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Duelo de Doria e Alckmin acelera corrida eleitoral com acenos do PMDB ao prefeito

Batalha no ninho tucano também é influenciada por blindagem a Temer. "Doria tem as portas do PMDB abertas", diz o presidente do Senado

Eleições 2018 Alckmin e Doria
O governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria, em maio de 2017

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), perdeu para o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), o uso corrente do slogan “Acelera São Paulo”, nome de um antigo projeto de Alckmin na Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico. Só que na última semana o risco de perder mais do que o slogan, a inscrição de candidato do PSDB à Presidência da República em 2018, acelerou a movimentação de Alckmin, derrotado ao Palácio do Planalto em 2006, para garantir sua vaga nas eleições do ano que vem. Essa disputa silenciosa passou a sofrer a influência até do presidente da República, Michel Temer (PMDB), que barganha com os tucanos o apoio a reformas e a blindagem contra novas ações penais.

Na quarta-feira, Alckmin fez um périplo por Brasília. Encontrou-se com os presidentes do Senado, Eunício Oliveira (PMDB), e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM). Expressou preocupação com os movimentos de Doria, mas reiterou que está no páreo, apesar de abatido pela delação da Odebrecht. “Ele [Alckmin] deixou claro que é candidato a presidente da República”, afirmou Oliveira ao EL PAÍS.

Enquanto esperam Doria e Alckmin colocarem as armas na mesa, os senadores José Serra (PSDB) e Aécio Neves (PSDB) tentam se salvar dos inquéritos da Operação Lava Jato, mas também não descartaram uma candidatura. O presidente interino do PSDB, Tasso Jereissati, anunciou na semana retrasada que, até dezembro, será escolhido o nome do partido para a candidatura à Presidência. Esse calendário favorece Alckmin, pois Doria teria de se lançar presidenciável com menos de um ano como prefeito. Mas, até lá, todos precisam correr para ganhar vantagem nas pesquisas ou zerar distâncias. “Doria acelerou a campanha. Como prefeito, nem existe mais. Vai de Xangai a Belém”, afirmou Alberto Goldman, ex-governador de São Paulo e vice-presidente do PSDB, ao EL PAÍS.

A disputa no ninho tucano também é influenciada pela salvação e blindagem do presidente da República, Michel Temer (PMDB). Tanto para Alckmin quanto para Doria interessa que Temer termine o mandato preservado de ações penais na cartucheira da Procuradoria-Geral da República, mas Alckmin já defendeu que o PSDB abandone o governo Temer e 11 deputados federais do PSDB, influenciados pelo governador, votaram pela abertura de ação penal contra o presidente. Doria defende a permanência do PSDB no governo federal. Não à toa Temer disse a Doria, em conversa reservada, que o PMDB estava de portas abertas para que ele dispute o Planalto em 2018.

“Doria está vendo que vai perder lá dentro [do PSDB]. Temer teve uma oportunidade [na visita a São Paulo] e fez o convite. O PMDB está de portas abertas”, afirmou o presidente do Senado ao EL PAÍS.Como hoje a maior parcela do PSDB no Congresso apoia Temer, a aproximação do presidente da República serve de trunfo a Doria contra Alckmin no xadrez tucano e abre caminho para uma aliança entre tucanos e peemedebistas pelo Planalto em 2018.

Estratégia do prefeito

De acordo com um aliado de Doria, o prefeito não pretende disputar abertamente a candidatura com Alckmin. Não quer passar a imagem de traidor, porque foi Alckmin quem viabilizou no PSDB a candidatura de Doria em 2016 à Prefeitura de São Paulo. Mas o prefeito pretende aumentar sua exposição nacional e sua popularidade nas pesquisas, para surgir “naturalmente” como uma opção mais competitiva aos tucanos. “Para efeito de comunicação, Alckmin tem um batonzinho na cueca com a história delatada pela Odebrecht. Doria ainda não tem”, diz um aliado do prefeito no PSDB.

Doria não perde tempo para se projetar como liderança nacional. Nos próximos meses, vai passear pelo país em roteiro típico de pré-candidato, com presença confirmada até no Círio de Nazaré. Também vai perambular por outros países. Já há viagens previstas para Cingapura e Itália. Tudo enquanto martela o discurso de que é um “gestor”, como gosta de repetir.

“Doria não é percebido como novidade. Não é como o Emmanuel Macron [novo presidente francês]. Ele me lembra um pouco o Donald Trump [presidente dos Estados Unidos], com quem eleitores se identificaram não pelo lado ideológico, mas porque tem discurso claro”, afirmou ao EL PAÍS a historiadora Marly Motta, doutora em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Velhos candidatos

Enquanto tucanos disputam o posto de presidenciável, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já se diz candidato à Presidência da República pelo PT desde o ano passado. Um dia depois de ser condenado a nove anos e meio de prisão pelo juiz Sérgio Moro, ele voltou a se declarar candidato. Mas, se for condenado em segunda instância, pode ser barrado pela Lei da Ficha Lima no registro da candidatura e Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, é especulado como um plano B. Para marqueteiros e juristas, a pré-candidatura de Lula é uma estratégia de defesa de benefício múltiplo – ao se declarar perseguido, ele mantém seu patamar de votação; em caso de vitória, interrompe a tramitação de condenações em segunda instância e afasta o risco de prisão. Outro velho candidato à Presidência que já está em campanha é o ex-ministro Ciro Gomes, pelo PDT, que concorrerá pela terceira vez.

Bolsonaro em espera

Quem também já declarou intenção de se candidatar foi o deputado federal Jair Bolsonaro pelo Partido Ecológico Nacional (PEN) desde que a agremiação retire uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) que tenta reverter o entendimento da corte de que a prisão deve ser decretada após condenação em segunda instância. Para a historiadora Marly Motta, Bolsonaro ocupa um palanque eleitoral que já foi do integralista Plínio Salgado (1895-1975), derrotado com 8% dos votos na eleição presidencial de 1955 quando foi eleito Juscelino Kubitschek. “O discurso do Bolsonaro parece com o do Plínio Salgado. Muito moralista, mas o alcance fica restrito a uma franja da sociedade”, avalia a historiadora.

Colaborou Maria Martín

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