Arábia Saudita

Dirigir é só um primeiro passo para as mulheres na Arábia Saudita

Vigência do sistema de tutela no reino reduz às cidadãs a eternas menores de idade

Mulher ao volante, em Riad
Mulher ao volante, em Riad

Não houve carreatas femininas na Arábia Saudita para comemorar o decreto real que enfim permite que as mulheres dirijam veículos no país. Apesar de a decisão ter sido elogiada como prova das reformas sociais empreendidas pelo poderoso filho do rei, o príncipe-herdeiro Mohamed bin Salman, ela tem mais a ver com cálculos políticos e necessidades econômicas do que com a emancipação feminina. Tampouco se trata de um reconhecimento às décadas de ativismo das sauditas, ou ao fato de que muitas delas têm carteiras de motorista expedidas em outros países. Resta articular como será implementada na prática uma medida capaz de mudar a imagem do reino.

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“A Arábia Saudita não voltará a ser a mesma. A chuva começa com uma só gota”, tuitou Manal al Sharif, que em 2011 se transformou no rosto da iniciativa WomenToDrive (“mulheres para dirigir”), quando foi detida após ser flagrada ao volante. Al Sharif, que passou nove dias presa e atualmente vive na Austrália, acaba de publicar Daring to Drive. A Saudi Woman’s Awakening (“ousando dirigir – um despertar da mulher saudita”), em que fala daquela experiência.

Após anos usando o conservadorismo da sociedade saudita como justificativa, a monarquia tornou a se impor ao estamento clerical em que tradicionalmente busca sua legitimidade. Não é a primeira vez: já havia feito o mesmo com o tabaco, a televisão e a educação feminina. Mas se trata de um delicado exercício de equilibrismo. Por isso o Governo não queria dar a impressão de ceder às ativistas, ou de ter retardado o debate no Conselho Consultivo sobre a redução de poderes da polícia moral. Sem conseguir consolidar sua tentativa de se legitimar pelo nacionalismo, a religião continua sendo o principal contraforte do regime.

“Aplaudir a monarquia saudita por suspender a proibição de mulheres ao volante é como aplaudir um sequestrador por libertar os seus reféns”, comentou Ali al Ahmed, diretor do Instituto do Golfo e conhecido opositor do regime. Para os mais críticos, o anúncio é uma manobra de distração frente aos enormes desafios socioeconômicos e a repressão interna. Se o objetivo fosse mesmo a mudança, defendem, seria suprimido sistema de tutela que reduz às sauditas a eternas menores de idade.

Muito mais do que dirigir, a principal reivindicação das ativistas é o fim da tutela. Mas a anacrônica proibição, sem comparação no resto do mundo, virou um símbolo do resto das limitações que o reino impõe às mulheres. É significativo que seu embaixador nos EUA, o príncipe Khaled bin Salman, filho do rei e irmão mais novo do herdeiro, tenha tido que esclarecer que não será necessária a autorização de um homem para tirar a carteira, e que elas poderão dirigir desacompanhadas.

Atualmente, as sauditas precisam de autorização prévia do tutor (pai, marido ou, na ausência destes, outro homem que tenha sua custódia) para tirar passaporte, viajar ao exterior, estudar na universidade, casar e sair da prisão após cumprir uma pena, entre outras atividades. Uma ordem real para suavizar esse imperativo, em abril, ainda está pendente de ser concretizada. Mesmo num contexto tão restritivo, porém, a possibilidade de dirigir abre grandes perspectivas de mobilidade e de acesso ao trabalho, já que o transporte público nas cidades sauditas é escasso, e o custo de ter um motorista não está ao alcance de todas as famílias.

O fator econômico foi sem dúvida crucial. Em 2015, o Fórum Econômico Mundial situou a Arábia Saudita na 138ª. posição num ranking de 145 países classificados segundo as oportunidades e participação econômica das mulheres, e o Banco Mundial qualifica o reino como uma das 15 economias que mais dificuldades impõem a elas para abrir um negócio. Entretanto, o projeto de diversificação lançado no ano seguinte pelo príncipe Mohamed menciona explicitamente “fortalecer as mulheres e tornar efetivo o seu potencial”, com o objetivo de elevar sua participação na força de trabalho e a produtividade nacional. Assim, permitir que dirijam carros serve para confirmar seu compromisso com o plano Vision 2030, além de projetar uma imagem mais moderna e liberal.

Um relatório da Bloomberg estima que autorizar as sauditas a dirigir poderia se traduzir em um crescimento de 0,4 a 0,9 ponto percentual no PIB anual durante as próximas duas décadas. Ou seja, somar até 90 bilhões de dólares à economia saudita até 2030. Por enquanto, as ações de empresas relacionadas ao setor automotivo já registraram alta. Assim que o decreto real foi publicado, os fabricantes se apressaram em felicitar as mulheres, na expectativa de aumentar suas vendas. Mas estas nunca foram proibidas de comprar carros, só de dirigi-los; isto obrigava que elas ou suas famílias contratassem um motorista. Segundo a imprensa local, até 800.000 dos quase 1,5 milhão de imigrantes contratados como choferes se dedicam a transportá-las.

Há quem faça contas sobre a economia que a mudança vai representar. Não será automático. O Careem, um serviço similar ao Uber que opera em vários países da zona, fala em contratar 100.000 motoristas mulheres para conquistar a fidelidade das suas usuárias, que, dado o conservadorismo local, supostamente preferirão ser transportadas por condutoras. Pela mesma regra de três, alguns analistas locais esperam que as famílias substituam os seus motoristas por “condutoras estrangeiras especializadas”. “Poderiam também ajudar nas tarefas do lar”, sugere um acadêmico islâmico.

Deixando de lado até onde – e quando – as mudanças podem chegar, a revogação da proibição exige medidas práticas de curto prazo. De autoescolas com instrutoras mulheres (o sistema de segregação impede que homens deem aulas a mulheres) até novas vagas de estacionamento (também segregadas?) em centros educativos e órgãos públicos. A Universidade Rei Saud, em Riad, já prepara 4.500 vagas para alunas e professoras. E a Universidade Princesa Nura (exclusivamente feminina), também na capital, anunciou uma autoescola em seu campus.

“Se até junho do ano que vem as mulheres estiverem dirigindo na Arábia Saudita sem medo de serem detidas, será motivo de comemoração. Mas é só um passo”, afirmou, redobrando a prudência, Philip Luther, diretor da Anistia Internacional para o Oriente Médio.