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Turismofobia em Barcelona: grupos radicais agora atacam turistas

Pelo menos sete hotéis de Barcelona sofreram atentados este ano. País Basco também convoca manifestação

Palma de Mallorca / Barcelona

O turismo parece ter se convertido na nova bandeira das juventudes da esquerda separatista da Espanha. Em pleno debate sobre a saturação turística das cidades, as ações do coletivo separatista catalão Arran já não se limitam a Barcelona, onde atacaram um ônibus e bicicletas de uso turístico. O coletivo, que costumavam concentrar seus alvos no território linguístico catalão (o qual denominam Països Catalans), também protagonizou atos similares em Palma e protestos em Valência. Nessa onda de ações, que se sucedem há alguns meses, pelo menos sete hotéis de Barcelona sofreram vandalismo por parte de grupos de esquerda anticapitalista que denunciam o excesso de exploração turística.

turismofobia
Ação do grupo Arran contra o turismo em Palma de Mallorca, em vídeo distribuído pela organização. EFE

Esse movimento já inspira outro. Em San Sebastián, no País Basco, militantes de esquerda também convocaram uma manifestação contra o turismo para o próximo dia 17 de agosto, sob o lema: "Seu turismo, miséria para a juventude". A cidade recebeu no ano passado dois milhões de turistas. Há cinco anos, recebia a metade. Depois de Barcelona, San Sebastián é o destino turístico de maior rentabilidade da Espanha. O Governo local está preparando uma lei para limitar o número de hotéis no centro histórico, a fim de evitar problemas semelhantes aos da Catalunha.

Cerca de 20 membros do Arran Països Catalans invadiram em 22 de julho um restaurante no Moll Vell, o píer situado em frente à catedral de Palma, soltando rojões, atirando confetes nos comensais e subindo nos iates amarrados para protestar contra o turismo em massa em Mallorca. O coletivo divulgou as imagens do protesto pelas redes sociais, em um vídeo no qual é possível ver vários de seus membros portando cartazes com frases como O turismo mata Mallorca e Aqui acontece a luta de classes, escritas em inglês.

No terraço do restaurante Mar de Nudos havia cerca de 70 clientes no momento. Carmen Sánchez, encarregada do estabelecimento, explica que os ativistas lançaram rojões junto às mesas do terraço enquanto três indivíduos entravam no local cobrindo o rosto com máscaras de carnaval e jogando confete nos clientes que jantavam. “Foi preciso trocar pratos e copos das pessoas, tivemos de enfrentá-los e pedir que deixassem o restaurante, que é propriedade privada”, lamenta.

Os ativistas não foram embora e continuaram filmando o que acontecia até que os funcionários chamaram a Polícia Local e os agentes portuários. “Passaram 5 ou 10 minutos até que os policiais chegassem e os jovens fugiram correndo quando os viram de longe”, disse a encarregada, que não prestou queixa nesse momento. A Polícia Local afirma que esse tipo de ação só pode ser feita pela vítima.

A diretora-geral de Turismo do Governo balear, Pilar Carbonell, demonstrou sua rejeição à ação. “Não é legítimo de forma alguma essa forma de colocar em risco as pessoas e os bens materiais dos outros”, afirmou.

O PP das ilhas declarou seu “rechaço veemente” ao que consideram “condutas violentas” e ataques a estabelecimentos com grande afluência de turistas. Mediante um comunicado, o partido condenou “energicamente” o ataque reivindicado pelo grupo independentista.

O mesmo coletivo já protagonizou, no fim de junho em Valência, uma ação simbólica contra o turismo de massa, informa Cristina Vázquez. Um grupo de ativistas ocupou um apartamento em pleno bairro da Ciutat Vella, onde se calcula que se concentre a maioria dos apartamentos turísticos da capital regional, relatou a organização no Facebook. O Arran não tem menor presença nas Baleares e Comunidade Valenciana do que na Catalunha.

Ataques em Barcelona

Pelo menos sete hotéis de Barcelona foram vandalizados neste ano por grupos de esquerda anticapitalista que denunciam o excesso de exploração turística. A Associação dos Hotéis tem registro de cinco incidentes, comunicados pelos próprios estabelecimentos. A contagem da associação não inclui outros dois casos ocorridos em maio e presenciados por este jornal. Os estabelecimentos denunciaram individualmente, mas a entidade setorial não compareceu como parte interessada no juízo. Tampouco o fez o Governo Municipal dirigido por Ada Colau.

“A maioria de ataques aconteceu durante a marcha alternativa do Dia do Trabalho”, disse Manel Casals, diretor-geral do grêmio hoteleiro. Alguns de seus membros comunicaram os ataques, mas não existe nenhum protocolo ou iniciativa da entidade para contá-los. Cada um denuncia de maneira particular e, segundo Casals, a entidade presta assessoria e acompanhamento, mas não participa das ações legais. O vandalismo e o discurso que consideram “turismofóbico” preocupam os hoteleiros, mas insistem que os ataques provêm de “uma minoria dentro de uma minoria que quer pôr em risco a atividade turística”, segundo Casals.

Os ataques se concentraram em dois dias específicos: 1º e 5 de maio deste ano, durante manifestações convocadas por grupos de esquerda anticapitalista, como CUP, Arran e Endevant. No Dia do Trabalhador, os hotéis Ohla Barcelona, Catalonia Magdalenes e Barcelona Catedral, de quatro e cinco estrelas e muito próximos entre si, foram atacados. Os recepcionistas dos hotéis relatam a mesma sequência. A manifestação bloqueou a Via Laietana, e um grupo de cerca de 20 pessoas fantasiadas com narizes de palhaço e perucas coloridas se separou do grupo central da passeata para invadir as recepções. Ali lançaram ovos cheios de tinta preta, fizeram pichações com o lema “BCN Explora” – em referência às condições trabalhistas do setor – e quebraram vidraças a marteladas.

No caso do Ohla, os vidros quebrados foram os do restaurante. No Catalonia Magdalenes destroçaram vidraças na recepção e fizeram pichações. Para surpresa da direção do hotel, os vídeos da ação que estão circulando são das próprias câmeras de segurança do estabelecimento. Avisados por policiais à paisana, os recepcionistas do hotel Barcelona tiveram tempo de fechar as portas de vidro. Os manifestantes as destruíram a marteladas, enquanto atiravam bolas com tinta. Idosos que se reuniam no hall do hotel antes de sair para jantar ficaram muito assustados, contam os recepcionistas.

À frente do protesto em que ocorreram os ataques lia-se o cartaz: "Todo o poder para a classe trabalhadora. Não sofreremos uma vida de miséria para manter seus luxos", uma mensagem crítica contra o que consideram um excesso de turismo na cidade. O Hotel Barcelona Universal teve sua fachada atacada após o protesto.

Também levaram um bom susto, na sexta-feira da mesma semana, os turistas de dois hotéis do Poblenou, um bairro afastado do centro histórico, onde os alojamentos proliferaram devido à proximidade da praia. Neste caso, uma manifestação de 250 pessoas contra a massificação do turismo no bairro, convocada pela plataforma Ens Plantem, acabou com incidentes protagonizados por um grupo que jogou tinta contra os hotéis Amistat Beach Hostel e Travelodge. Aqui a tensão disparou quando os manifestantes lançaram uma bomba de fumaça. A Casa del Sol, um estabelecimento no bairro de Gràcia, também recebeu várias pichações neste ano.

O secretário municipal de Turismo de Barcelona, Agustí Colom, declarou que está ciente de todos esses ataques, mas que a Prefeitura não os denunciou. E, diferentemente do caso do ônibus da TMB, também não compareceu como parte interessada no juízo “por atentado à convivência”, como anunciou na segunda-feira a prefeitura diante da denúncia do ataque ao veículo. Colom expressou sua “condenação categórica” aos ataques a hotéis. “É a expressão política de um grupo que emprega fórmulas de vandalismo que rejeitamos frontalmente, faz parte de uma forma de entender a ação política que não compartilhamos”.

Colom afirma que “para evitar qualquer tipo de confronto” o Governo Municipal mantém a comunicação “com a associação de hotéis", os agentes econômicos e as entidades de bairro para que qualquer mal estar seja canalizado pelo diálogo”. O secretário se mostra especialmente preocupado com os ataques que afetaram diretamente os turistas, como é o caso dos passageiros do ônibus turístico ou os turistas que estavam nas recepções dos hotéis atacados: “Os turistas são cidadãos que nos visitam, e é fundamental que nenhum mal estar seja canalizado contra pessoas”, afirma.

Arran: 500 membros em 60 assembleias

Rebeca Carranco

O Arran (“rente”, em catalão) nasceu em 2012 da união de organizações históricas de jovens independentistas como Maulets e a CAJEI. Pertencem ao heterogêneo conglomerado da Esquerda Independentista catalã, da qual também participa o partido anticapitalista CUP (Candidatura da Unidade Popular). Apontados em diversas ocasiões como a ala juvenil da CUP, o Arran nega. Insiste em que se trata de uma organização independente, composta por 500 membros distribuídos em cerca de 60 assembleias na Catalunha, Comunidade Valenciana e Ilhas Baleares. Seus membros costumam permanecer nela até os 26 anos aproximadamente, embora a ideia de jovem tenha sido flexibilizada, assimilando também as pessoas em condições precárias de vida e trabalho. Quando saem do Arran, os militantes não necessariamente se integram à CUP. Alguns continuam militando em assembleias de bairro ou em outras organizações do movimento da Esquerda Independentista. O Arran não está inscrito em nenhum lugar como organização juvenil.

Também participa do Grupo de Ação Parlamentar (GAP), um órgão que supervisiona as atividades dos parlamentares da CUP e que é convocado para questões importantes, como o apoio aos orçamentos ou a nomeações do Governo regional. O GAP foi reunido na famosa assembleia que devia decidir se dava posse a Artur Mas, e que acabou com um empate de votos. O Arran se posicionou contra a nomeação de Mas como presidente da Catalunha. Tampouco deu seu aval para que a CUP ajudasse a aprovar o orçamento da Generalitat catalã.

Nenhum dos atuais deputados da CUP no Parlamento da Catalunha pertenceu ao Arran, sobretudo por uma questão de idade. A vereadora barcelonesa María Rovira, de 29 anos, atuou na organização juvenil CAJEI, que posteriormente se fundiu no Arran.

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