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Braskem depositou 5 milhões de reais em conta ligada a homem de confiança do presidente do México

Diretor da empresa diz que contava com o apoio do partido do presidente Enrique Peña Nieto para o desenvolvimento de um projeto no país

Peña Nieto e Emilio Lozoya conversam em um ato de 2014.
Peña Nieto e Emilio Lozoya conversam em um ato de 2014. cuartoscuro

A sombra da Odebrecht paira cada vez mais forte sobre o México e próxima ao presidente Enrique Peña Nieto. Se em agosto uma de suas pessoas de confiança, o ex-diretor da Pemex, Emilio Lozoya, foi acusado por três ex-diretores da construtora brasileira de receber 10 milhões de dólares (32 milhões de reais) em subornos, na segunda-feira veio a público que uma filial da Odebrecht, a Braskem, depositou 1,5 milhão de dólares (5 milhões de reais) a uma empresa ligada a Lozoya em 2012, quando ele era o coordenador da área internacional da campanha presidencial de Peña Nieto.

“Acompanhamos integralmente toda a campanha do PRI, do partido PRI, e do atual presidente Enrique Peña Nieto. Não somente ele, mas também sua equipe”, afirmou em 2013 a um grupo de investidores Carlos Fadigas, à época diretor da Braskem, segundo uma transcrição do encontro revelada pela organização Mexicanos contra a Corrupção e a Impunidade (MCCI) e publicada pelo jornal Reforma.

De acordo com os novos documentos obtidos pela MCCI, durante a campanha presidencial de Peña Nieto a Braskem realizou três transferências no valor de 1,5 milhão de dólares (5 milhões de reais) à empresa Latin America Asia, localizada nas Ilhas Virgens, ligada por delatores e testemunhas protegidas da justiça brasileira na Operação Lava Jato a Emilio Lozoya. As transferências vinham da Braskem, filial petroquímica da Odebrecht, que à época participava da construção de uma fábrica no Estado de Veracruz, junto com uma empresa mexicana. O ex-diretor da Pemex negou qualquer relação com essa empresa, assim como ter participado de qualquer ação ilícita da Odebrecht no México. Diante das seguidas acusações contra ele, Lozoya se defende dizendo que a Procuradoria Geral da República (PGR) não tem uma investigação aberta contra ele.

Em agosto foi divulgado que três ex-diretores da Odebrecht afirmam em declarações juramentadas, que Lozoya recebeu subornos no valor de 10 milhões de dólares (32 milhões de reais) entre 2012 e 2016 por ajudar na assinatura de contratos. As delações, obtidas à época pela El Quinto Elemento Lab, uma organização de jornalistas mexicanos, correspondem a funcionários da construtora – Luis Alberto de Meneses, Luiz Mameri e Hilberto da Silva – que concordaram em colaborar com a Justiça em troca de benefícios em suas penas. Os documentos e depoimentos indicam que Lozoya pediu e recebeu 4,1 milhões de dólares (13 milhões de reais) entre abril e novembro de 2012, ou seja, durante e após a campanha eleitoral presidencial mexicana desse ano.

Na semana passada as supostas ligações entre a Odebrecht e Lozoya tiveram outra reviravolta. O promotor especializado em crimes eleitorais, Santiago Nieto, afirmou que o ex-diretor da Pemex lhe pressionou para que fosse declarado inocente. De acordo com a versão de Nieto, Lozoya também exigiu desculpas. Na sexta-feira, foi destituído do cargo por violar o código de conduta da PGR, como informou a instituição em um comunicado. O ex-diretor da Pemex voltou a negar os fatos na segunda-feira e afirmou que deu ordens aos seus advogados para que processem Nieto por violar seus direitos.

As acusações sobre a suposta relação de Lozoya com a Odebrecht, entretanto, vão além do antigo chefe da petrolífera mexicana. Filho de um secretário de Energia no mandato de Carlos Salinas de Gortari e neto de um general e governador do PRI, ele era considerado uma das pessoas mais fiéis de Peña Nieto, que até agora se esquivou de qualquer relação com a trama corrupta da empresa, que afetou diversos presidentes latino-americanos fora do Brasil, caso dos peruanos Ollanta Humala e Alejandro Toledo e, em menor escala, o presidente colombiano, Juan Manuel Santos.

Até agora se sabia que Peña Nieto se reuniu no Brasil com Marcelo Odebrecht, dono da construtora, em abril de 2010 quando o atual presidente era governador do Estado do México. Na segunda-feira, de acordo com a nova informação revelada pela MCCI, veio a público que ambos voltaram a se encontrar em Toluca em 2011, quando Peña Nieto já se apresentava como candidato presidencial. Segundo consta em e-mails que são parte da investigação da Lava Jato, um terceiro encontro entre os dois ocorreu em novembro de 2012, poucos dias antes de assumir a presidência. Pouco depois, de acordo com a investigação, Peña Nieto conversou com Fadigas, que afirmou a um grupo de investidores: “Já conversamos com o Governo do México, não só com o presidente Enrique Peña Nieto, mas também com Emilio Lozoya, atual presidente da Pemex, e me parece que o caminho que pretendem seguir é muito coerente com a campanha”.

 

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