Imigração nos EUA

Imigrantes protestam contra fim de benefício nos EUA: “Hoje é o dia em que nos levantamos”

Trump suspendeu programa de proteção a estrangeiros que chegaram menores de idade ao país

Manifestação em frente a Casa Branca, na terça-feira, dia 5
Manifestação em frente a Casa Branca, na terça-feira, dia 5 (AFP)

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“Hoje é o dia em que nos levantamos”, diz desafiadora entre aplausos Melodie K., uma beneficiária do Ação Diferida para Chegada de Jovens Imigrantes (DACA em inglês) em Los Angeles, uma hora depois do anúncio oficial do fim do programa que protege da deportação imigrantes que chegaram ainda menores de idade. Cenas similares foram vividas em Washington, em frente a Casa Branca, e na Quinta Avenida de Nova York, onde grupos defensores dos imigrantes interromperam o tráfego com cartazes de “Nazistas fora da Casa Branca” ou em Miami, onde se concentraram centenas de pessoas na frente da Freedom Tower. É a primeira reação de indignação de grupos que lutam há décadas pelos direitos dos imigrantes e se manifestaram nas grandes cidades. O EL PAÍS ouviu suas histórias nessa manhã infeliz.

Miami

“Aqui não termina a batalha”

“Não vamos nos dar por vencidos. Trump está despertando um gigante adormecido”, disse nesta terça-feira, dia 5 de setembro, em Miami, María Angélica Ramírez, colombiana de 30 anos, que chegou há 16 aos EUA e é beneficiária do programa DACA. Na cidade mais populosa da Flórida, reuniram-se dezenas de ativistas e dreamers (sonhadores) para protestar contra a decisão de Trump de cancelar a proteção a imigrantes que chegaram aos EUA ainda menores de idade. “Sinto que o presidente só quer ficar bem com os racistas”, disse Ramírez. Em sua camiseta azul, a frase: “Sou poderosa”.

Protesto em Miami, na terça-feira, dia 5 de setembro
Protesto em Miami, na terça-feira, dia 5 de setembro (AP)

A Flórida é o terceiro Estado do país com mais beneficiários do DACA (90.000) depois da Califórnia e do Texas. O protesto foi realizado na entrada da Torre da Liberdade, um dos primeiros arranha-céus da cidade, que serviu de acolhida aos exilados cubanos nos anos sessenta.

Armando Carrada, 27 anos, chegou aos EUA com sete anos cruzando a fronteira do Texas sem papéis com a mãe, a tia e a irmã. Na Flórida, sua mãe se empregou na colheita de tomates para sustentar a família. Hoje Carrada é editor de uma empresa de fotografia de eventos e está concluindo os estudos de hotelaria. Sua família saiu de Oaxaca, a região mais pobre do México. “É preciso seguir lutando dia a dia”, reagiu o jovem diante do anúncio do fim do DACA, sob o qual também está abrigado. “Aqui não termina a batalha.” Sobre Trump, disse: “Tento não odiar ninguém...” e acrescentou: “Querem nos meter medo, mas não vamos deixar que façam isso”.

Ramírez, com um filho de três anos nascido nos EUA e funcionária de uma ONG, não imagina sequer a possibilidade de ser deportada a seu país de origem, de onde sua família fugiu para escapar da violência: “Teria que começar minha vida do zero”. Acusou Donald Trump de “estar separando famílias”.

Carrada afirmou que em médio prazo continua se vendo em seu país, os EUA, “casado, com um trabalho a oferecer para esta sociedade e sem me esquecer de meus princípios nem de minha comunidade”. Ramírez espera conseguir a cidadania americana e assim corresponder aos EUA por tudo que, segundo ela, essa condição lhe proporcionou: “Muitas das coisas mais importantes de minha vida aconteceram neste país. Só peço aos EUA que me permita dar-lhe todos os presentes que tenho”. A Trump, ela diria: “Não vamos nos dar por vencidos”. E ele: “Os 11 milhões de sem documentos deste país estamos à sua frente e não vamos deixar que nos jogue na lama enquanto você está aí sentado em sua cadeira dourada”.

Washington, DC

“Este presidente mentiu para nós”

Diego Quiñones está em greve de fome. Chegou aos Estados Unidos vindo de Guadalajara (México) com sete anos e não voltou desde então. Agora tem 27, noiva norte-americana e trabalha em uma empresa de andaimes de madeira no Arkansas. No ano passado, foi estagiário no escritório do senador democrata Bob Menendez em Washington. Mas em seis meses corre o risco de ser deportado.

Manifestantes em frente ao hotel de Trump em Washington
Manifestantes em frente ao hotel de Trump em Washington (REUTERS)

Diante dos portões da Casa Branca, com uma camiseta do Real Madri, Quiñones acredita que sua causa seja justa. “Demos o exemplo, abrimos negócios, somos médicos, engenheiros; é algo que não faz sentido. Nem sentido moral”, afirma. Se o Congresso não é capaz de aprovar uma lei que ampare os dreamers nos próximos seis meses — o tempo determinado pela Casa Branca —, Quiñones tentará ficar, mesmo irregular. “Já fiquei sem documentos aqui antes, farei isso outra vez, mesmo sendo uma situação difícil. Mas agora é hora de lutar e pressionar o Congresso.”

Desde cedo, centenas de pessoas protestavam às portas da residência de Trump. “Com o DACA tive a oportunidade de encontrar melhores trabalhos e de estudar, algo que antes não pude fazer”, diz Francisco, que fala melhor inglês do que castelhano. Chegou aos EUA com dez anos, em 2001. “Sinto-me mais americano do que do Equador”, confessa. “Sou americano em todos os sentidos da palavra, menos em um pedaço de papel”, afirma seu amigo, Ángel, que chegou aos dois anos do México.

Os líderes de várias organizações sociais declararam para a mídia que agora começa sua “luta”. “Não vamos permitir enganos. Este presidente mentiu para nós. Durante meses, disse ‘Amo os dreamers, tenho uma grande simpatia pelos dreamers’. Lembrem como começou sua campanha; disse que éramos estupradores e criminosos. Não vamos esquecer”, disse Gustavo Torres, presidente de CASA, uma organização dedicada à defesa dos latinos. Nos próximos meses os protestos para que o Congresso aprove uma lei que os proteja se intensificarão.

Nova York

“Nazistas fora da Casa Branca”

Os dreamers fizeram ouvir sua voz de protesto diante da Trump Tower. A Quinta Avenida ficou interrompida ao trânsito durante meio dia. “Não tenho medo”, disse o mexicano Fidel Escalona, “o DACA mudou nossa vida e por isso vamos continuar lutando”. Chegou aos EUA quando tinha 14 anos. Agora tem 27. Trabalha na cozinha de um restaurante, “o dono me deu um salário melhor”.

Ativistas concentrados em Nova York, terça-feira, dia 5
Ativistas concentrados em Nova York, terça-feira, dia 5 (AFP)

Gloria Mendoza tem 26 anos. Está há 23 no país. Esta artista do Brooklyn recorda o medo que seus pais tiveram quando se inscreveu no DACA, pois seus documentos poderiam delatá-los no futuro como ilegais e colocar a todos em perigo. “Sabem onde moro, onde estudei e quem são os membros de minha família”, comenta, “mas acho que foi um passo muito grande para nossa comunidade.”

Esses jovens sonhadores têm a esperança de que o Congresso pactue um plano alternativo, apesar de reconhecerem que seis meses é pouco tempo, porque há múltiplas batalhas políticas abertas. “Vamos lutar até que tomem uma decisão”, afirma Cristina Alfaro, que rejeita o argumento legal. Chegou aos EUA com 9 anos. Sua mãe voltou ao México. Agora tem uma filha. “É muito difícil ser uma mãe imigrante, mas isso me fez mais forte para lutar.”

A polícia realizou cerca de 30 prisões, quando vários dos manifestantes bloquearam o cruzamento que dá acesso à Trump Tower, formando uma corrente humana. “Abaixo os nazistas na Casa Branca”, era o que se lia em alguns cartazes. “Educação, não deportação”, diz o de Escalona, que explica como graças ao DACA teve acesso a programas de formação profissional em sua comunidade. “Não se pode deportar ideais”, insiste Mendoza.

Los Angeles

“Um dia de vergonha para a América”

Detalhe do protesto em Los Angeles, terça-feira, dia 5
Detalhe do protesto em Los Angeles, terça-feira, dia 5 (AFP)

Um de cada quatro beneficiários do programa DACA vive na Califórnia. Duas horas depois do anúncio do Governo, Melodie K., líder do movimento dos dreamers em Los Angeles, dizia desafiadora: “Hoje é o dia em que nos levantamos”. Disse que era “um dia de vergonha para a América” e advertiu que os imigrantes são “corredores de fundo, lutando há anos”. Dezenas de ativistas se concentraram na frente dos tribunais federais da cidade para protestar contra a decisão e previam uma grande mobilização à noite. Os testemunhos foram de desafio. A decisão de Trump foi recebida como uma grande chamada para a mobilização.

Houve lágrimas, “mas não de tristeza, e sim de raiva”, nas palavras de Yamileth, que chegou ao país com sete anos. “Meu pai foi assassinado e minha mãe não teve outra oportunidade além de vir. Ficar na Guatemala teria significado ser estuprada ou pior, então decidiu arriscar e vir”. Estas são as situações às quais os imigrantes podem ser enviados se perderem a proteção. Com a diferença de que eram crianças quando chegaram. São estranhos a esses países.

Vários são os depoimentos como o de Christian Torres, que passou 17 anos sem documentos no país até conseguir o DACA, há três. Lembra-se de ter sido demitido de um trabalho por não ter papéis quando pediu melhores condições. Isso tinha acabado com o DACA. Ou Diana Ramos, que entre lágrimas recordou que a proteção lhe permitiu terminar a licenciatura. Melodie K., de 23 anos, que veio da Guatemala com 9, cursou graduação sobre gestão de ONGs na universidade. “De que me serve se eu ficar sem documentos?”

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