Edward James Olmos: “Somos muitos os latinos, seremos mais, têm medo de nós”

O ator norte-americano, famoso por ‘Miami Vice’, ‘Battlestar Galactica’ e ‘Blade Runner’, ganha o prêmio de honra do cinema ibero-americano

Edward James Olmos, nesta semana em Madri.
Edward James Olmos, nesta semana em Madri.

“Os 70 são os novos 68. Estou bem para minha idade”, brinca Edward James Olmos (Los Angeles, 1947) na entrevista coletiva de apresentação de seu Prêmio Platino de Honra, reconhecimento que receberá na noite deste sábado na 4ª cerimônia da premiação do cinema latino-americano, que será realizada em Madri. Admite que está muito cansado: “Estou há muitas horas sem dormir. O jet lag me destruiu”. Seu sorriso quase esconde a potência de seu olhar, de olhos penetrantes que marcaram uma carreira frutífera: deu vida ao tenente Castillo na série Miami Vice, atuou em Blade Runner, Morte em Granada, Hill Street Blues, Battlestar Galactica e Eu Ainda Estou Aqui, foi candidato ao Oscar por O Preço do Desafio, dirigiu filmes como América do Medo e acaba de participar de Blade Runner 2049. “Não posso falar dele, lamento.” Além disso, encabeçou por duas décadas o festival de cinema latino de Los Angeles.

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Uma lenda sem papas na língua. “Lutei por muitos anos em meu país pela compreensão da arte latina. Somos muitos os latinos, seremos mais, têm medo de nós.” Repete essa ideia várias vezes, de diversas formas (“Nos desprezam porque nos temem”) e amparada em números: “Chegamos a 20% da população norte-americana, mas na tela somos somente 4% dos personagens. Dói muito. Para cada dólar gasto no cinema por um não latino, um latino gasta cinco. E 37% da bilheteria do fim de semana de estreia de um filme nos EUA vem do público latino. E chegou a 56% em Planeta dos Macacos: A Guerra”. Olmos fala devagar: seu cérebro funciona em inglês, e com o cansaço às vezes não encontra a palavra em espanhol. “Mas paciência, sou adulto, sei que há um equilíbrio universal. Donald Trump não está preparado para o cargo, preside como se administrasse uma de suas empresas. Está nos dividindo muito com sua ideia do muro. Mas paciência, tudo vai mudar.” Pode piorar. “Bem, está aumentando a discriminação racial, é verdade, e Trump é fruto dos oito anos de mandato de Obama, porque parte dos EUA não aguentou um presidente afro-americano. Sou otimista.”

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Um motor dessa mudança é o uso do idioma: “Sem esquecermos o espanhol, estão aumentando os programas de televisão latina em inglês. Isso aumentará a audiência. Por outro lado, temos que nos sentir mais orgulhosos de nossa origem, impulsionar nossa arte. Daí a importância de iniciativas como o Prêmio Platino. Veja como o público afro-americano escolhe suas comédias e suas estrelas. Acho que agora chegou nosso momento. Aproveitemos as novas plataformas digitais, HBO, Netflix, Hulu, para introduzir nossas histórias, para atacar o subconsciente do espectador”.

"Donald Trump não está preparado para o cargo, preside como se liderasse uma de suas empresas"

Além de atuar, Olmos dirige. Menos do que gostaria? “Exige muito tempo, sempre recebi ofertas como ator... E algumas vezes não consegui produzir as histórias que queria contar. Agorinha mesmo estou produzindo e interpretando um filme dirigido por meu filho, que se chama Windows of the World, nome do restaurante que havia na cobertura de uma das Torres Gêmeas. Faço um trabalhador que desaparece no 11 de Setembro, e um de meus filhos, de Monterrey, após duas semanas sem notícias de mim, viaja a Nova York em minha busca.” O que alegra sua vida? “Veja, estamos no festival promovendo uma iniciativa para crianças de 7 a 9 anos. Vamos às escolas públicas para lhes mostrar filmes, ensiná-las a ver cinema e a ver as mudanças imensas vividas pela comunidade latina.” Então se mostra a alma de um menino que sonhava em ser jogador de beisebol e que teve escolher entre ser astro do rock –levava jeito para isso- ou atuar. “Escolhi bem.”

Uma última pergunta, é dito. Sabe o quanto é famoso o tenente Castillo na Espanha? “Não. É? Nunca passei tempo suficiente aqui. Mas o personagem de Castillo é muito popular no mundo todo. Fui bem.”