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COLUNA

O mercado de votos no Congresso do Brasil

Há a impressão de que o que mais importa para os deputados é o preço material de cada voto

Temer no Palácio do Planalto
Temer no Palácio do Planalto REUTERS

Existe a impressão de que o que mais importa para os deputados do Congresso não é se o presidente Temer deve ou não ser julgado por corrupção, e sim o preço material de cada voto.

E o que mais choca é que esse mercado não é escondido nem camuflado. Ao contrário, é discutido à luz do dia. Os deputados interrogados pela imprensa não dizem que estão ou não em dúvida sobre a culpabilidade de Temer e que será isso o que decidirá seu voto. Alegam motivos muito mais frugais.

A Folha de S. Paulo escreve, por exemplo, que alguns parlamentares estão indecisos se votam a favor ou contra o processo contra Temer devido à insatisfação com nomeações não cumpridas ou com emendas parlamentares com pagamentos atrasados. Outros dizem que ainda não decidiram seu voto porque esperam conhecer a reação de seus colégios eleitorais ou das redes sociais. Que Temer seja ou não culpado parece despertar pouco interesse entre eles.

O curioso e triste é que Temer conhece como ninguém esse mercado escancarado no Congresso. Por isso, parece menos preocupado em defender sua inocência – e convencer os congressistas de que não é corrupto – do que em identificar, uma a uma, as “insatisfações” dos indecisos para subir o preço da oferta.

Chegou a hora do comércio descarado de votos, algo bem parecido com o que vimos com o impeachment de Dilma, quando o ex-presidente Lula jogou suas cartas, em um hotel em Brasília, para “convencer” os senadores a salvar a mandatária. Também naquela ocasião, a culpabilidade ou não de Dilma contou menos na hora de votar do que os ganhos pessoais presentes ou futuros.

Não é preciso ter muita formação para que as pessoas nas ruas entendam que esse mercado de votos, em momentos tão cruciais e decisivos para a democracia e o futuro do país, é no mínimo indecente. Com a possível nova incriminação do senador Collor, seriam já cinco ex-presidentes da República com problemas na Justiça desde a redemocratização. Um número alto e perigoso demais para uma democracia ainda jovem como a brasileira.

O que fazer? Essa é a pergunta do milhão, feita até pelos analistas políticos mais independentes. Enquanto isso, o Brasil chora e se desespera, incrédulo, com a bala que atravessou o bebê ainda no ventre de uma mulher no Rio, metáfora de uma cidade que é símbolo, ao mesmo tempo, de um país que parece naufragar perseguido pelos fantasmas da corrupção de seus políticos e da aparente indiferença das pessoas, que preferem ficar em suas casas vendo os touros da janela a sair às ruas para expressar sua indignação.

Os corruptos agradecem.

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