Operação Carne Fraca

Na fila do açougue: “Qual é a marca desta carne?”

Operação Carne Fraca, sobre esquema envolvendo fiscais e frigoríficos, muda hábito dos consumidores

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Os questionamentos de alguns consumidores começaram a surgir depois que a Polícia Federal deflagrou a Operação Carne Fraca, na última sexta-feira. Segundo as investigações, havia um esquema de pagamento de propinas a fiscais agropecuários do Ministério da Agricultura para que determinados frigoríficos pudessem acelerar a liberação de mercadorias ou vender produtos adulterados com produtos químicos e carnes vencidas. Ainda não se sabe ao certo a magnitude do problema. Na mira, grandes empresas do setor, como a JBS responsável por marcas como a Seara, Swift, Friboi e Big Frango, e a BRF, dona da Sadia e Perdigão, entre outras. Ao todo, 21 frigoríficos estão sob suspeita, três deles já interditados, incluindo o frigorífico Peccin, do Paraná, cujos funcionários são ouvidos em áudios da PF combinando adulteração dos produtos.

No açougue da Swift, em Pinheiros, funcionários afirmaram terem notado queda no movimento durante o último final de semana. Ali, a mesma pergunta do supermercado surgiu por parte dos clientes. "Nos perguntaram se a nossa marca é da JBS", disse um funcionário. "Explicamos que confiamos no nosso produto e sabemos da qualidade deles", explicou-se.

Nem todos, porém, estão se importando com a marca da carne que compram. Para a aposentada Elza Machado, 80, a marca da carne não faz nenhuma diferença. "Friboi é a marca, mas o gado é o mesmo para todas as marcas", disse. "Não faz diferença, é tudo igual". Ela acredita que as informações divulgadas sobre carnes contaminadas ou vencidas fazem parte de um plano para prejudicar as exportações brasileiras.

Nesta segunda-feira, a União Europeia, China, Chile e Coreia do Sul anunciaram que vão suspender a importação de carne brasileira e que aumentarão a fiscalização desses produtos. No caso da China, ainda não houve um anúncio oficial, e não se sabe se a suspensão valerá para todas as carnes ou somente para as marcas investigadas. Já a Coreia do Sul anunciou por meio de seu Ministério da Agricultura que vai aumentar as inspeções feitas na carne de frango importadas do Brasil e proibiu, temporariamente, a venda dos produtos de frango da BRF. A Comissão Europeia afirmou que está monitorando as importações de carne do Brasil e que as empresas terão acesso negado nos países que fazem parte do bloco. E por fim, o Chile fez um anúncio por meio do seu Ministério da Agricultura, segundo a agência Reuters, mas ainda não há mais informações sobre a suspensão. No domingo, o presidente Michel Temer afirmou que a fraude é "pontual" e convidou embaixadores para um jantar em uma churrascaria em Brasília.

Piada

No restaurante argentino Martín Fierro, na Vila Madalena, em São Paulo, onde os cortes servidos são de origem argentina e uruguaia, o gerente Valdemir Paiva Brito explica que o movimento seguiu sem alteração no fim de semana e que  clientes chegaram a fazer piada com o escândalo deflagrado na sexta-feira. "Os clientes perguntaram brincando: 'essa é aquela carne?", contou. "Outros também fizeram piada: 'É Friboi?".

Perguntar se uma carne é Friboi era tudo o que a campanha de marketing da marca queria. Mas com caráter positivo. Para ensinar o consumidor a questionar a marca da carne, a JBS, responsável pela Friboi, contratou, no início de 2014, dois garotos-propaganda nacionalmente conhecidos: o ator global Tony Ramos e o cantor Roberto Carlos

O cantor Roberto Carlos era assumidamente vegetariano há quase 30 anos, mas no comercial afirmava ter voltado a comer carne, já que o produto é "com certeza" da Friboi. O contrato foi rompido em novembro do mesmo ano, e a empresa permaneceu somente com Tony Ramos, que aparece em comerciais nos supermercados perguntando se a carne que está sendo comprada é Friboi.

Na sexta-feira, o ator afirmou estar "surpreso" com a notícia da operação Carne Fraca. "Estou surpreso com essa notícia", disse ao site de celebridades Ego. "Eu sou apenas contratado pela empresa de publicidade, não tenho nenhum contato com a JBS".

Enquanto isso, nos supermercados, a ironia é que o consumidor aprendeu, finalmente, a perguntar se carne é Friboi. "Depois que eu vi a notícia [sobre a operação Carne Fraca], eu passei a comer mais peixe", disse a dona de casa Lúcia da Paz. "Não vou deixar de comer carne, mas terei mais critério pra comprar. A minha única certeza é que Friboi eu não compro mais".