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Eunício, entre a Lava Jato e a promessa de conciliação no Senado

Peemedebista é um dos políticos mais ricos do Legislativo e foi citado em delações da operação

Eunício Oliveira, eleito presidente do Senado
Eunício Oliveira, eleito presidente do Senado EFE

Rico e influente, mas espremido entre a influência histórica das famílias Gomes e Jereissati no seu Estado, o Ceará, o senador peemedebista Eunício Oliveira alcançou nesta quarta seu voo político mais alto. Eleito novo presidente do Senado, ele promete agora diálogo e em seu discurso fez questão de ressaltar uma imagem de conciliador e respeitador das instituições. Evocou Ulysses Guimarães e disse que não colocará a “nau do Senado contra as correntes, os ventos e as marés tempestuosas”, fazendo referência ao período turbulento vivido no Brasil do qual seu partido, e ele próprio, é parte indissociável.

Apesar de não ter nenhum inquérito aberto no STF, Eunício já foi citado três vezes na Operação Lava Jato e é identificado como o “Índio” das planilhas da Odebrecht – que indicam pagamentos feitos para políticos. O ex-senador Delcídio do Amaral disse que Eunício teria cobrado propina para emplacar diretores em agências estatais. Nelson Melo, ex-diretor da Hypermarcas, afirmou ter repassado 5 milhões de reais ao novo presidente do Senado por meio de contratos fictícios. E, por fim, Cláudio Melo, ex-diretor da Odebrecht, falou em pagamentos de 2 ,1 milhões de reais por aprovação de uma medida provisória. O peemedebista tem negado todas as acusações, mas, de fato, ainda não se sabe qual será o nível de pressão sobre ele quando as disputas políticas começarem de fato. Em sua primeira entrevista após a vitória, o novo presidente do Senado defendeu o fim do sigilo sobre as 77 colaborações da Odebrecht, que devem marcar o passo de seu mandato.

Ao lado de Romero Jucá (PMDB-RR) e Renan Calheiros (PMDB-AL), Oliveira é um dos caciques político que moldam a força do PMDB nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. Uma característica fundamental, contudo, o afasta deles. Ao contrário de Calheiros e Jucá, mais assertivos e dados a posicionamentos contundentes, Eunício nunca se mostrou um jogador com sede para disputas de bolas divididas. Esse traço de personalidade pode ser valioso para o Governo que este ano pretende aprovar medidas controversas na sociedade, como a reforma da Previdência. Por outro lado, há uma dúvida: como ele reagirá às turbulências político-jurídicas prometidas para a temporada que se inicia hoje com a retomada dos trabalhos no Supremo Tribunal Federal (STF)?

Tido como preferido para o cargo pelo presidente Michel Temer, Eunício, de 64 anos, entrou na política em 1998 quando foi eleito deputado federal, cargo que ocupou até 2011, quando virou senador. É no cargo de tesoureiro do PMDB que ocupa há dez anos, contudo, que conquistou muito de sua relevância política dentro do partido. Apesar de ter se alinhado com posições de Calheiros nos últimos anos – como no caso de ter costurado para que a ex-presidenta Dilma Rousseff não perdesse seus direitos políticos depois do impeachment –, o próprio senador se definiu em entrevista à Folha de S. Paulo como sendo “integrante” da ala do PMDB da Câmara, dominada pelo grupo de Temer.

“O Renan tem um estilo. O meu jeito já foi demonstrado por onde passei. O Senado não pode ficar batendo carimbo. Durante cinco anos, não houve diálogo com a Câmara”, disse à Folha, sinalizando o porquê de ter contado com a preferência do Palácio do Planalto. “O Eunício deve conviver melhor com o Temer pela proximidade e também por causa do caráter menos ‘agressivo’ que o de Renan e Jucá”, opina um ex-integrante influente do PMDB que, contudo, questiona como o novo presidente do Senado reagirá se tiver de enfrentar reações contrárias a ele, especialmente em disputas com o Judiciário.

Eunício chega ao cargo respaldado por uma costura política bem feita. Até o apoio do PT, rachado entre votar ou não votar em candidatos que apoiaram o impeachment da ex-presidenta da República, conseguiu nesta quarta-feira. De dez senadores petistas, sete aderiram à candidatura, em um acordo para garantir a primeira secretaria do Senado, cargo importante para que se mantenha algum poder político dentro da Casa.

Um dos políticos mais ricos do poder legislativo, Eunício tem um patrimônio declarado de 99 milhões de reais e uma origem humilde. Filho de um lavrador, nasceu em Lavras da Mangabeira, município de 30 mil habitantes no Ceará e costuma ressaltar sua origem humilde. "Um garoto nascido no interior do Ceará, sentado aqui nessa cadeira, eu tenho que agradecer a Deus", disse ele nesta quarta depois de proclamado o resultado. Ao EL PAÍS, o mesmo ex-integrante do PMDB disse que o senador “sempre foi visto mais como um batalhador que veio debaixo do que um político nato, mais como uma cara da política social do que do jogo político duro”.

Apesar de ter sido ministro das Comunicações de Lula e ter obtido bom trânsito com a Rousseff até aderir ao impeachment, Eunício é visto com desconfiança por movimentos sociais. O Movimento dos Sem Terra (MST), por exemplo, tem uma briga que se arrasta há anos com o senador. Ele é dono de várias propriedades rurais em Goiás, com destaque para a Fazenda Santa Mônica, apontada pelo MST como um latifúndio improdutivo.

Por causa de seus negócios, as delações na Lava Jato, contudo, não devem ser o único problema do novo presidente do Senado. Conflitos de interesse também são apontados no histórico de Eunício. Depois de anos de espera, como mostrou a revista Piauí, conseguiu emplacar o genro em um cargo de diretoria na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), controlada pelo PMDB. À época, a indicação foi criticada por associações de pilotos. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo também mostra que empresas do senador, que atuam nos serviços de limpeza, transporte de valores e vigilância, possuem negócios com bancos estatais.

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