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A ala do PSDB que quer Alckmin no Planalto com os votos da esquerda

Movimento 'Esquerda pra Valer' quer resgatar a social-democracia do partido e vê Alckmin como um “nome alinhado” com a defesa dos direitos humanos

O governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) deu nesta semana o primeiro passo declarado rumo à sua candidatura à presidência. Em uma tacada só, lançou um novo site, mudou suas fotos de perfil nas redes sociais e passou a usar a hashtag #PreparadoParaOBrasil em suas publicações. Em sua página no Facebook afirmou defender “as prévias com muito entusiasmo”. Em sua conta no Twitter, usou títulos de reportagens na imprensa nacional para enaltecer seu Governo.

Eleições 2018
Alckmin, em São José do Rio Preto (SP), em julho.

Enquanto o discreto governador caminha para ser o candidato do PSDB, uma organização dentro do seu partido tenta turbinar a campanha, colando nele a marca de um político de centro-esquerda, social-democrata, comprometido com os direitos humanos. O movimento Esquerda pra Valer (EPV) diz que pretende resgatar o eleitor “progressista do PSDB”. E para isso, Alckmin seria “um nome alinhado” com o que defende esta ala do partido, de acordo com o coordenador nacional do EPV, Fernando Guimarães.

Dentre as pautas defendidas estão a descriminalização e regulamentação da maconha e do aborto, cotas raciais e a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas. Temas nunca  antes defendidos por Geraldo Alckmin. Guimarães afirma que quer resgatar o “eleitor histórico do PSDB” e defende que o partido é de “centro-esquerda”, mas se distanciou muito de seus eleitores nos últimos anos por causa de “algumas pautas equivocadas na bancada do partido no Congresso”.

Sergio Fausto, cientista político e superintendente da Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso, confirma esta tese. “O PSDB foi um partido de centro-esquerda nas suas origens e o que este movimento busca fazer é deslocar o partido para a sua posição original”, diz. “Eu vejo com muito bons olhos”. Ele não soube dimensionar o real tamanho que o EPV ocupa dentro do PSDB.

O grupo diz que é contra o impeachment de Dilma Rousseff. Apesar disso, nenhum dos 52 deputados e 11 senadores da bancada tucana no Congresso votou contrário ao impedimento da petista na época. Fontes próximas ao partido dizem que este fato é um indicativo da falta de representatividade da organização dentro do PSDB. Afirmam que o EPV não deve interferir, por exemplo, no programa de governo de uma eventual candidatura de Alckmin, embora seja conveniente para o atual governador se aproximar dos rótulos oferecidos pelo movimento.

Guimarães esclarece, no entanto, que o grupo não foi criado agora, apenas pensando nas próximas eleições. Segundo ele, o EPV foi constituído em 2004, é feito de 160 militantes orgânicos, entre lideranças, dirigentes e parlamentares, de 14 Estados. Eles defendem, por exemplo, Alberto Goldman (vice-governador de São Paulo na gestão José Serra, entre 2007 e 2010, tornando-se titular até 2011) para a presidência do partido no lugar do senador Aécio Neves. Realizam um encontro anual no qual aprovam um caderno de teses, onde estão as pautas defendidas. “Sempre tivemos um foco mais voltado para dentro do partido”, explica Guimarães. “Ocorre que o momento nacional hoje, quando se tem um avanço de setores da direita, do conservadorismo, de retrocessos nos direitos humanos, faz com que os movimentos tenham que ter uma voz maior. Por isso estamos com mais visibilidade”.

O PSDB conta hoje com 1,5 milhão de filiados, segundo o coordenador do EPV. Ele diz que não tem uma “preocupação numérica” quanto ao tamanho da sua organização. “Não trabalhamos muito com quantidade. Temos um processo mais qualitativo”, diz. Afirma que há um grupo no Facebook onde estão cerca de 5.000 militantes. Na página pública do grupo nesta rede social foi publicado um vídeo de Alckmin durante um encontro do movimento na semana passada. Ali, o governador dizia que “não tem economia moderna sem consumo nem salário ou renda. Não existe isso. Nós temos que ter um foco na inovação e outro na questão social. Aí vem a social-democracia”.

"Pseudo-liberal"

Com as pautas mais próximas à esquerda, Guimarães diz que pretende atrair inclusive eleitores decepcionados com o PT. “O que difere PT e PSDB não é a doutrina fundamentalmente, mas a prática”, diz. “O mesmo eleitor que vota no PT votaria no PSDB tranquilamente”. Para ele, candidatos da ultradireita, como o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), não terão a mesma força que PT e PSDB para competir nas urnas. “Esta eleição está muito fragmentada”, diz. “Mas se a gente apostar num cenário onde todos que estão se apresentando de fato coloquem as suas candidaturas, o que vai haver é uma situação onde tudo pode acontecer. Nisso, eu insisto que PSDB e PT ainda são os favoritos, e Lula é um potencial adversário".

Os gestos agressivos na política neste momento também podem soprar a favor do governador paulista. Se em outros momentos Alckmin fora comparado a um picolé de chuchu por falta de energia em suas atitudes, agora, em meio um período de virulência empregado em discursos nas redes sociais , esta personalidade outrora classificada “insossa” virou sinônimo de ponderação para alguns eleitores de esquerda. Temendo que a tese de um pleito entre a direita e a extrema-direita vingue, Alckmin seria uma alternativa “menos pior”. O ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), tido como o plano B do PT caso a candidatura de Lula seja impedida pela Justiça, vem elogiando o governador publicamente. "Convivi e trabalhei quatro anos com o governador Alckmin e nunca ouvi de um empresário qualquer insinuação sobre desvio de conduta da parte dele", elogiou o petista. A ex-presidenta Dilma Rousseff foi ainda mais clara que seu correligionário: "Eu preferia o Alckmin ao Doria e ao Bolsonaro. Acho que o país preferia um candidato do perfil do Alckmin", disse, para o jornal Folha de S. Paulo.

Enquanto o ex-presidente Lula realiza uma segunda caravana para fazer campanha, desta vez por Minas Gerais, dentro do PSDB a disputa ainda é por quem será o candidato do partido. E Alckmin sabe disso. Por isso, lançou a campanha defendendo as prévias. Seu maior rival até o momento é sua própria criatura, o prefeito de São Paulo João Doria, apadrinhado pelo governador quando se elegeu em 2016. Quanto a isso, Guimarães é taxativo. “Vamos trabalhar contra o lançamento da candidatura do Doria”, diz. “Não há a menor identificação dele com o PSDB. Foi um equívoco a candidatura dele”.

Doria, porém, foi eleito candidato nas prévias do partido, realizadas em março do ano passado. Guimarães justifica afirmando que não houve debate naquela época. Questionado se apoiariam o prefeito para uma eventual candidatura ao governo do Estado, novamente ele vira as costas para Doria. “Não apoiamos a candidatura dele a nenhum cargo”, diz. “O PSDB tem nomes históricos a oferecer ao país, não vamos apoiar um pseudo-liberal. Ele que procure um partido alinhado com o perfil dele”.

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