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Juntos na estrada

Empreendedores pegam carona na economia colaborativa para crescer no mercado

Daniel Bedoya e Pedro Meduna, da Tripda.
Daniel Bedoya e Pedro Meduna, da Tripda.

Você não está no trânsito. Você é o trânsito.

Com esse lema, levantam-se diversas bandeiras mundo afora que defendem o uso racional dos modais alternativos de transporte, como as bicicletas, e até a popularização das caronas. A lógica é simples. Se você dirige e está parado num engarrafamento da cidade de São Paulo às 18h de uma segunda-feira, reclamando da lentidão com que você se desloca até o sofá de casa, conte quantas pessoas estão dentro dos demais carros ao seu redor. Aliás, quantas estão no seu? Geralmente, apenas uma, o motorista.

Levando-se em consideração que as possibilidades de expandir ruas e estradas para acrescentar pistas para carros nas vias é bastante limitada, como resolver o problema do trânsito nas grandes cidades? Provavelmente, reduzindo o número de carros que circulam ao mesmo tempo. Uma alternativa razoável é permitir que mais pessoas utilizem o mesmo carro. Afinal, todas aquelas pessoas dentro dos carros ao seu redor estão, naquele ponto, indo para o mesmo lugar que você.

Com o objetivo de viabilizar caronas por aí, nasceu a plataforma Tripda. Lançada no ano passado por dois brasileiros, Pedro Meduna, 31, e Eduardo Prota, 32, ela já está presente em 13 países, expansão que foi possível com a ajuda de um grupo de investidores liderados pela Rocket Internet, que fez um aporte de 11 milhões de dólares na startup, em janeiro de 2015. A Tripda atua, por exemplo, no Chile, na Colômbia e até no Paquistão. No caso de Índia e do México, compete com plataformas como o Blablacar, que está chegando no Brasil.

O presidente da companhia no Brasil, o peruano Daniel Bedoya (que mora no Brasil desde os três anos de idade), veio de uma outra empresa que ele tinha criado em Piracicaba, a Caronas.com. A companhia se fundiu com a Tripda em outubro do ano passado, mas nasceu praticamente da mesma ideia. "Eu estava em Piracicaba por causa da faculdade e visitava minha família em Botucatu nos fins de semana. Pensei em criar um site de caronas porque muitos outros alunos passavam por isso também e esta era uma forma de resolver o nosso problema", conta.

Diferentemente do polêmico Uber, as pessoas que oferecem carona pelo Tripda não visam ao lucro. São pessoas que já estavam seguindo determinado trajeto e, em vez de realizarem a viagem sozinhas, colocam os assentos disponíveis no site, para quem quiser dividir custos. é possível, por exemplo, sair de São Paulo para Campinas por cinco reais. "A relação entre passageiro e motorista é bem diferente da do Uber. As pessoas já iam fazer a viagem, não vão se deslocar apenas para buscar um passageiro. Também vão com o intuito de fazer amigos, pois seguem o percurso conversando, ouvindo música", esclarece Bedoya.

A segurança da ferramenta está baseada na reputação dos usuários. Para se cadastrar, é preciso utilizar os perfis das redes sociais e disponibilizar informações de documentos oficiais. Os usuários também são avaliados pelos "caronistas" logo após utilizarem o serviço.

A Tripda não cobra nenhuma tarifa de seus usuários. Nesse sentido, a receita vem apenas dos investidores. "Eles sabem que é preciso primeiro amadurecer no mercado antes de rentabilizar o negócio. Eventualmente, temos planos de trabalhar com publicidade e um modelo de usuários premium. Há várias possibilidades de receita, mas serão implementadas com o tempo", afirma Bedoya.

A empresa cresce junto com um movimento que promete revolucionar a forma como o capitalismo se desenvolve, a economia colaborativa. A ideia é compartilhar um bem em vez de incentivar sua produção desenfreada. Afinal, há um limite para a quantidade de carros que podem circular ao mesmo tempo pelas mesmas vias - o trânsito é um reflexo disso.

"Todo mercado é feito de ciclos. A princípio, as empresas da economia colaborativa são vistas como um unicórnio. Mas essa é só a ponta do iceberg. Qualquer mudança gera um estranhamento, mas depois as empresas se reinventam e se adaptam às novas demandas sociais", acredita o presidente.

De carro emprestado

André Marin, da Fleety.
André Marin, da Fleety.

Outra empresa que nasceu da economia colaborativa é a Fleety, um site de aluguel de carros entre pessoas físicas. Quem possui um carro sabe que ele passa boa parte do tempo parado na garagem. Seja na de casa, seja na do escritório. Já quem não possui um carro sabe como um veículo próprio pode ser bastante útil para alguns trajetos pontuais. Isso envolve desde a viagem com a família para o litoral no fim de semana, até levar a avó para sua 12ª consulta do mês, ou o cachorro ao veterinário para castração.

"Nosso negócio se diferencia de uma locadora convencional porque os preços cobrados são muito mais baratos, é possível encontrar veículos bem específicos, como um 4x4, o serviço é descentralizado, ou seja, você pode alugar um carro de alguém do seu próprio bairro, e não há tanta burocracia na hora de alugar", explica André Marin, presidente da Fleety. O executivo, de 30 anos, fundou a empresa com mais dois sócios, colegas a faculdade de engenharia, Israel Lot e Clayton Guimarães.

Ainda que "menos burocrático", o sistema de aluguel de carros é seguro, segundo Marin. O usuário se cadastra com o login de outras redes sociais, o que indica que o perfil completo fica disponível para análise do locador. Já o locatário tem a garantia de que aquele veículo está com a documentação em dia, visto que a CNH e Renavam são analisados e validados pelo Fleety. A ferramenta também disponibiliza seguro, que protege locador e locatário de acidentes e roubos. Há ainda um sistema de reputação. Tanto quem empresta quanto quem toma emprestado são avaliados depois da prestação do serviço.

"A cadeia produtiva capitalista não se preocupa com o descarte daquilo que produz. Nesse sentido, a economia colaborativa agrega a sustentabilidade a essa modelo. Para termos acesso aos bens, não é necessário comprá-los. Um só carro, por exemplo, pode saciar o desejo de consumo de mais de 15 famílias. Não precisamos produzir 15 carros para isso, Um só basta", argumenta Marin.

O empresário, contudo, não acredita que a economia colaborativa coloque em risco a existência das fábricas, que preferem, obviamente, que cada vez mais pessoas comprem seus produtos. "As próprias montadoras já perceberam que terão de se adequar à nova realidade. Até porque, as pessoas deixaram de comprar carros faz tempo, já que não tem tanto crédito disponível e em tempos de crise ninguém precisa trocar de veículo. Independentemente se a economia vai voltar a crescer rapidamente, a tendência do consumo consciente é irreversível e as empresas precisam se reinventar para não desaparecer do mercado", afirma. O empresário destaca, ainda, que comprar um carro não é mais o sonho de consumo dos jovens entre 18 e 24 anos. "Pesquisas apontam que só 3% desses jovens querem adquirir um carro assim que atingem a maioridade", diz.

Algumas montadoras até chegaram a consultar a Fleety para compreender melhor o modelo de empréstimo de veículos. Marin destaca que esse sistema já é utilizado lá fora por uma marca bastante cobiçada, a BMW. Lançado na Alemanha no final de 2010, o "BMW on demand" (BMW sob demanda) permite que clientes aluguem qualquer modelo da grife e desfilem por aí sempre com um carro novo. A empresa permite, ainda, que se presenteie um amigo com o aluguel de uma BMW.

Já as locadoras não tem incomodado a Fleety como fazem os taxistas com relação ao Uber nem as operadoras de telefonia com o Whatsapp. "O segmento locador não é regulado por agências nem por entes governamentais. Qualquer pessoa registrada, que pague impostos devidamente, pode ter uma locadora", conta.

A Fleety foi registrada em maio de 2014, em Curitiba, e já tem dois escritórios em outras regiões do país. Um em São Paulo e outro em Florianópolis. O fleety nasceu com o capital dos sócios, de 70.000 reais, mas já recebeu aporte de investidores-anjo e participou de um projeto de aceleração de startups. Por recomendações dos sócios investidores, não revela os números da empresa. Apenas adianta que, no futuro, almejam abrir capital em bolsa. "Queremos ganhar relevância em mais mercados nacionais e depois partir para outras regiões, como América Latina, Estados Unidos e Europa", complementa Marin.

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