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Trump escolhe negacionista da mudança climática para dirigir agência do meio ambiente dos EUA

Scott Pruitt encabeçou movimento de governadores republicanos contrários às reformas de Obama

O promotor geral de Oklahoma, Scott Pruitt.
O promotor geral de Oklahoma, Scott Pruitt. REUTERS

O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, escolheu para ser o novo responsável pela política do país para o meio ambiente um promotor veterano de Oklahoma que não acredita que a ação humana interfira na mudança climática e que dedicou seus últimos anos a vetar na Justiça as regulamentações propostas por Barack Obama na batalha contra o aquecimento global. Scott Pruitt, promotor geral do Estado que mais utiliza petróleo e gás de forma intensiva, será o novo diretor da Agência para Proteção do Meio Ambiente dos EUA.

A indicação, que o Senado deverá ratificar e que foi antecipada pelos principais veículos de comunicação dos EUA nesta quarta-feira, pode ser uma sinalização de que Trump pretende desfazer boa parte dos avanços realizados por Obama contra a mudança climática e proporcionar mais facilidades à indústria do petróleo e do carvão. Pruitt é um dos membros do movimento que, nos EUA, nega a existência de um aquecimento global e sua vinculação com o consumo de energias fósseis, rejeitando as regulamentações ambientais por considera-las prejudiciais ao setor empresarial.

Um ano depois de o presidente Obama ter aprovado medidas históricas com o objetivo de obrigar a indústria norte-americana a reduzir as emissões tóxicas, um de seus principais opositores poderá, agora, contribuir para acabar com elas. Ao lado de outros 27 Estados, Pruitt entrou na Justiça contra a Lei do Ar Limpo, que constitui o eixo das regulamentações de Obama contra a mudança climática e neste mesmo ano entrou com pedido semelhante contra as medias voltadas para a redução das emissões.

O Plano de Energia Limpa aprovado por Obama obriga os governos estaduais a substituir as energias fósseis pelas renováveis, com o objetivo de reduzir as emissões de gás carbônico em 32% até 2030 em relação aos níveis de 2005. Em meados deste ano, a Suprema Corte suspendeu a sua entrada em vigor até que a Justiça se pronuncie em relação à ação impetrada por Pruitt e quase trinta Estados do país.

Grupos ambientalistas, como o Sierra Club, compararam a escolha de Pruitt como “colocar um incendiário para combater os incêndios”. O senador independente e ex-candidato à presidência Bernie Sanders prometeu interrogar Pruitt com dureza durante as sessões de aprovação de seu nome no Senado. “Isto é triste e perigoso”, disse Sanders.

A indústria ligada ao uso de energias fósseis, por sua vez, recebeu a indicação como uma vitória. Anos atrás, Pruitt liderou as iniciativas, na Justiça, para bloquear as diversas regulamentações federais propostas pelo presidente Obama, inicialmente com a reforma da saúde e, mais tarde, com o plano de redução das emissões. Como promotor geral de Oklahoma, Pruitt entrou com ação, além disso, contra a EPA, a própria agência que ele deverá comandar a partir do próximo ano.

Nesta mesma semana, a notícia da realização de uma reunião entre o ex-vice-presidente Al Gore, líder internacional da luta contra os efeitos da mudança climática, e Donald Trump, ao lado de sua filha Ivanka, deu margem a especulações sobre se ele voltaria atrás em algumas posições que defendeu durante a campanha eleitoral. Trump chegou a dizer, no passado, que o aquecimento global é um “engodo” e que foi inventado pelo governo chinês. Também prometeu que “desmantelaria quase integralmente” a EPA e que faria os EUA se retirarem do histórico Acordo de Paris contra a mudança climática, assinado em 2015.

A escolha do nome de Pruitt congelou qualquer esperança de que, como disse o próprio Trump ao The New York Times depois de vencer as eleições, “pode ser que haja alguma relação” entre as ações humanas e o aquecimento global. O promotor geral de Oklahoma se opôs às medidas de Obama argumentando que elas constituem uma intromissão do governo federal em atribuições que cabem aos Estados – alegação semelhante à utilizada contra a reforma na saúde.

Pruitt também avalia que o debate sobre a contribuição das ações humanas para o aquecimento global “ainda não está concluído” e que “os cientistas continuam a expor desavenças em relação ao grau e à magnitude do aquecimento global, assim como em relação às suas ligações com as ações humanas”, como ele mesmo escreveu em um artigo na National Review.

Os vínculos existentes entre Pruitt e a indústria do petróleo e do carvão também estão amplamente documentados. Em 2014, o Times revelou que as cartas enviadas à EPA contra a sua regulamentação haviam sido redigidas, na verdade, por um dos principais defensores da indústria do petróleo em Washington.

“O presidente eleito prometeu acabar com a interferência desses grupos em Washington, mas a indicação de Pruitt só vem reforça-la”, disse nesta quarta-feira o senador Chuck Schumer, líder da minoria democrata. Para Schumer, o promotor geral de Oklahoma possui “um preocupante histórico de defesa dos interesses das grandes companhias petrolíferas em detrimento da saúde pública”.

Segundo a NASA, 97% dos cientistas do mundo consideram que o aquecimento global é uma realidade e que o consumo de energias fósseis é a sua principal causa. Este ano de 2016 está prestes a ficar registrado, além de tudo, como aquele em que se registraram as temperaturas mais altas desde que esses dados são calculados. Além disso, os levantamentos mostram que os dez anos mais quentes de toda a história ocorreram nos últimos 12 anos.

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