Agonia de Temer alonga a crise no Brasil

Encurralado pela corrupção, presidente se agarra ao cargo e afunda o país na incerteza política

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Presidente Michel Temer em evento no Palácio do Planalto. AFP

Um presidente pode sobreviver com uma rejeição de 80% dos eleitores, uma denúncia do procurador-geral por receber subornos e um programa de reformas impopulares? Esse presidente –que nem sequer ganhou nas urnas, mas chegou ao poder através de uma conspiração parlamentar– tem, além disso, oito ministros sob investigação por corrupção. O país inteiro pôde ouvi-lo falar às escondidas com um bilionário corrupto, que lhe relata suas manobras enquanto o presidente dá mostras de assentimento. O Brasil inteiro viu as fotos de seu principal assessor pegando uma mala com 500.000 reais das mãos de um enviado do empresário corrupto. Sobre sua relação com esse bilionário, que agora trata de “bandido notório”, o presidente mentiu ostensivamente: negou, por exemplo, que este lhe tivesse emprestado seu jato particular, até que as provas o deixaram em evidência.

Tudo isso –e muito mais– aflige o presidente do Brasil. A situação de Michel Temer parece desesperadora, mas ele não se rende. Com uma linguagem quase bélica anunciou que lutará pelo cargo até o fim, mesmo com o risco de aprofundar a interminável crise política que sacode o país há quatro anos. Temer vem perdendo apoio político e econômico. Alguns tão importantes quanto o do império midiático do Grupo Globo ou do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas ele ainda tem um punhado de aliados. O primeiro, o Congresso Nacional, onde dezenas de parlamentares, começando com os presidentes das duas Casas, compartilham as dificuldades de ser investigados por corrupção. E também alguns grupos empresariais que contribuíram decisivamente, há 14 meses, para a queda da presidenta Dilma Rousseff. Os movimentos sociais supostamente apartidários que em 2016 inundaram as ruas contra a insuportável corrupção do PT, depois de 13 anos no poder, se conformam agora com postar memes no Facebook. No Supremo Tribunal Federal há juízes que já demonstraram vontade de tirar Temer do apuro. E tampouco fraqueja a fidelidade da direita pura, convencida de que “é pior um honesto incompetente do que um corrupto competente”, nas palavras do seu guru, o jornalista Reinaldo Azevedo. Até respeitáveis vozes internacionais como a revista The Economist pediram que continuasse com o argumento de que não é para tanto. “A política no Brasil é como um House of Cards sob os efeitos de ácido”, disse ao Financial Times o diretor do banco de investimentos BTG Pactual, Steve Jacobs, defensor de Temer.

“O mercado ainda o apoia”, diz Thiago de Aragão, diretor de Inteligência da consultoria de análise política Arko Advice. “A situação é instável, mas o seria ainda mais se acontecesse algo tão drástico como a queda de um presidente”. A crise explodiu em junho de 2013 com os primeiros protestos populares contra Dilma Rousseff. Em seguida, foi agravada pela eclosão da Operação Lava Jato, que aos poucos foi revelando uma monumental teia de corrupção envolvendo os principais partidos. Mais tarde, se abateu sobre o país a pior recessão de sua história. E, finalmente, chegou o impeachment de Dilma. Em seguida, foi a vez de Temer, vice-presidente com o PT, e o PMDB, uma das anomalias do sistema político brasileiro: apesar de ser o maior partido, nos últimos anos renunciou a disputar a cúpula do poder, preferindo obter seus dividendos com alianças de conveniência com a direita ou a esquerda.

“O mercado viu em Temer a oportunidade de implementar reformas econômicas e afastar o risco de medidas populistas, como as do PT”, diz Aragão. A necessidade dessas reformas vem sendo o mantra do Governo e dos setores que o apoiam, fechando os olhos à corrupção. Com Temer tão enfraquecido, o programa está em perigo, mas os investidores ainda acreditam que algo pode ser salvo. Aragão considera que o Governo levará adiante a reforma trabalhista em tramitação e, embora não consiga apoios no Congresso para a mais questionada reforma da previdência, “pode implementar entre 25% e 35% do seu conteúdo com medidas provisórias”.

As convulsões políticas estão tendo um efeito econômico, como demonstra o anúncio do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, sobre a redução da previsão de crescimento para este ano, que era de um modesto 0,5%. “A crise política e, sobretudo, o atraso na reforma da previdência, afetaram a economia”, diz o analista da Arko Advice. “Mas política e economia são coisas diferentes. Embora tenham áreas comuns, se comportam de forma independente”. Assim, o mercado não teme grandes sobressaltos, de acordo com Aragão, e trabalha com a hipótese de que Temer aguentará. Segundo seus cálculos, o presidente tem garantido o apoio de cerca de 250 deputados, muito mais do que os 171–um terço da Câmara– necessários para rejeitar a denúncia do procurador-geral Rodrigo Janot.

Fernando Limongi, professor de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, também apostava na continuidade de Temer até que os últimos acontecimentos o fizeram mudar de opinião: “É difícil fazer previsões porque tudo acontece muito rápido, mas agora começo a acreditar que cairá. Com a estratégia de Janot de dividir a acusação em três denúncias acredito que vai ser muito difícil que ele resista”.

Para Limongi a crise que começou com os protestos de 2013 deu uma guinada decisiva quando a Lava Jato parou quase totalmente de punir o PT para avançar até o núcleo central do sistema partidário. Para ele foi esse o fator que desencadeou o impeachment. “Temer foi colocado para tentar parar a Lava Jato. E ele fracassou”, argumenta. O professor diz que os grandes partidos brasileiros mergulharam em “uma estratégia suicida, irracional, uma política de destruição mútua que consistiu em alimentar as investigações para prejudicar o adversário quando a qualquer momento poderiam se voltar contra eles mesmos, como acabou acontecendo”.

A Lava Jato revelou, de acordo com Limongi, que entre PT, PMDB e PSDB havia “uma convergência de projetos e interesses” muito maiores do que os grandes partidos aparentavam à sociedade. “É só ver que eram financiados pelas mesmas empresas”, argumenta. “E, no entanto, por razões que nunca entenderei, se empenharam em encenar uma hiperpolarização entre eles. Fala-se muito da polarização, quando é apenas uma questão de uma pequena elite. Se você olhar para as sondagens, a maioria da sociedade não está polarizada”.

Mesmo que Temer caia, o fim da crise ainda está distante. A sombra da corrupção envolve quase todos os principais atores políticos, incluindo o candidato mais bem colocado nas pesquisas para as eleições de 2018, Luiz Inácio Lula da Silva, que por estes dias espera aquela que pode ser a primeira condenação dos cinco processos judiciais abertos contra ele. O país não entrará numa certa normalidade até eleger um presidente sem o peso das suspeitas, diz Limongi, que conclui com um resquício de ironia: “Estou otimista, mas a situação é trágica”.

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