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Carlos Augusto Calil | PROFESSOR DE AUDIOVISUAL NA USP

“O que está acontecendo no Brasil é uma estatização do cinema”

Ex-secretário de Cultura de SP defende "mudanças radicais" na Ancine e na política do audiovisual

troca de diretores ancine
Calil na Festa Literária de Paraty em 2015. FLIP

As mudanças que virão com a transição de cargos na Agência Nacional do Cinema  têm gerado expectativas em parte negativas no audiovisual brasileiro. Enquanto muitos temem algum retrocesso nas políticas conquistadas pelo setor, Carlos Augusto Calil, professor de História do Audiovisual Brasileiro da Universidade de São Paulo e ex-secretário municipal de Cultura de São Paulo de 2005 a 2012 (nas gestões José Serra e Gilberto Kassab), torce, precisamente, por “mudanças radicais”.

Para ele, a Ancine goza hoje do mesmo poder que teve no passado a Embrafilme – empresa estatal que ele próprio presidiu e regulava o cinema até 1990, quando foi extinta pelo ex-presidente Fernando Collor – sem que isso se reverta no fortalecimento da indústria cinematográfica nacional. Apesar de que Calil se mantém “propositalmente fora das redes e à margem das discussões”, seu nome circula nos bastidores como uma possível indicação para a presidência da agência. De sua parte, ele só torce para que seja “um técnico, mas de fora da área cinematográfica”.

Pergunta. Estamos às portas de mudanças importantes na administração da Ancine, que têm deixado a classe audiovisual com frio na barriga. Qual é a sua expectativa em relação à renovação que vem aí?

Resposta. Pessoalmente, sonho com uma virada radical na Ancine. Esse modelo que a agência imprimiu é o último estágio desenhado pelo Governo brasileiro no começo dos anos 50, lá por 1952, para um cinema estatizado, nos moldes de um país soviético. E tenho a plena convicção de que não deu certo. Chegar ao patamar de 150 filmes produzidos ao ano, que era um dos objetivos desse projeto, não deu resultado nenhum. Todo o pensamento, a meu ver, está equivocado. A Lei do Audiovisual, por exemplo, é falida, porque aposta só na produção e não na emancipação do setor. É preciso agir em prol da capacitação e do empoderamento dos produtores – não dar dinheiro de graça e ainda fazê-los escalar uma montanha a cada obra que produzem. Hoje a Ancine é poderosa e o cinema é muito frágil, como nos tempos da Embrafilme. A burocratização é cada vez maior.

P. A questão é que muitos profissionais do setor temem pelo trato do Governo em relação à Cultura. Isso vem desde que Temer desfez o MinC, em um primeiro momento, para depois colocá-lo de novo de pé.

R. A Cultura não é prioridade desse Governo, assim como não era do anterior. O Governo Dilma foi um dos piores para a Cultura, só perdeu nesse quesito para o de Fernando Henrique Cardoso. Na administração de Lula e Dilma, não houve nenhuma revolução na área. O que existia era certa indiferença em relação à Cultura.

P. Quem pode ser indicado à presidência da Ancine, na sua opinião?

R. Não sei quem pode ser indicado, porque permaneço propositalmente fora das redes e à margem das discussões. Eu apostaria em um técnico que não fosse da área cinematográfica. A Ancine – isso, sim, é positivo – criou ótimos técnicos ao longo de 15 anos de existência. Tem gente lá que realmente entende do assunto. Mas deveria ser alguém que conte com o apoio da classe cinematográfica, do contrário essa pessoa não aguenta. Que tenha independência e possa apoiar os produtores, que estão muito frágeis. Só que o que deve acontecer é o de sempre: vão plantar alguém da classe no Governo, para que seja mantido o status. É preciso dizer também que o atual secretário-executivo do Ministério da Cultura, o João Batista de Andrade, é cineasta. Então, tem alguém lá dentro que entende do assunto para ajudar a tomar essa decisão.

P. Do que se fez nos últimos 15 anos em termos de políticas públicas para o audiovisual, há algo que você valorize? A atual situação de pleno emprego no setor, por exemplo?

R. Pleno emprego que não tem sustentatibilidade não adianta. É uma bolha. Estamos produzindo muitos filmes, é verdade. De um lado, temos obras mais autorais, como Boi Neon e Aquarius, que têm qualidade e são reconhecidas, e de outro, obras comerciais como Minha mãe é uma peça 2, que geram bilheteria. Mas no meio do caminho temos uma massa que não significa nada. Não podemos ficar criando filmes para as prateleiras da Cinemateca.

P. O que você opina sobre o Fundo Setorial do Audiovisual e da Lei 12.485, da TV a cabo? São medidas importantes, que transformaram o setor.

"O FSA e a lei do cabo são a coisa mais inteligente que se fez desde a criação da Ancine"

R. São a coisa mais inteligente que se fez desde a criação da Ancine. Primeiro, o FSA deu a base de apoio. Depois, veio a lei do cabo, que veio tarde, mas veio e é essencial. Infelizmente, não foi levada até o fim, porque não há convicção por parte dos governantes no sentido de sustentar a política. Diante do crescimento do video on demand (VOD) e do streaming, tudo vai mudar. É necessário taxar o VOD, para que as empresas da área contribuam com o fundo do audiovisual, mas é pouco provável que isso aconteça. Elas não abrem seus dados, então como vai se fazer isso? Vamos levar outros 20 anos? A lei do cabo foi bloqueada pela Globo por anos, porque ela temia a perda de audiência – o que de fato aconteceu. Isso atrasou enormemente os avanços da TV paga no Brasil. O mesmo acontece agora com o cabo. As pessoas estão migrando de lá para o VOD, simplesmente porque comparam 200 reais com 20 reais de conta ao mês.

P. Se o cenário fosse ideal para qualquer mudança neste momento, o que você acha que deveria ser feito?

R. Uma reforma geral nas leis. Por exemplo, para que servem os Funcines (Fundos Municipais de Cultura)? Para nada. Poderiam funcionar como as SOFICAS (Sociedades de Financiamento do Cinema e do Audiovisual), que fortalecem os produtores a partir de instrumentos da política pública francesa a longo prazo. São incentivos fiscais para se produzir cinema, em que as produtoras não podem redistribuir o lucro que obtêm com seus filmes. Elas têm de reinvestir nas empresas. Não se trata de copiar o modelo, mas de pensar nesse objetivo: fortalecer os produtores, não os produtos. O que está acontecendo no Brasil é uma estatização do cinema. Isso tem que ser virado de cabeça para baixo.

P. É possível dizer que a atual política tem favorecido as pessoas em início de carreira e gerado uma diversificação?

R. Isso de que os estreantes não têm lugar no audiovisual brasileiro é uma questão antiga no Brasil. Não é verdade. Têm lugar, mas devem ser competitivos. Não podemos fazer filmes para passar somente em festival. Do ponto de vista de construção de uma política pública, isso é besteira. Não se trata de ignorar o autoral em função do comercial. Você pode criar duas linhas, para os filmes que querem se inserir no mercado e os que não. O que não pode é financiar filmes sem nenhum retorno. Desafio você a descobrir o primeiro país em que isso acontece.

P. O que você opina sobre o fato de que o Brasil teve mais de 10 filmes selecionados no próximo Festival Internacional de Cinema de Berlim, um dos mais destacados no mundo?

R. Claro que é bom. Porque alguém vai assistir esses filmes e eles poderão fazer negócios no âmbito do festival. Existe uma demanda por novidades no audiovisual, que é um setor voraz. Não tenho os dados, mas intuo que Boi Neon, do Gabriel Mascaro, que é um filme autoral muito competitivo, se pagou internacionalmente. Fez sucesso, foi vendido a muitos países.

P. Existe uma vantagem adicional em participar de festivais, que é colocar o Brasil em foco. O sucesso de um filme termina beneficiando outros. Você concorda?

R. Sim. O Brasil poderá voltar a chamar a atenção pelo seu cinema. Agora, o país está fora do cenário cinematográfico mundial, e Berlim pode ser o turning point. Aliás, estamos fora de praticamente todos os cenários artísticos. Temos algum impacto hoje nas artes visuais, mas perdemos relevância até na música, veja você.

"Estamos falando de dinheiro público. Devemos analisar o que foi feito até hoje e o que se obteve com cada política pública. Com o atual grau de incentivo, não há competitividade entre as produtoras"

P. Como chegamos ao ponto em que tantos filmes foram selecionados para Berlim?

R. Chegamos aí produzindo de maneira errática. O que estou pedindo é que isso se faça de maneira racional. Estamos falando de dinheiro público. É uma coisa objetiva a ser analisada: o que foi feito até hoje e o que foi obtido com cada política pública. Em um ambiente como o atual, com esse grau de incentivo, não há competitividade entre as produtoras, e isso resulta em falta de competitividade do produto audiovisual brasileiro no exterior. É como se o almoço estivesse pago. Vão dizer: “Ah, finalmente um liberal no cinema”. Não é isso. Trata-se de oferecer um subsídio bem dirigido, bem pensado.

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