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Mar de gente como escudo para campanha de Lula, alvo de nova denúncia

Enquanto Rodrigo Janot denunciava o ex-presidente por organização criminosa, ele encerrava caravana de 22 dias pelo Nordeste

Caravana de Lula realiza ato em Mossoró, no último dia 28.
Caravana de Lula realiza ato em Mossoró, no último dia 28.Ney Douglas (EFE)
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Os moradores de Marcolândia, na divisa entre os Estados de Pernambuco e Piauí no meio do sertão brasileiro, não veem chuva há cinco anos. “Quando chovia, até dava pra tirar um feijão, uma mandioca da terra”, conta Antônia Maria Lins, 42, sob um sol de quase 40 graus que fazia na cidade de cerca de 8.000 habitantes. “Mas agora não tem como”. A renda da família dela, composta por nove pessoas, é de 480 reais por mês, pouco mais da metade de um salário mínimo (937 reais), e tudo vem integralmente do programa Bolsa Família. De batom, blusa vermelha, calça jeans e sandália, ela levou um dos seus sete filhos para ver o ex-presidente Lula falar em um ato político na cidade. “Ele é o nosso pai”, dizia ela, segurando um pedaço de papelão em cima da cabeça para se proteger do sol. “O [presidente] Temer está na China, né?”, perguntou, mencionando que havia visto na televisão a agenda do presidente naquele país. “ Enquanto ele está lá, o Lula está aqui com a gente”.

O relato da sertaneja foi uma constante durante os últimos 22 dias, quando o ex-presidente petista, para usar uma metáfora futebolística a seu gosto, jogou em casa. Nesta terça-feira, enquanto era denunciado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, por organização criminosa, Lula finalizava, em São Luís do Maranhão, uma caravana que realizou pelos nove Estados do Nordeste, passando por dezenas de cidades e sendo aclamado por milhares de eleitores. A 14 meses para a eleição que sucede o impeachment, o líder do Partido dos Trabalhadores entra em campo de vez na campanha presidencial. Hostilizado em cidades das regiões Sul e Sudeste do país, escolheu a região que mais o acolhe para subir no palanque e dizer que é o candidato do PT à presidência, se, até lá, não houver nada que o impeça. “E se eu for candidato, vai ser pra ganhar”, disse, no Crato, no Ceará. Afirmou também que, caso haja algum impedimento, ele mesmo tratará de encontrar alguém para cumprir a missão.

Condenado pelo caso do tríplex e réu em seis ações no âmbito da Lava Jato, o petista evitou falar sobre o assunto nos seus discursos durante o giro, tratando o tema como “perseguições”. “Eu sei que a perseguição que eu estou sendo hoje vitimado não é uma perseguição ao Lula. Porque o Lula já tem idade suficiente, o Lula já apanhou demais, o Lula já aguenta um tanto”, disse, em Currais Novos (RN). “O que eles estão é tentando tirar do povo brasileiro as conquistas que nós tivemos nos últimos anos”, afirmou, passando longe de um discurso com tons de mea culpa. Abraçado por seu eleitorado, o giro do pré-candidato pelo Nordeste se estabelece como uma espécie de escudo para ele. Aumenta os riscos políticos daqueles que o PT considera como adversários, de tomar ações drásticas, como, por exemplo, determinar sua prisão.

Seus eleitores, verdadeiros fãs do metalúrgico que em muitos pontos da viagem fizeram a caravana parar no meio da estrada para que o presidente fizesse um aceno, tampouco falam sobre a corrupção. Em uma região tão pobre e seca, as prioridades são outras. “Antes de Lula não tinha água nem luz”, contou Antônia Maria do Nascimento, 38, em Ouricuri (PE). “As mulheres saíam com um balde na cabeça atrás de água para as crianças. E ainda tinham que esconder dos mais velhos para poder dar a água aos mais novos”, lembrou ela, que mora na região rural da cidade com o marido e três filhos, sendo dois beneficiados pelo Bolsa Família. “Agora tem água, tem luz. Agora a gente está no céu”.

2018, o ano precoce

Pelas cidades por onde passou, o ex-presidente fez discursos enaltecendo as conquistas sociais e o legado do Governo dele e de sua sucessora Dilma Rousseff (2003 a 2016). Mencionou programas como Bolsa Família, o Prouni e a construção de cisternas, os reservatórios de água que estão presentes em toda a paisagem de casebres ao longo das estradas do sertão. “Para quem mora na avenida Paulista, para quem mora em Boa Viagem [Recife], para quem mora em Copacabana, não sabe o valor de uma cisterna para o sertanejo que às vezes passa meses sem ver a chuva”, afirmou, em Ouricuri (PE).

As privatizações planejadas pelo Governo Temer também estiveram no alvo dos discursos. "Eles já estão vendendo a Eletrobras, vão vender a Liquigás e daqui a pouco vão querer vender o Banco do Brasil", disse, em Mossoró (RN). "A Casa da Moeda eles vão vender", afirmou. Não mencionou que Temer é fruto de uma chapa do PT, costurada por ele mesmo. Limitou-se ao ataque. "Se essa gente não sabe governar o país, eles não deveriam ter dado o golpe e [deveriam] deixar que quem sabe governar, governe este país". Prometeu que, se for eleito novamente, as vacas gordas também voltarão. Mas não disse de que maneira viabilizaria a saída da crise econômica mundial na qual o país entrou logo após o término de seu Governo.

"Para quem mora na avenida Paulista, para quem mora em Boa Viagem [Recife], para quem mora em Copacabana, não sabe o valor de uma cisterna para o sertanejo que às vezes passa meses sem ver a chuva”, disse Lula.

Repudiou a elite e a “grande imprensa”. “Nós queremos dizer a eles que não queremos ser apenas pedreiros. Nós temos orgulho da profissão de pedreiro, mas nós queremos ser engenheiros também”, disse, em Quixadá (CE). “E a gente pode. Que história é essa de que nós nascemos para virar a parte pobre do país?”, disse.

Com um eleitorado estratégico, o Nordeste tem sido palco das disputas. A região tem recebido visitas de João Doria (PSDB), prefeito de São Paulo que ainda não assumiu publicamente sua candidatura, e do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Mas ali, o petista, por enquanto, é o dono do jogo. Segundo o Instituto Datafolha, em junho, Lula não somente liderava a pesquisa, com 30% das intenções de voto, como também atingia os maiores índices de eleitores no Nordeste, 40%. Por isso, elegeu a sua região – é de Caetés (PE), cidade que, por sinal, não recebeu sua visita nesta caravana – para ser acolhido e tomar fôlego para enfrentar os meses que seguirão.

O gás político será necessário. Na semana que vem, o ex-presidente vai a Curitiba fazer seu depoimento ao juiz Sergio Moro no processo em que é acusado de aceitar a compra de um terreno para o Instituto Lula com dinheiro que, supostamente, seria de propina. Enquanto isso, o Partido dos Trabalhadores se prepara para novas caravanas, que devem estaduais e menores. Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo estão nos planos do partido. Faltam 14 meses, mas a bola já está em jogo.

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