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Busca por ‘terceira via’ na presidência pode dar giro radical em pesquisas eleitorais

Incerteza sobre candidatos óbvios, como Lula, fomenta nomes de 'alternativas' na disputa.

Enquanto Meirelles e Manuela D'Ávila se encaminham para candidaturas, Huck é cobiçado

Henrique Meirelles em evento do Lide em São Paulo.
Henrique Meirelles em evento do Lide em São Paulo. AFP

Na última semana, a corrida presidencial mais imprevisível em quase três décadas ganhou dois novos nomes potenciais, em mais um sinal de que, até agora, se desenha um panorama tão pulverizado de candidatos que lembra o visto às vésperas do pleito de 1989, com as devidas salvaguardas históricas. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, confirmou em uma entrevista à revista Veja ser, sim, presidenciável, mas disse que tomaria sua decisão "no momento adequado", dando um passo a mais para além das especulações que rondam seu nome em um momento de recuperação econômica. Do lado oposto do espectro político, a deputada estadual Manuela D'Ávila foi anunciada como pré-candidata de seu partido, o PCdoB, que deve romper a tradicional aliança partidária com o PT existente desde a redemocratização, num gesto ainda com efeitos mais simbólicos do que práticos.

A um ano de um pleito em que nem os candidatos mais óbvios estão definidos de fato, a tradicional  polarização PT X PSDB se desfaz, alimentando o sonho do voo solo de muitos de seus parceiros. Marina Silva (Rede), que na última eleição se apresentava como a única terceira via plausível, encontra agora concorrentes, seja à esquerda ou à direita, com chances mais reais que os anteriores de chegar a um segundo turno. Em um cenário de crise econômica severa e de descrédito dos partidos políticos tradicionais, todos parecem crer ter mais chances na disputa às margens dos partidos tradicionais. Incluindo nomes nada tradicionais da política, como o do apresentador Luciano Huck, cuja potencial candidatura se assemelha a de Silvio Santos, também em 1989— apesar de bem colocado nas pesquisas na época, o apresentador do SBT acabou desistindo da disputa por divergências partidárias.

No momento, a alternativa ao tradicional “Fla Flu” de véspera (tucanos X petistas) parece estar ocupada pelo polêmico militar reformado, Jair Bolsonaro (PSC). Dono de uma presença impactante na internet e de um discurso conservador radical, é ele quem desponta até agora como o opositor do petista Luiz Inácio Lula da Silva em um possível segundo turno, com 13% das intenções de voto, segundo a última pesquisa Ibope, divulgada no final do mês passado, que repete o resultado obtido pelo Datafolha no final de setembro— Lula teria 35%.

Mas a um ano da eleição, o cenário ainda promete mudar completamente, como já aconteceu em outras eleições, conforme aponta um levantamento feito pela consultoria econômica MCM. Dos sete pleitos presidenciais ocorridos no país após o fim da ditadura, em quatro o eleito aparecia na liderança das intenções de voto um ano antes. Mas em três deles os candidatos tentavam a reeleição, algo que já os favorecia naturalmente: Fernando Henrique Cardoso (1998), Lula (2006) e Dilma Rousseff (2014) — na outra eleição mais previsível um ano antes, a de 2002, o candidato que aparecia como preferido em 2001 era Lula, o único nome visto como alternativo em um contexto em que o PSDB estava desgastado pela crise econômica (apagão de energia, inflação a 12,53% e desemprego de 10,5%) vivida no fim da gestão FHC.

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Em 1993, por exemplo, um ano antes da eleição que levou Fernando Henrique à presidência pela primeira vez, o candidato tucano aparecia com 7% das intenções de voto, enquanto Lula e José Sarney disputavam a liderança; o Plano Real, grande marca de FHC, foi lançado em fevereiro de 1994.  Em 1988, as pesquisas também indicavam um empate entre Silvio Santos e Leonel Brizola, mas Fernando Collor, o "caçador de marajás", arrebatou a disputa no ano seguinte. "A pesquisa de 88 foi a que mais se distanciou do cenário efetivo verificado no ano eleitoral", explica o levantamento da MCM.

"A situação atual tem semelhanças com a de 1989", aponta Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria. "Há uma grande rejeição aos partidos políticos tradicionais, um Governo desgastado, assim como o de Sarney na época, o que impossibilitou que candidatos governistas se apresentassem com chances reais de ganhar", destaca ele. "Essa situação de 1989 gerou espaço para a candidatura de um outsider, como Collor. Agora, o outsider com mais chances de concorrer até o momento é Bolsonaro." Mas Ribeiro também aponta diferenciais importantes entre os dois pleitos. "A eleição de 1989 foi uma eleição solteira, apenas para presidente, o que favorecia candidaturas sem respaldos partidários fortes. No contexto atual, é preciso ter uma rede para levar adiante uma campanha presidencial e para isso é importante ter esses apoios cruzados [de palanques de governadores e deputados]. Além disso, a legislação de campanha era diferente da atual, o que permitiu a Collor ter um tempo grande de TV. Bolsonaro deve ter um tempo ínfimo sem alianças partidárias", ressalta ele.

Outro fator diferencial é o comportamento da economia, lembra Ribeiro. "Em 1989 a economia só piorou. Daqui até a eleição a economia deve melhorar e o desemprego diminuir. Teremos um ambiente econômico melhor em 2018 do que o atual", afirma. Por isso, a candidatura de Meirelles poderia ganhar fôlego e desbancar a de Bolsonaro, caso convença as massas que foi ele o responsável por essa melhora. E o "momento adequado" para que ele anuncie sua decisão poderá ocorrer apenas no limite permitido pela legislação para o registro de candidatos (15 de agosto do ano que vem).

Além da distância temporal, outra questão que pode embaralhar as eleições no próximo ano é o fator Lula. O ex-presidente, um dos grandes atingidos pela Operação Lava Jato, tem uma porcentagem de eleitorado fiel, mas aguarda a decisão de segunda instância sobre a condenação de 9 anos e seis meses recebida por corrupção e lavagem de dinheiro. Isso impossibilitaria sua candidatura e, segundo as projeções, a decisão só deve acontecer na metade do ano que vem. "Essa questão é interessante porque o Lula está acima do PT. Embora o PT esteja com descrédito, Lula acaba tendo ainda um certo eleitorado cativo. Mesmo que ele não ganhe a eleição, o que pela sua taxa de rejeição é possível [59%, segundo pesquisa Ipsos de setembro], ele passou por três anos de um desgaste incessante e, mesmo assim, ainda consegue liderar a corrida", destaca Pedro Cavalcante, professor e doutor em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB).

Caso Lula seja impossibilitado de disputar, ele liberará às vésperas do pleito um estoque de eleitores cujas preferências também não são fáceis de prever. Nenhum dos nomes alternativos apresentados pelo PT desperta, até o momento, grandes paixões nos eleitores lulistas. E o tempo de campanha que restará poderá não ser suficiente para se construir uma alternativa como Fernando Haddad (1% das intenções de voto no último Ibope). Por isso, para os demais partidos de esquerda, talvez seja esse o momento de começar a construir uma alternativa a Lula, e uma candidatura própria do PCdoB, para disputar com nomes do PSOL, pode ser estratégica.

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