Coluna
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Armas de distração em massa

A agnotologia é o estudo da fabricação premeditada do desconhecimento

O presidente russo, Vladimir Putin, com a candidata francesa Marine Le Pen.
O presidente russo, Vladimir Putin, com a candidata francesa Marine Le Pen.Mikhail Klimentyev (AP)

Sua raiz não está tanto na propaganda política como na manipulação publicitária, e certamente é mais fácil encontrar paralelismos com a campanha montada pelas grandes multinacionais do fumo nos anos sessenta para impedir que seu produto fosse relacionado com o câncer do que com os discursos de Goebbels e Stalin. O economista e apresentador da BBC Tim Harford explica isso muito bem em um artigo intitulado The Problem with Facts.

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As ADMs buscam que os debates políticos não se deem no terreno da ação, das medidas necessárias para solucionar determinados problemas, mas que se esgotem dando voltas sobre a falsidade de determinados dados. Faz sentido erguer um muro na fronteira entre o México e os Estados Unidos? Por ora, será preciso desmentir os dados falsos sobre o custo desse muro, difundidos maciça e organizadamente pelos interessados. A "bomba de distração" funciona às maravilhas e as dúvidas sobre o preço se instalam em todos os fóruns de debate, no lugar do sentido e eficácia do tema.

As armas de distração em massa são a total negação do debate político

No fundo, trata-se da total negação do debate político porque este tem de se concentrar não em torno de alguns dados, mas em torno de propostas para mudar esses dados e a realidade. As ADMs procuram duas coisas: negar a credibilidade das fontes, por mais conceituadas que sejam, e negar os próprios fatos. O efeito combinado dessas duas estratégias é brutal: a produção intencional de ignorância que, é bom ficar claro, precisa da colaboração não só de políticos e publicitários, mas também de grandes meios de comunicação e jornalistas bem conhecidos, comprados ou voluntários.

A agnotologia, o estudo dessa fabricação premeditada de desconhecimento, teve também um grande momento após a eclosão da crise econômica. Joaquín Estefanía recuperou o poder da palavra para contar como os responsáveis pela Grande Recessão conseguiram introduzir muitíssimo ruído sobre as causas do que ocorreu, quando estavam perfeitamente conscientes de seu próprio papel. O mesmo procedimento se aplica agora às causas do mal-estar político, maciças doses de distração destinadas a desviar a atenção de onde deveria estar: o que se fez e como pode ser corrigido.

Maciças doses de distração destinadas a desviar a atenção de onde deveria estar

Fazer frente a estratégias tão elaboradas não é fácil. É preciso divulgar os dados certos e insistir na autoridade das fontes, claro. Mas existe o perigo de empregar todo o tempo em checar e desmentir os dados falsos, o que proporcionaria um grande êxito aos manipuladores, donos da agenda, do enquadramento dos fatos e do debate, e capazes de ganhar todos os pontos por puro esgotamento do oponente. Assim, os jornalistas alemães e franceses tentam agora adotar uma estratégia diferente: voltar a contar histórias nas quais não se fale da mentira, mas em que se mostre a verdade e sua importância. Grandes histórias sobre a vida real das pessoas. Jornalismo 0.0.

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