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Geração Y: superpreparados e frustrados

Muitos jovens nascidos entre os anos 80 e 90 entram no mercado de trabalho com falta de perspectiva e expectativas equivocadas, segundo especialistas

Vestibular da UNICAMP em janeiro. / P. AMATUZZI Folhapress

Terminar o colegial. Passar no vestibular. Concluir a faculdade. Entrar no mercado de trabalho. Crescer na empresa. Se especializar. O que foi durante décadas o caminho natural da vida adulta para 12% da população brasileira que completou o terceiro grau, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), não parece ser para os jovens da geração Y. “Eles acham que o roteiro é passar no vestibular, conseguir um estágio e ter êxito profissional, mas quando chegam ao mercado, não têm experiência de vida e não estão acostumados a ouvir ‘não’”, afirma Ademar Bueno, diretor do Laboratório de Inovação, Empreendedorismo e Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A FGV é uma faculdade privada de onde saem diretores e presidentes de empresas. As mensalidades podem superar os 4.000 reais para estudar Direito, por exemplo.

Bueno está desenvolvendo uma série de mini-documentários sobre a geração Y e, por seu contato com esses jovens na própria universidade, considera que estão mais perdidos ao sair da faculdade do que ao entrar nela.

Os jovens esperam que o mercado lhes absorva com bons salários, dado que o investimento em estudos foi alto

O que parece ser um problema educacional, já que aparentemente as Universidades não estão tão preparadas para satisfazer as necessidades dessa geração, tem também um aspecto social. A melhora econômica dos últimos anos fez com que grande parte dos jovens de classe média tivessem acesso não só à universidade, mas ao consumo, a viagens, idiomas e cursos no exterior. E, por consequência, criaram maiores expectativas sobre a relação formação X remuneração, já que esperam que o mercado lhes absorva com bons salários, dado que o investimento em estudos foi alto.

Allison Andrade, de 25 anos, se formou em Publicidade e tem uma pós no exterior. Conta que ao terminar o curso, “estava trabalhando satisfeito com as ofertas do mercado”, mas depois de se especializar no exterior com o intuito de conseguir um melhor salário e posição laboral, encontrou uma barreira. “Há saturação. As empresas não prezam se a pessoa fez uma boa faculdade nem uma pós, pelo menos nesta área, o que importa é aceitar trabalhar ganhando pouco, mesmo sem formação adequada”, lamenta. Andrade resolveu mudar de área e optou por Engenharia Civil, depois de passar dois semestres cursando os cursos de Ciência e Engenharia da Computação. Para ele, existe uma melhor perspectiva de salário, já que “a demanda de engenheiros é grande e o mercado necessita profissionais bem qualificados”.

Andrade é o retrato de uma das gerações mais bem preparadas que se frustram ao chegar ao mercado de trabalho, mas seu perfil não é uma realidade apenas no Brasil. A OCDE, em recente estudo sobre o impacto da educação no nível econômico do jovem, constatou que isso ocorre a nível mundial. Rodrigo Castañeda Valle, da área de inovação e medição do progresso educacional e de habilidades da organização, não acredita que tudo se deva a que o jovem não saiba direito o que quer. Em alguns países, como o Brasil, “a boa remuneração de técnicos ou pessoas sem formação superior é um dos fatores que desestimula os jovens a continuarem seus estudos”. Segundo o estudo, 67% dos brasileiros com o segundo grau estão empregados, contra 55%, de média entre os países da OCDE.

Novos cursos ou novas roupagens?

Em 2010 houve uma mudança significativa para o candidato que queria entrar na Universidade de São Paulo (USP) para estudar engenharia: surgiu o curso de Computação, que desmembrava a carreira traducional em uma especialidade mais voltada ao mercado - e focada nas novas tecnologias. Isso também aconteceu com o curso de Engenharia de Produção, cujo conteúdo, em algumas universidades, se assemelha ao da formação em Administração. O enfoque, neste caso, também mudou: o profissional sairia preparado para atuar na linha de produção de grandes fábricas, não somente para cargos de gerência.

De 1998 até os dias de hoje, o vestibular da USP, a Fuvest, é uma das referências nacionais para os jovens que desejam sair com um diploma de renome. Os cursos mais concorridos, historicamente, sempre foram Direito, Medicina e Engenharia. No entanto, nos últimos anos, outros foram aparecendo e se firmando como tendências de carreiras, confirmadas pelo número de inscrições. Na década de 90 os cursos clássicos continuavam na lista dos dez mais concorridos, como Arquitetura, Letras e Odontologia. Em 2009, o curso de Relações internacionais figurava nesta mesma lista. Hoje temos a graduação em Atuária ao lado do curso de Economia como um dos mais procurados. Houve também um maior interesse pelas engenharias separadamente, como Engenharia Civil e Elétrica, ao invés de um curso genérico com possibilidade de escolha da especialidade nos últimos anos, como acontece em muitos cursos que formam engenheiros.

Denise Retamal, diretora da empresa de recrutamento e seleção Rhios, também compartilha do mesmo ponto de vista. E exemplifica: “Profissionais especializados em soldagem ou em mecânica de tubulações off-shore não precisam de formação superior. São técnicos em ‘Soldagem Industrial’ ou ‘Mecânica de Tubulações’ e ganham salários de até 8.000 reais”, explica.

Falta de perspectiva

A miopia dos jovens estudantes ao não vislumbrar oportunidades de trabalho através do curso eleito é uma das razões para a evasão universitária ou mudanças de carreira, mas não é a única. Segundo o já aposentado professor de física da USP e diretor do Instituto Lobo, Roberto Lobo, houve um aumento abrupto da desistência diagnosticada pelo censo escolar elaborado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, INEP, que dá pistas, mas não explica bem esta realidade. Embora o instituto ainda não tenha revelado os números de 2011 e 2012, Lobo explica a situação. “Ainda não sabemos se foi feito um novo cálculo para que houvesse um aumento tão abrupto, mas podemos dizer que a falta de uma orientação profissional desde casa, a melhora financeira e a falta de maturidade são fatores que influem na evasão”.

Segundo Lobo, a maioria dos estudantes alegam problemas financeiros ao abandonar o curso. Mas que “usam isso como desculpa para não ter que explicar as reais razões. Todo especialista que estuda evasão vê que o problema financeiro não é o determinante. Na verdade, o estudante nem tenta permanecer na faculdade porque existem outros fatores de atração quando ele começa a sentir que aquela formação não vai trazer benefícios”. Foi o caso de Maria Clara Mangeth, de 21 anos. “Escolhi Comunicação porque não me imaginava fazendo outra coisa que não fosse relacionada à escrita e achava que a faculdade me apresentaria um mercado amplo e com possibilidade de ser uma profissional bem-sucedida. A gente escolhe a carreira muito cedo, então as nossas expectativas nem sempre são atendidas. Mudei de curso para Letras, mas ainda não estou convencida”, explica. Mangeth diz ainda que pensa “em mudar pra Direito, justamente por uma oferta maior de emprego e concursos. Está cada vez mais difícil se estabilizar no mercado de trabalho”.

É necessário criar mecanismos paralelos para que os alunos queiram empreender, o professor por si só não pode ensinar isso, diz especialista

Muitos jovens escolhem a carreira baseados em gostos pessoais, exemplos de familiares, interesses e aptidões salientadas durante o período escolar. Mas isso não é determinante para que a carreira seja a adequada. A falta de informação e de planejamento estratégico na hora de escolher uma faculdade, algo que no Brasil ocorre entre 17 e 20 anos em média, uma idade na qual nem todos estão maduros o suficiente para decidir qual será sua profissão, é um agravante. Para Retamal, a reflexão é imprescindível. “Um exemplo é o jovem que tem interesse em trabalhar com “Gestão de projetos de ecoturismo”. Ele quase sempre opta pelo curso de Turismo, mas na universidade o foco é “hotelaria” e não “gestão de projetos”. Os conteúdos programáticos dos cursos escolhidos não são analisados de forma prévia e, assim, as frustrações surgem nos primeiros anos”, conclui.

Para Carla Linhares, professora de Gestão de Pessoas da Fundação Dom Cabral, os desafios vão além de decidir entre um curso ou outro e indicam uma clara mudança de comportamento, catalisada pela velocidade das novas tecnologias, o habitat natural dessa geração. “Muitos que estavam fazendo direito viram que não era aquilo que queriam. Eles não estão conseguindo ver uma atuação no mercado.

A geração Y

A geração Y é liderada pelo imediatismo e as mudanças de curso e desistências refletem isso. O importante, frisa, é que “eles não estão desistindo, apenas estão migrando para ter melhores oportunidades”. Isso que pode ser visto, segundo Linhares, como algo positivo. 

Bueno vai contra essa percepção. “Eles vão se formar novamente, se especializar, e quando chegam ao mercado a história vai se repetir, porque eles estarão ainda mais bem preparados para vagas que não correspondem ao que almejam”. Para ele, o que falta é ajustar o processo motivacional do estudante, para que ele saiba lidar com as frustrações e entenda que “a formação exige esforços individuais, que eles precisam estar mais aptos a encarar desafios e projetos, aprender a se situar nesse mundo. Não se trata de entrar em um lugar e receber tudo pronto”, afirma.

Parte desse "tudo pronto", muitas vezes, se atribui aos pais. Mas, para a professora Lúcia Villas Boas, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, "a opção por prolongar a permanência na casa dos pais deve ser entendida não somente em função dos ritmos e das formas de inserção profissional, mas também como um efeito geracional em busca de uma nova construção de identidade". Essa construção, segundo explica, se apropria de novas formas culturais que envolvem o processo de independência, de desfamiliarização e de transformação da identidade pessoal que, atualmente, vêm sendo construídos sobre novas bases.

Uma delas poderia ser a criação de novas oportunidades para que o jovem se encontre como pessoa e profissional. Lobo acrescenta: “É necessário criar mecanismos paralelos para que os alunos queiram empreender, o professor por si só não pode ensinar isso. Eles precisam ter uma perspectiva mais realista da vida, de como funcionam as coisas. A motivação pode incentivá-los até certo ponto, mas depende deles o sucesso profissional, que vem a partir de esforços individuais”. Pese às conclusões sobre a Geração Y, um dado animador da rede de publicidade McCann: considerando as informações oferecidas pelo Sebrae e Receita Federal em 2013, 44% dos jovens entre 18 e 24 anos preferem empreender seu próprio negócio.

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