Inovação, desafio e ética. A empresa dos sonhos da Geração Z

Quem são, o que desejam e onde querem trabalhar os jovens que estão entrando no mercado de trabalho agora

Funcionários de uma empresa japonesa.
Funcionários de uma empresa japonesa. (EFE)

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Aos 22 anos, Carolina Naomi Ultimura cursa o quarto e último ano de Relações Públicas da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp). Só falta o trabalho de conclusão de curso, conhecido como TCC, para ela se lançar com o diploma no mercado de trabalho. Apesar da pouca idade, a jovem já tem planos muito bem delineados para o futuro. E um sonho de consumo profissional. Quer trabalhar no Google, referência mundial em inovação, e conhecida pela sua política de incentivo ao desenvolvimento pessoal de seus funcionários. “Tenho vontade de ir para a área digital. E o Google é um ‘oceano azul’ de possibilidades”, diz Carolina, voluntária da empresa júnior da Unesp. Para ela, o Google deixa o colaborador livre para alcançar seus próprios resultados. “Quero trabalhar em um lugar em que eu possa fazer a diferença, que possa descobrir sozinha, errando”, explica. “Ele tem uma identificação de valores muito parecida comigo, acredita nas mesmas coisas que eu”.

A estudante não está sozinha no desejo de trabalhar na empresa digital. De acordo com uma pesquisa realizada pela Cia de Talentos, ela está em primeiro lugar no ranking das preferidas pelos jovens de 17 a 26 anos, seguida por Petrobras, Nestlé, Ambev e ONU. O ranking das empresas dos sonhos dos jovens, divulgada em junho, está em sua décima sexta edição, conta Danilca Galdini, diretora da Nextview People e responsável pela pesquisa da Cia de Talentos. O estudo foi realizado com 65.833 jovens de todo o Brasil, que responderam, via Internet, perguntas fechadas, e o que lhes vinha à cabeça: a empresa que gostariam de trabalhar e o nome de um líder que admiravam.

Além de atender às respostas básicas, que garantiram o ranking das empresas, a pesquisa conseguiu aferir qual a expectativa dos jovens sobre a carreira, o que eles imaginam e o que desejam para ela. “Eles têm uma alta expectativa de sucesso, de conseguir ter uma trajetória que entendem como de sucesso”, diz Danilca. Os jovens do estudo da Cia. de Talentos têm a expectativa de atuar com algo que os desafie, que os faça aprender sempre. Umas das características mais marcantes detectadas foi a preferência por companhias que oferecem desenvolvimento. Caso da Petrobras, que está em segundo lugar na pesquisa. A companhia é referência mundial em tecnologia de exploração em águas profundas e também inovação. “Quem vota nela como empresa dos sonhos fala sobre a consistência da Petrobras. A universidade corporativa da companhia é muito forte e os jovens veem ali uma chance de sair com uma formação que não existe no Brasil”, diz Danilca.

A estudante de Farmácia Lana Vitoriano Vieira, de 20 anos, admite que ali trabalharia pela expertise reconhecida da petroleira. “A eficiência da empresa é algo que levaria em conta”, diz. Mas há valores muito fortes para Lana e sua geração: a ética nas companhias. O fato de a Petrobras estar trabalhando pelo aperfeiçoamento de suas práticas de gestão para evitar práticas ilícitas é vista como um fator de atração por Lana. No caso da estudante de Farmácia, seu conceito de ética abrange também outras dimensões. “Uma empresa que não está interessada em inclusão não me representa”, afirma Lana, que é negra e cobra das empresas programas de igualdade racial. A Petrobras tem uma política de diversidade que prevê a garantia de 50% das vagas para estudantes negros e negras no processo seletivo de estágio.

Danilca diz que a Petrobras tem se mantido em segundo lugar há alguns anos. Em estudos de grupo mais dirigidos, a Nextview People identificou que os jovens compreendem a corrupção como uma escolha profissional e não corporativa. Ou seja, os futuros profissionais separam os problemas que atingiram a companhia da essência de sua cultura.

Ranking de empresas (2017)

  1. Google
  2. Petrobras
  3. Nestlé
  4. Ambev
  5. ONU
  6. PwC
  7. Vale
  8. Itaú
  9. Unilever
  10. Globo

Paixão e prazer

A especialista explica que, para essa geração, sucesso compreende integração entre a vida profissional e pessoal. Trabalho, para eles, envolve paixão e prazer, e não dá para se dedicar a algo que não goste, que não tenha significado. Propósito e sentido para o que se faz é elementar. A partir daí, há um dilema a ser trabalhado pelas empresas que buscam jovens talentos, afirma a pesquisadora. O prazer diário que eles buscam não existe, como bem sabem os adultos. “Não dá para ter algo que só seja legal”, afirma Danilca.

Mas é possível identificar algumas características que vão despertar seu interesse ou não. São garotos e garotas que buscam reconhecimento e querem se tornar líderes inspiradores. Veem com muito bons olhos empresas com programas de aceleração de carreira. Mas sem prejuízo da qualidade de vida. Para se ter uma ideia, eles admiram vários gestores, mas não querem ter a vida deles. “Não é nem uma questão de equilíbrio 50% de vida pessoal e profissional”, diz Danilca. “É fazer com que caibam todos os papeis.” Por conta desses traços de personalidade, nada mais natural que desejem empreender no futuro, para ter um controle de suas rotinas. Antes, porém, querem a experiência de trabalhar numa empresa. Manoela Costa, gerente da Page Talent, ressalta como o salto geracional mudou os anseios na entrada do mercado de trabalho. “As gerações X e Y estavam mais focadas em dinheiro e carreira. A geração Z quer trabalhar com projetos com as quais se identificam. Querem companhias sustentáveis, com uma causa.”

Andrei Golfeto tem apenas 22 anos, mas já preside uma organização que está presente em 22 estados brasileiros e em 116 universidades, atingindo 16.000 estudantes. Aluno de administração da Unesp de Tupã, no interior de São Paulo, ele é presidente da Brasil Junior (Confederação Brasileira de Empresas Juniores) movimento de dimensão internacional que proporciona educação empreendedora aos jovens e chegou ao Brasil pela Fundação Getúlio Vargas em 1988. Golfeto afirma que uma das questões mais fundamentais para a geração que está chegando ao mercado hoje é se sentir desafiada, executando tarefas que nunca fez antes. “Eles têm mentalidade ágil e inovadora e querem produzir impacto na vida dos outros para se sentirem realizados.” O presidente da Brasil Junior também comenta que a graduação não é suficiente para esses estudantes. “Universitário tem de ser curioso”, diz. “É legal o jovem ter um foco, mas para isso ele precisa ter um auto-conhecimento muito grande e um plano. O que te deixa feliz, o que o mundo precisa e o que te traz retorno financeiro?”

Essas perguntas estão sendo feitas pela estudante de Relações Internacionais da Beatriz Barcelos, de 21 anos, que estuda no Ibmec do Rio de Janeiro. A jovem sonha grande. Quer trabalhar na Organização das Nações Unidas (ONU), quinta no ranking da Cia de Talentos. Também pensa em passar uma temporada no Vale do Silício. Sua vontade de contribuir em organizações não governamentais se dá, principalmente, porque, segundo suas próprias palavras: “Quero trabalhar por uma causa maior do que eu, mudar nosso País.” Isso atrai bastante Beatriz. “Me incomoda muito, por exemplo, eu estar tranquila enquanto tantas mulheres sofrem abusos sexuais. Preciso me formar para embarcar nisso”, diz. A aluna de RI já tem no currículo algumas experiências de intercâmbio de lideranças de jovens. “Quanto mais pessoas diferentes eu conhecer, mais poderei ajudar, e mais aprenderei.” Vontade de se capacitar e de evoluir não falta. Que as empresas estejam preparadas para recepcioná-los.

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