Coluna
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O sombrio legado de Temer

Em meio a uma realidade pautada pelo reacionarismo militante e a ultraflexibilização dos direitos trabalhistas, o pior legado ainda é o do fome

Michel Temer junto a ministros nesta semana em Brasília.
Michel Temer junto a ministros nesta semana em Brasília.ADRIANO MACHADO (REUTERS)

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Um ano e meio após tomar posse de um cargo conseguido por meio de um golpe perpetrado pelo Congresso Nacional, com aval de parte da população brasileira, já podemos começar a examinar o que o governo ilegítimo de Michel Temer deixará como legado no ano que vem, quando entregar a faixa presidencial a seu sucessor. Certamente, seremos um país mais conservador, mais injusto socialmente, mais desigual do ponto de vista econômico, mais violento, mais apático e, pior, ainda mais desarticulado em termos políticos. Não é necessário ser vidente para prever esse cenário desastroso: basta confrontar os fatos.

A primeira coisa que chama a atenção é o recrudescimento do viés autoritário e hipócrita da sociedade. O neoconservadorismo brasileiro baseia-se numa estranha aliança de moralistas capitaneados por um ator de filmes pornográficos, evangélicos e católicos fundamentalistas, jovens direitistas de classe média encantados por um filósofo que mora nos Estados Unidos, uma elite preocupada em manter seus privilégios, saudosistas da ditadura militar liderados por um ex-capitão do Exército e uma maioria silenciosa. Silenciosa, mas, seja dito, conivente com os discursos obscurantistas que florescem entre os desprovidos de tudo, inclusive de esperança.

O reacionarismo militante tem atuado em duas direções. No Congresso, funciona a chamada Bancada BBB (Boi, Bala, Bíblia), que, reunindo os interesses dos evangélicos, ruralistas e militares, forma uma força política incontornável. Eles têm pautado a agenda do Congresso, ocupando-se da desmontagem das pequenas, mas importantes conquistas feitas nas últimas décadas, como nas questões envolvendo aborto, relações homoafetivas, maioridade penal, direitos indígenas, proteção ambiental, desarmamento, ensino religioso, etc. No afã de se manter no poder, Temer negocia de forma descarada votos em troca de retrocesso.

Fora de Brasília, os grupos reacionários já deram mostras de suas preocupações, encerrando exibições de obras de arte em museus, impedindo a encenação de peças de teatro, perseguindo pessoas que pensam de forma diferente da deles – mesmo que nunca tenham pisado num museu ou num teatro, e nem mesmo tenham parado para ouvir os argumentos das opiniões contrárias. Assim, ao invés de brigarmos todos pela substituição do nosso vergonhoso sistema de educação por um outro voltado para formação de cidadãos conscientes e participativos, pautados pela diversidade e pluralidade, encaminhamo-nos para a sociedade do pensamento único.

Por outro lado, a ultraflexibilização dos direitos trabalhistas e a reforma previdenciária – será a sétima mudança nas regras, desde a promulgação da Constituição de 1988 – nos empurram para um espaço de insegurança social. Cerca de 13 milhões de pessoas passarão as festas de fim de ano sem emprego. Mais de 62 mil pessoas, a maioria jovens, pobres e afrodescendentes, terão sido assassinados ao longo do ano – enquanto outras 38 mil terão perdido a vida no trânsito. A maioria das cidades encontra-se refém das corporações dedicadas ao tráfico de drogas. Morar no Brasil é temer ser sorteado na próxima loteria da morte.

Mas, o pior legado, sem dúvida alguma, será o da fome. Entre 2002 e 2014, o Brasil reduziu o número de pessoas subalimentadas em 82%, por meio de programas de transferência de renda, o que nos deixou pela primeira vez na história fora do mapa global da fome. No entanto, estudos mostram que por conta do alto desemprego, dos cortes dos benefícios da Bolsa Família e do congelamento dos gastos públicos, podemos voltar a fazer a constar dele já no ano que vem. Estudo do Banco Mundial aponta que 45,5 milhões de brasileiros já vivem abaixo da linha da pobreza, ou seja, consomem menos de 3,20 dólares por dia (R$ 10,55 ou R$ 316,5 por mês). Essa sim é a tragédia maior: só quem passou fome sabe o que significa dormir e acordar de barriga vazia...

Ah, sim e a corrupção... Que, se não nasceu com Temer, e não nasceu, certamente com ele viceja como nunca...