77% dos latino-americanos apoiam maior integração econômica

60% são favoráveis a mais união política enquanto cai a satisfação com a democracia

Reunião do conselho de ministros da Aliança do Pacífico em Parcas, no Peru, em julho de 2015.
Reunião do conselho de ministros da Aliança do Pacífico em Parcas, no Peru, em julho de 2015. (Alianza del Pacífico)

A América Latina está muito distante da integração regional. Na verdade, está dividida em vários grupos que avançam a velocidades diferentes — Mercosul, Aliança do Pacífico, Unasul, Comunidade Andina. Mas enquanto os políticos não entram em acordo, os cidadãos latino-americanos gostariam de maior integração, nos moldes da União Europeia. Quase oito em cada dez latino-americanos acreditam que a integração econômica entre os diferentes países da região é a chave para o desenvolvimento, de acordo com um relatório do Latinobarómetro, uma prestigiosa pesquisa regional de opinião pública que completa 20 anos e é realizada com base em 20.200 entrevistas em 18 países da região. Segundo a pesquisa, uma média de 77% dos entrevistados querem que seu país se integre mais economicamente com os países vizinhos, com picos de preferência de até 89% e um mínimo de 59%. Quando a pergunta é sobre a integração política, algo mais complexo porque envolve transferência de soberania, o número cai para 60%, em média, mas continua sendo majoritário.

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Existe uma aparente contradição. No Latinobarómetro divulgado há um mês, o apoio à democracia na América Latina caiu e ficou em 54%. E, no entanto, as pessoas querem mais integração. “São resultados elevados em comparação com outras respostas, como o apoio à democracia, que teve uma média favorável de 54%, e que definem o pertencimento a um ‘ser latino-americano’ mais além de bandeiras ideológicas e políticas”, afirma o texto.

Mesmo os responsáveis pelo relatório, Marta Lagos, diretora do Latinobarómetro, e Gustavo Beliz, diretor do INTAL-BID, se mostraram surpresos com resultados tão positivos. Beliz e Lagos os atribuem a um claro desejo dos latino-americanos de mudar a situação atual, em plena crise, e melhorar por meio da integração regional. De alguma forma os cidadãos entendem que com a união dos países com uma língua e uma cultura comum se pode alcançar uma melhoria da economia e da situação pessoal. “No Brasil, por exemplo, o apoio à democracia caiu 22 pontos, atingindo 33%, devido à crise política em que o país está. Mas 66% apoiam a integração econômica do seu país com outros. Há uma enorme demanda por integração que os políticos não estão sabendo interpretar”, disse Lagos na apresentação do relatório, em Buenos Aires. “É um grande capital intangível da América Latina”, conclui Beliz.

Para Lagos, a grande manifestação simultânea em 25 países latino-americanos contra a violência de gênero que aconteceu na quarta-feira, com epicentro em Buenos Aires, é uma prova de que a integração já está acontecendo à margem das elites. “Ontem começou a integração da América Latina. É curioso o quão ruim enxergam a situação os cidadãos da região, dizem que não confiam nos Governos, que há muita desigualdade, mas também veem que a saída está numa maior integração”, afirma Lagos.

“Além dessa crença de acordo compartilhada, a integração na região e no mundo ainda aparece como uma prioridade para o desenvolvimento para quase um em cada quatro latino-americanos, que têm as políticas sociais no topo de suas reivindicações”, acrescenta o relatório. Depois de uma década de governos de esquerda, à frente de políticas muitas vezes protecionistas e defensoras de uma integração mais política do que comercial, o capital estrangeiro não perdeu a boa imagem entre os latino-americanos. O relatório constatou que “71% dos entrevistados disseram que o capital estrangeiro é benéfico para as economias domésticas, enquanto apenas 15% afirmaram que são prejudiciais. Nas últimas duas décadas, a resistência ao investimento externo caiu cinco pontos percentuais (de 20% para 15%), refletindo uma menor aversão ao investidor estrangeiro”, insiste o texto.

Outro dado marcante no relatório é que 46% dos latino-americanos estão dispostos a pagar mais pelos produtos que consomem em troca do respeito aos direitos dos trabalhadores que os produzem, indicando uma forte consciência social. No entanto, a pesquisa também detectou que nos países mais desiguais os cidadãos estão menos dispostos a pagar mais para aumentar a igualdade.

Em setembro, outra pesquisa do Latinobarómetro determinou como a crise econômica, os escândalos de corrupção e a insatisfação com os serviços públicos estão causando estragos na opinião que os latino-americanos têm da democracia, um regime que se consolidou em praticamente toda a região, mas cujo exercício não consegue satisfazer os cidadãos. O apoio à democracia voltou a cair em 2016, passando de 56% para 54%. E o que é pior, aqueles que responderam que são “indiferentes” se há um regime democrático ou não cresceram, passando de 20% para 23%. É o limite máximo de indiferentes nos 21 anos do Latinobarómetro. O único dado positivo é que não cresceram, mas baixaram ligeiramente, os que apoiam um “regime autoritário”, que passaram de 16% para 15%.

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