximo”, declara, indicando a ambulância militar estacionada em frente. Durante as últimas semanas, ela e seus colegas atenderam sobretudo civis que conseguiram escapar da área controlada pelo EI, “uma centena ao dia”.

Hoje não há civis à vista, apesar de a coordenadora humanitária da ONU para o Iraque, Lise Grance, ter declarado que ainda há pessoas retidas na região. “Desconhecemos o número exato, mas provavelmente se trata de algumas centenas que não podem ou não querem ir embora”, explicou Grande ao EL PAÍS. Seriam principalmente deficientes, idosos e crianças que foram separadas de suas famílias.

Ainda assim não falta trabalho para os voluntários da GRM. Um carro traz dois soldados que sangram profusamente. Para surpresa de todos os presentes, não se trata de um ferido por atiradores do EI, mas sim por “fogo amigo”. “O helicóptero”, explica o colega que os trouxe. Não se comunicam entre vocês? “Sim mas essas coisas acontecem”, acrescenta, dando de ombros. Um deles foi atingido por cacos em uma mão e na barriga de forma superficial, e recebe tratamento ali mesmo. O outro, em cuja coxa penetraram estilhaços, é estabilizado e enviado a um hospital.

O sol começa a baixar e os desejos do entusiasmado soldado Nabil não parecem ter se cumprido. Continuamos ouvindo o repicar esporádico das armas. É uma questão de horas. Mas, assim como advertiu Karim al Nuri, um proeminente político xiita, a derrota do EI em Mossul não significa que se acabou com o “terrorismo”. Ele disse que o Governo “deve evitar os erros anteriores que levaram ao surgimento desses grupos e trabalhar para eliminar o medo à marginalização e à afiliação terrorista das regiões sunitas”.

 

Anistia denuncia ataques desproporcionais

“A escala e a gravidade da perda de vidas civis durante a operação militar para recuperar Mossul devem ser reconhecidas publicamente imediatamente nos mais altos níveis do Governo iraquiano e dos países que fazem parte da coalizão liderada pelos EUA”, pediu a Anistia Internacional.

A organização acusa as forças iraquianas e a coalizão internacional que as apoia de violações dos direitos humanos na ofensiva. Em um relatório divulgado na terça-feira, a Anistia afirma que as tropas que combateram junto ao EI levaram a cabo ataques ilegais desde janeiro, quando começaram as operações no oeste da cidade utilizando armas explosivas, com escassa precisão ou sem tomar as precauções necessárias para evitar as mortes de civis. “Até mesmo quando os ataques atingiram seu objetivo militar, o uso de armas inadequadas e das insuficientes medidas de precaução resultaram perdas desnecessárias de vidas civis, e em alguns casos se constituíram em ataques desproporcionais”, afirma o texto.

 

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