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As FARC migram para a paz

Mais de 6.000 guerrilheiros se deslocam pela Colômbia para onde iniciarão a transição à legalidade

as Farc
Foto divulgada no domingo pelo Bloco Sul das FARC mostra guerrilheiros viajando pelo rio Mecaya, em Putumayo. EFE

Cada capítulo do processo de paz da Colômbia se reveste de um discurso épico. Nestes quatros anos, a cada cessar-fogo houve quem dissesse que “os fuzis se calaram”. O romance Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, foi evocado o mesmo número de vezes que Mauricio Babilonia teve que soltar as borboletas amarelas, a cada vislumbre de que meio século de guerra se aproximava do fim. Os colombianos, como escreveu o Nobel, conseguiram em mais de uma ocasião uma segunda chance sobre a Terra. E a “horrível noite”, como se lê no hino nacional, já cessou em várias ocasiões. A implementação do acordo com a guerrilha FARC começa a ser escrita com essa mesma liturgia. Mais de 6.000 guerrilheiros abandonam seus acampamentos na Colômbia profunda a caminho da vida civil, numa espécie de migração que já ficou conhecida como “A Última Marcha das FARC”.

A guerrilha passou os últimos cinco meses em áreas oficialmente denominadas como pontos de pré-agrupamento; de maneira oficiosa: acampamentos de paz. Nesses territórios esperaram que o Governo de Juan Manuel Santos aprovasse por trâmite parlamentar parte dos acordos pactuados em Havana. E cumpriram sua palavra de que a implementação só começaria quando a Lei de Anistia estivesse vigente. Nesse período não importou o calendário estipulado nos textos. O Dia D,1º. de dezembro de 2016, só serviu como lembrete na agenda. Em 6 de dezembro nenhum guerrilheiro se mexeu de onde estava. Dois meses depois, as FARC já estão concentradas na maioria das 26 áreas de transição – seu lar até 1º. de junho, provavelmente.

Entre sábado passado e esta quinta-feira estão programadas 36 operações para a transferência de 6.300 guerrilheiros em toda a Colômbia. No caminho até esses territórios, a poucos quilômetros dos locais onde se encontravam, cada frente, coluna e bloco da guerrilha foi acompanhado em corredores humanitários pelo Mecanismo de Monitoramento e Verificação, composto pelo Governo, as FARC e a ONU. Para o deslocamento por terra foram usados 450 veículos 4x4, 200 vans, 120 caminhões, 100 ônibus, 80 carros, 35 mulas de carga e 10 tratores, além de terem sido oferecidas entre 10.000 e 15.000 refeições, segundo dados de Carlos Córdoba, gerente das zonas de transição.

Os milicianos que colaboraram com a guerrilha nestes anos de guerra terão que se registrar nessas áreas, mas não será obrigatório que vivam nelas. Por enquanto, o Governo não especificou quantos são. Tampouco se sabe quantos detentos indultados decidirão viajar a esses acampamentos temporários, nem quantos não anistiáveis esperarão para ser julgados pela Justiça Especial nesses mesmos territórios.

A Colômbia aprendeu que além do confronto dialético da negociação haveria os problemas da sua implementação. Através das suas redes sociais, as FARC — do comandante Rodrigo Londoño a guerrilheiros rasos com dotes tecnológicos — tentaram viralizar cada um dos entraves logísticos que atrasaram o cumprimento do acordo: imagens de veículos atolados no barro das vias de acesso às áreas de transição; comida podre ou em mau estado para alimentar a guerrilha; dificuldades como os aluguéis dos terrenos, porque alguns camponeses se negavam a ceder suas terras e porque outros, como contou em mais de uma ocasião Sergio Jaramillo, chefe do Alto Comissariado da Paz, pediam o dobro ou o triplo do que valem seus imóveis.

Todas estas dificuldades afetaram especialmente os trabalhos de construção dessas áreas. A tal ponto que Governo e guerrilha concordaram em construir esses acampamentos conjuntamente. O Executivo, através da Unidade de Gestão de Riscos, se encarregaria dos espaços comuns: cozinhas, salas de aula, banheiros… Os guerrilheiros, com o material fornecido pelo Estado, edificariam os dormitórios. Córdoba não quis mencionar cifras do orçamento a ser investido pelo país nas 26 áreas de transição distribuídas por 14 departamentos (Estados).

Os guerrilheiros chegam a esses lugares com suas mochilas (não mais do que 20 quilos), alguns outros tipos de materiais, portando uniformes e com a bandeira branca da paz. Na entrada, deparam com o cerco da Força Pública, que zelará pela sua segurança. E em sua nova residência, encontram terrenos ainda em processo de construção. Dispõem de água potável, luz elétrica, banheiros móveis e uma cozinha industrial, segundo informações do Alto Comissariado da Paz. Mas os dormitórios ainda não foram concluídos, razão pela qual eles, por enquanto, dormem em áreas comuns, usando suas próprias barracas ou uma das entre 50 e 100 tendas de campanha emergenciais disponibilizadas pelas autoridades. Para as mulheres grávidas e os doentes, foram disponibilizadas moradias temporárias. “Enquanto as FARC estão cumprindo rigorosamente o que foi acertado, o Governo não tem providenciado infraestrutura nas regiões mais distantes”, afirma Londoño pelo Twitter. Mensagens com esse mesmo conteúdo têm aparecido em perfis de dezenas de integrantes da guerrilha, junto com fotos e vídeos mostrando aquilo que encontram ao chegar nesses locais.

O que ocorrerá com os menores?

O Governo da Colômbia e as FARC pactuaram que, uma vez tendo os guerrilheiros se alocado nessas áreas mais distantes, eles entregariam uma relação contendo os menores de 18 anos alistados em suas fileiras. A partir daí os jovens se concentrariam em 10 pontos que seriam entregues a suas famílias, para que seja garantida, assim, sua transição para a vida civil. Até o momento, não se sabe qual é o número de meninos e meninas que ainda estão ao lado dos insurgentes.

Essas mesmas imagens também confirmam que eles não depuseram as suas armas, e que não o estão fazendo ao chegar em suas novas casas. Cada arma será identificada com um código de barras que incluirá informações sobre o seu tipo e sobre seu dono. A esses lugares também chegarão outros materiais de guerra, como mísseis ou metralhadoras. Esse inventário será comparado com aquele que foi entregue pelas FARC à ONU e que não foi divulgado por razões de segurança. Portanto, durante algum tempo, até que se leve a cabo o armazenamento em contêineres localizados nos próprios acampamentos, os guerrilheiros estarão armados para sua autodefesa caso se produza algum tipo de acidente com grupos alheios ao processo de paz. Paralelamente, haverá destruição do armamento instável — bombas ou granadas —, fora dessas áreas.

Os guerrilheiros das FARC recuperarão ou terão pela primeira vez uma identificação. Em sua transição para a vida civil, deverão decidir se guardarão seus codinomes da clandestinidade ou se voltarão a ostentar seus nomes de batismo. Feito em colaboração com a Universidade Nacional da Colômbia, o levantamento servirá para que o Ministério da Saúde possa garantir a sua cobertura nesse aspecto, de forma subsidiada, até que comecem a trabalhar e a receber salário –o que ocorrerá em muitos casos pela primeira vez na vida.

Se, conforme o cronograma acertado, a primeira parte de implementação do acordo se encerra em 1 de junho, a única lembrança que permanecerá da guerra com as FARC serão três monumentos esculpidos com ferro fundido retirados dos fuzis. Depois disso, será preciso esperar que alguém encontre as palavras certas para descrever o próximo capítulo da paz na Colômbia.

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