A geração que mira o Vale do Silício e sonha em ser seu próprio chefe

No Brasil, 50% dos que têm entre 17 e 26 anos pensa em empreender, segundo pesquisa Desejar ter um negócio é um fenômeno global e pega impulso no 'boom' da Califórnia

Pablo López na sede de sua empresa Seedtag em Madri.
Pablo López na sede de sua empresa Seedtag em Madri.EdP

Eles nasceram em um mundo conectado pela internet, torcem o nariz para hierarquias, querem tudo em tempo real e sonham em trabalhar com horários flexíveis, em causas que os representam. Os jovens da chamada "geração milênio", nascidos entre os anos 1990 e 2000, não se enquadram nos modelos tradicionais de empresas. E, aparentemente, isso não os preocupa. Pesquisa da empresa de recrutamento e seleção Cia de Talentos, realizada com 52 mil brasileiros entre 17 e 26 anos, aponta que 50% dos jovens do país sonham em abrir o próprio negócio - e 3%, inclusive, já chegaram a montar uma startup.

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“Os jovens buscam no empreendedorismo uma forma de autorrealização", diz Carla Pérez, da fundação espanhola Máshumano, que apoia iniciativas com este perfil. Na Espanha, 35% dos jovens entre 15 e 21 anos preferem montar sua própria empresa a trabalhar como empregado, conforme levantamento da Young Business Talent.

“A revolução das startups começou há décadas nas garagens da Califórnia”, conta o presidente da Associação de Jovens Empresários de Madri (AJE), Ángel Monroy. Para ele, o sucesso de Google, Facebook, Apple e Microsoft contribuiu para rejuvenescer a imagem do empresário e disseminar o modelo de startups para o resto do mundo.

Entre a Gran Vía e o bairro de Chueca, em Madri, está a Seedtag, uma empresa emergente de base tecnológica que se dedica a etiquetar todo tipo de imagens que aparecem em blogs e jornais para oferecer ao usuário a possibilidade de comprar os produtos de forma rápida e simples.

Martínez, na escola de empreendimento Teamlabs de Madri.
Martínez, na escola de empreendimento Teamlabs de Madri.EdP

Na sede dessa startup há uma sala bem iluminada para as reuniões, um sofá, uma TV de plasma e uma miniatura dos tanques da saga Guerra nas Estrelas. A atmosfera é agradável e dinâmica. “Montar uma startup é como uma montanha russa: há momentos de euforia, em que você diz ‘vamos arrebentar’, e vezes em que você diz ‘quero ir embora daqui’”, reconhece Pablo López, um dos fundadores da Seedtag.

O risco faz parte do jogo, acredita o jovem de 29 anos que trabalha desde os 16: “Se as coisas saírem errado, é importante saber perder tudo e se reerguer com calma”. A Confederação Espanhola de Associações de Jovens Empresários (CEAJE) calcula que 70% das pequenas e médias empresas morrem antes de completar quatro anos por “estrangulamento financeiro” ou falta de planejamento. São números “desoladores”, afirma o presidente da CEAJE, Juan Merino, que critica a falta de estímulo empresarial nas escolas, onde se deveria “aprender a empreender”.

Luis Iván Cuende, de 19 anos, acaba de abrir o Stampery, um portal que pretende fazer certificação de documentos, fotos, áudios e outros arquivos utilizando a tecnologia de moeda virtual bitcoin. Em janeiro, ele publicou seu primeiro livro, "Tenho 18 anos, não estudo e nem trabalho", em tradução livre, e agora afirma que “o fracasso é parte integrante da vida de um empreendedor”. Cuende diz que na Espanha reina uma mentalidade derrotista e que o sistema educacional está atrasado em relação à revolução digital. Ele deixou a escola aos 17 anos porque a considerava um “aborrecimento total”, que não lhe acrescentava nada.

“Decidimos empreender devido à nossa alergia a chefes”, afirma Francesco Furno, sócio-fundador da Relaja El Coco, um estúdio de design gráfico que a partir de Madri trabalha para clientes nos Estados Unidos, Inglaterra, Japão, Hong Kong e França. Na era digital, as redes sociais se tornaram a vitrine de todos os projetos. Ibai Martínez, um rapaz de 24 anos que antes de terminar a faculdade fundou com outros sócios uma escola de empreendedorismo, a Teamlabs, relata que “as novas tecnologias e a dificuldade de encontrar um emprego estável são os gatilhos da mudança de mentalidade”.

A maioria das empresas jovens se dedica à venda de produtos na Internet, o chamado e-commerce, de acordo com um relatório da Startup Europe Partnership, da Comissão Europeia. A Miscota é uma delas. Tem 70 empregados e vende acessórios e alimentos para animais domésticos. O sucesso do projeto de Albert Costa foi uma mistura de sorte e faro empresarial. Antes de fundar a Miscota, esse jovem catalão trabalhou em sites de empresas. Com um colega, desenvolveu um portal para as empresas de e-commerce e, para demonstrar que a tecnologia funcionava, criou uma loja web piloto de produtos para animais domésticos. Logo constataram que a Miscota poderia gerar um grande volume de vendas e passaram a se dedicar a isso. Encontraram investidores e começou o que Albert Costa chama de “a aventura de administrar de um milhão de euros com 23 anos”.

Pablo Galeano e Francesco Furno na sede de 'Relaja el Coco', em Madri.
Pablo Galeano e Francesco Furno na sede de 'Relaja el Coco', em Madri.EdP

“Nos últimos anos, os investidores estão se mostrando mais audazes”, diz Monroy, da AJE. Desde o começo do ano já investiram mais de 110 milhões de euros, 152% a mais que em junho do ano passado, de acordo com dados da plataforma Startup Xplore.

Os jovens entre 25 e 35 anos são os que mais ousam empreender, de acordo com dados da CEAJE. Entre eles, os homens são maioria, embora cada vez há mais mulheres que querem trabalhar por conta própria. Atualmente, a proporção é de 60% de homens e 40% de mulheres. Muitos desses jovens admitem que devido ao sucesso das startups norte-americanas a figura do empreendedor está na moda e que a ideia do sucesso rápido é muito atraente.

Quando tudo vai rápido, “um dos desafios dos empreendedores é o de administrar as coisas com paciência” e, se possível, com humildade, explica Pablo López. Porque não é a mesma coisa empreender como um especialista em informática do que como uma pessoa que, em nome de seu sonho, renunciou a todas as outras possibilidades de emprego: “Eu sou analista de sistemas e tenho a sorte de saber que, se isso falhar, em muito pouco tempo posso conseguir um emprego. Há muitas outras pessoas que não podem fazê-lo. Creio que eles se arriscam mais do que eu quando empreendem”, revela este jovem empreendedor.