Denúncias do caso Odebrecht envolvem dois ex-presidentes do Peru

Alejandro Toledo e Ollanta Humala estão implicados no esquema de propina da empresa

Ollanta Humala, em junho passado em Santiago do Chile.
Ollanta Humala, em junho passado em Santiago do Chile.MARTIN BERNETTI (AFP)

A situação judicial do ex-presidente do Peru, Ollanta Humala, complicou-se após a revelação da Folha de S. Paulo de que a Odebrecht, empresa que confessou o pagamento de propinas em todo o continente para a concessão de contratos, teria repassado três milhões de dólares (cerca de 9,6 milhões de reais nos dias de hoje) de caixa dois à campanha presidencial de Humala. O ex-presidente Alejandro Toledo também se viu implicado pelo depósito feito na conta de um empresário próximo, descoberto pelo Ministério Público.

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Segundo a Folha, o valor enviado a Humala foi supostamente autorizado pelo ex-presidente Lula e saído do caixa que a empreiteira tinha junto ao PT, administrado pelo ex-ministro Antonio Palocci, conhecido internamente como “Italiano”.

A Justiça peruana há meses investiga Humala por lavagem de dinheiro no financiamento de suas campanhas. Com as últimas revelações, e ante o perigo de fuga, o juiz acatou o recurso do promotor Germán Juárez Atoche para que os envolvidos sejam obrigados a pedir autorização judicial se quiserem abandonar o país.

O promotor Juárez justificou esse pedido apresentando duas procurações, pelas quais a ex-primeira-dama autorizou seu esposo e sua prima Rosa Heredia a viajar com os filhos para fora do Peru. Segundo Juárez, esses documentos demonstram que o casal “vem preparando caminho para uma possível saída ao exterior”.

As suspeitas de fuga acompanham o casal desde o final do mandato presidencial de Humala, em julho de 2016. E aumentaram em novembro passado, quando Heredia – investigada pelo mesmo crime de Humala – viajou ao exterior para assumir o cargo de diretora do Escritório de Ligação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em Genebra, na Suíça. Finalmente, a ex-primeira-dama voltou ao Peru, em meio a uma grande expectativa da mídia. Há uma semana, o Judiciário a autorizou a viajar para o exterior, obrigando-a a voltar a cada 30 dias para se submeter a controles biométricos.

Conexão com Toledo

Mais implicado que Humala está o ex-presidente Alejandro Toledo, que governou o Peru de 2001 a 2006. O Ministério Público não divulgou os detalhes da maioria de suas investigações sobre o caso Odebrecht, mas, no início deste ano, revelou que a Camargo Corrêa depositou mais de 90.000 dólares (290.000 reais) na conta do empresário Josef Maiman, amigo do ex-mandatário. O dinheiro destinado pela empreiteira para propinas na concessão do trecho quatro da estrada Interoceânica seria de 6 milhões de dólares (19,2 milhões de reais). Uma das suspeitas dos promotores é que a quantia foi recebida integralmente por Maiman.

O empresário é processado por lavagem de dinheiro desde abril de 2016. Na época, foi acusado de transferir 9,4 milhões de dólares (30 milhões de reais) à sogra de Alejandro Toledo, Eva Fernenbug, através da empresa Ecoteva. Esse dinheiro foi utilizado pelo ex-presidente para a compra de sua casa em Casuarinas e de dois escritórios no bairro residencial de Monterrico. As explicações de Toledo sobre o tema mudaram várias vezes. Disse inclusive que a sogra havia recebido esse pagamento por ser sobrevivente do Holocausto.

NOVO SISTEMA NACIONAL CONTRA A CORRUPÇÃO

A Controladoria peruana auditou 28 concessões distribuídas entre as empreiteiras OAS, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão, totalizando 4,6 bilhões de dólares (10,5 bilhões de reais). Os relatórios estão com o Ministério Público, que estuda a possibilidade de denunciar as empresas. Por outro lado, soube-se que será criado, nos próximos dias, o Sistema Nacional Anticorrupção, responsável por analisar os casos em âmbito nacional e internacional. A juíza superior de Lima, Susana Castañeda Otsu, coordenará o caso Odebrecht. Finalmente, nesta semana foi anunciado que a empresa brasileira se reunirá com representantes da Procuradoria Pública Especializada em Crimes de Corrupção para negociar a quantia e as condições da reparação civil que deverá pagar ao Estado por suas reconhecidas práticas corruptas.

Toledo chegou a Lima para passar as festas de fim de ano e foi embora no início de janeiro, despertando suspeitas. Precisou responder com um comunicado, negando ter fugido do país pelas denúncias contra seu amigo Maiman. Afirmou que havia regressado aos Estados Unidos, ao seu trabalho na Universidade Stanford, e que não deixará de colaborar com as investigações vinculadas à Odebrecht. Não deverá esperar muito para cumprir com sua palavra, pois a comissão do Congresso encarregada do caso anunciou que ele será o primeiro ex-presidente intimado a depor, em fevereiro.

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