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Xenofobia, bomba e detenções: 24 horas tensas após ato contra lei de migração

Manifestação de extrema direita na Paulista acaba em troca de agressões e quatro detidos

Para juiz de custódia, Hassan Zarif, dono do Al Janiah, lançou bomba em ato, o que sua defesa nega

Fachada da 78ª DP de São Paulo
Fachada da 78ª DP de São Paulo Futura Press/Folhapress

Durou quase 24 horas o desdobramento de uma manifestação convocada por grupos de extrema-direita contrários à aprovação, no Senado, de uma nova lei de migração que agora espera sanção do presidente Michel Temer. Por volta das 21h desta terça-feira, 2, o ato, que contava com cerca de 50 pessoas caminhando pela Avenida Paulista, foi interrompido por uma explosão de bomba que iniciou uma confusão. Quatro pessoas foram presas e levadas para a 78ª Delegacia de Polícia, em São Paulo. Depois de passarem a noite na delegacia, os quatro, que foram indiciados pela Polícia Civil por explosão, lesão corporal, associação criminosa e resistência, foram liberados depois de uma audiência de custódia no final da tarde desta quarta-feira.

O boletim de ocorrência, lavrado durante a madrugada desta terça-feira, diz que Hassan Zarif “sem sombras de dúvidas” foi reconhecido por ter lançado a bomba, que teria sido acendida pelo sírio Nour Alsayyd, parte do total dos quatro detidos. O caso chamou especial atenção porque Zarif é um conhecido ativista da causa palestina e dono do bar Al Janiah – que, administrado por refugiados, virou um polo cultural na região central de São Paulo, com shows, palestras e oficinas.

Nykolas Silva e Roberto Freitas, os outros dois detidos, de nacionalidade brasileira, teriam agredido manifestantes e resistiram à prisão. Silva ainda estaria portando um soco inglês. A versão é corroborada pelos manifestantes. Já Hugo Albuquerque, advogado de defesa de Zarif e Alsayyd, nega. “Eles foram vítimas de um ataque xenofóbico e foram agredidos por policiais e manifestantes”. Segundo ele, o grupo estava passando pela Av. Paulista, a caminho do Al Janiah, que fica na região do Bixiga, quando foi surpreendido e encurralado pela manifestação. Alsayyd teria ficado tão machucado que foi levado a um pronto-socorro antes de ir para a delegacia.

O juiz da audiência de custódia José Neto, determinou que há provas suficientes para dizer que tanto Zarif quanto Alsayyd são responsáveis pela explosão e por lesão corporal. Contudo, determina que as investigações continuem enquanto os dois estiverem em liberdade. Ele também determinou que ambos devem comprir medidas cautelares, que preveem, por exemplo, comparecimento mensal em juízo e proibição de frequentar eventos políticos enquanto as investigações estiverem em andamento. Após as apurações concluídas, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) irá decidir se oferece denúncia contra Zarif e Alsayyd. Freitas e Silva tiveram o “flagrante integralmente relaxado” e não serão mais alvo de investigações.

Atos terroristas

Enquanto os acontecimentos do dia se desenrolavam, o grupo Direita São Paulo, presente no ato, chegou a publicar um vídeo em que afirma que “pessoas vieram de outro país até aqui para cometer atentado terrorista”. O grupo divulgou imagens que mostram o momento em que uma bomba é lançada contra a manifestação. No vídeo, contudo, não é possível identificar o autor da agressão. Um dos manifestantes, presente na delegacia, exibiu um machucado na perna que teria sido causado pela explosão. O EL PAÍS tentou contato com o grupo, que divulgou uma imagem do ferimento, mas não teve retorno. Pelas imagens, não é possível saber o tipo de bomba, nem o efeito que ela poderia causar. O prosseguimento das investigações será necessário para esclarecer pontos como esse.

Em outros vídeos publicados pelo mesmo grupo de extrema direita, também fica claro o cunho xenofóbico da manifestação, segundo especialistas ouvidos pelo El PAÍS. Antes do conflito, enquanto as pessoas caminhavam pela Av. Paulista, é possível ouvir uma manifestante dizendo em um megafone que “a comunidade europeia não quer mais os islâmicos que estupram as meninas”. No mesmo vídeo, a pessoa ainda afirma que Hussen Kalout, nomeado por Temer para a Secretaria de Assuntos Estratégicos, é um membro do Hezbollah e, por fim, coloca em dúvida o real motivo de parcerias feitas pelo prefeito João Doria com os Emirados Árabes. Imagens como essas despertaram a solidariedade de inúmeras pessoas que publicaram mensagens contra xenofobia.

O escritor Milton Hatoum, por exemplo, publicou em seu Facebook: “Ontem, membros do grupo ‘Direita São Paulo’ agrediram refugiados palestinos. Trata-se de um grupo xenófobo, que age em sintonia com aquele deputado sinistro [Jair Bolsonaro], que cultua a tortura, o estupro, e que, numa recente palestra na Hebraica (Rio de Janeiro), discursou contra os quilombolas e os índios. Nas ‘Memórias do Cárcere’, Graciliano Ramos já mencionava, com ironia, o ‘nosso pequenino fascismo tupiniquim’. É preciso lembrar que Graciliano foi preso sem acusação formal, num ato de terrorismo de Estado. Não é diferente do que acontece no Brasil de hoje”. Como esse, centenas de outros textos foram publicados ao longo do dia. Enquanto isso, as páginas do grupo de extrema direita também foram inundadas de mensagens de apoio.

Controvérsias na delegacia

Durante a madrugada na delegacia – em que manifestantes foram ouvidos e grupos de apoio aos quatro detidos foram fazer vigília – alguns acontecimentos também chamaram a atenção. O advogado de defesa Hugo Albuquerque, por exemplo, disse ao longo do dia que só teve acesso aos detidos depois de três horas na delegacia. Além disso, ressaltou diversas vezes que nenhum manifestante foi detido, apesar dos machucados que os detidos apresentavam e das acusações de que teriam sido vítimas de xenofobia. Sobre o discurso xenofóbico contra os quatro, a defesa ainda pode protocolar ações.

O caso mais esdrúxulo da madrugada ficou por conta de um temporário aumento no número de detidos. Durante a noite, ele pulou de quatro para seis, já que os estudantes Leonardo Santos e Alex Gonçalves foram identificados erroneamente por uma manifestante e também detidos. “Fui preso porque uma mulher de dentro da delegacia me acusou de estar lá na manifestação e a palavra dela foi suficiente pra que me prendessem na hora, sem nenhum tipo de averiguação”, contou Santos ao EL PAÍS.

Ele e o amigo foram à delegacia para prestar solidariedade, já que no momento da detenção estavam em um curso de filosofia oferecido no bar de Zarif – a aula era dedicada aos cem anos da Revolução Russa. Ele conta que passou por revista íntima e acabou ficando detido por algumas horas na cela com os outros acusados. Para provarem que não estavam na manifestação, Santos e Alex tiveram que mostrar “áudios íntimos do Whatsapp, evento no Facebook e até mapa de trajeto do Uber”. “Quem me acusou disse que tinha vídeo e os policiais fizeram pressão usando esse suposto vídeo, falando que tinham prova de que eu estava lá. Foi só quando meu advogado falou que havia chance de reverter o processo para calúnia e difamação é que fomos liberados”, disse.

Um representante da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o ouvidor das policias, Júlio Cesar Fernandes Neves, estiveram na delegacia durante a noite. “As denúncias que nós recebemos são de que aconteceram arbitrariedades, irregularidades. Isso, a ouvidoria vai tomar ciência da realidade e encaminhar para os órgãos corregedores”, disse em coletiva o ouvidor. A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo disse, por nota, que as corregedorias das polícias civil e militar ainda não receberam nenhuma queixa sobre conduta inadequada.

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