França

Fillon ganha as primárias e será o candidato da direita à presidência da França

Ex-primeiro-ministro tem muitas chances de ser o próximo presidente depois de vencer as primárias

Fillon, depois de votar no domingo.
Fillon, depois de votar no domingo. (AFP)

A direita conservadora francesa escolheu no domingo como seu candidato ao Eliseu o liberal e católico François Fillon, de 62 anos, o líder com mais chances agora de se tornar o próximo presidente da República. O ex-primeiro-ministro ganhou facilmente as primárias de seu partido, de acordo com os primeiros dados provisórios, com um programa liberal no terreno econômico, conservador no social e tradicionalista no religioso.

De acordo com a contagem mais avançada, Fillon recebeu 68% dos votos de cerca de 4,3 milhões de eleitores contra 32% para seu rival, o também ex-primeiro-ministro Alain Juppé, de acordo com a contagem de 6.723 das 10.228 mesas. Juppé afundou suas expectativas como favorito com um programa de centro e perto das nove horas da noite reconheceu a derrota e felicitou Fillon por sua “ampla vitória”, oferecendo seu apoio para que ganhe a eleição presidencial em maio próximo. Juppé foi prejudicado, segundo as pesquisas finais, pelo tom amargo e insultante que usou na reta final depois de ser ultrapassado por seu rival. Mesmo no dia da eleição, Juppé disse após votar que houve uma campanha “caluniosa e suja” contra ele.

MAIS INFORMAÇÕES

A experiência inédita dos conservadores – realizaram primárias pela primeira vez em sua história – demonstrou que a direita está muito mobilizada e politizada. Este domingo votou 10% de todo o corpo eleitoral do país, quando nas primárias da esquerda, há cinco anos, participaram 2,8 milhões. O sucesso dos conservadores neste terreno foi incontestável.

Com um líder forte e legitimado nas urnas, a direita francesa se lança para a reconquista do Eliseu, de onde foi tirada em 2012 pelo atual presidente, François Hollande. Para isso, preferiu um candidato conservador, ortodoxo e católico como o mais adequado para resolver os problemas de uma França bloqueada pela crise econômica e golpeada pelo terror jihadista.

Militantes e simpatizantes do partido da direita, os Republicanos, entenderam que esse novo líder radical é o adequado para derrotar Marine Le Pen, a candidata da Frente Nacional, de extrema-direita, que segundo todas as pesquisas, estará no segundo turno das eleições presidenciais de junho próximo.

Com Fillon volta uma direita menos estridente que a do fracassado Nicolas Sarkozy, eliminado na primeira volta contra todas as previsões, no entanto mais tradicional, mais dura, sem complexos. É a direita francesa católica (60% dos eleitores), nervosa com a desaceleração da economia e assustada por uma suposta crise de identidade em um país multicultural atacado por jihadistas.

Nesses conceitos Fillon baseou sua campanha, apoiado no segundo turno até por seu inimigo declarado Sarkozy. Seu programa econômico e o de Juppé eram iguais, embora o do primeiro fosse mais liberal, mais thatcherista, como qualificaram os assessores do segundo. Mas a maior diferença reside no catolicismo militante de Fillon, em seu exibicionismo. Ele reiterou que o aborto, cuja lei está em vigor há 41 anos, “não é um direito fundamental”, apesar de que aparece assim na norma aplicada há dois anos, que ele não prevê mudar.

Fillon assumiu que seu programa era “mais radical”. “Extremamente tradicionalista”, atacou seu rival. Fillon quer um referendo sobre a distribuição europeia de migrantes; aqueles que chegam à França, diz, devem “assimilar sua herança” e seus valores.

“Não é que você é o melhor; é o único”, havia dito a Fillon o também ex-presidente Valéry Giscard d'Estaing, segundo o jornal Le Figaro. Contra todos os prognósticos, acabou tendo razão.

Após a realização destas primárias, o partido dos Republicanos – antes União por um Movimento Popular (UMP) – entra numa nova fase histórica. Pela primeira vez, seu candidato é eleito pelas bases e simpatizantes, e não pelo aparato do partido. Na verdade, esta experiência foi uma derrota total para o aparato, para o aspirante Sarkozy.

O ex-chefe de Estado ganhou, há dois anos, a presidência do partido para utilizá-lo a seu favor como futuro candidato, mas foi uma manobra fracassada. Por sua vez, ganhou o aspirante que trabalhou nos últimos três anos as bases em todas as cidades, e não quem fez campanha como se já fosse presidente, como Juppé.

Fillon será agora o responsável por organizar e administrar toda a máquina do partido para chegar ao Eliseu. E de unir as complicadas famílias que conviveram no partido lideradas por dirigentes que se traíram e se enganaram desde que, há quatro anos, perderam o poder. Sarkozy voltou prometendo a unidade dos Republicanos. Seus eleitores responderam dizendo que preferem que Fillon lidere essa unidade.

A esquerda está longe desse cenário. Hollande ainda duvida se vai se apresentar ou não. Várias pessoas próximas a ele não querem que se apresente, enquanto seu primeiro-ministro, Manuel Valls, multiplica as suas declarações apresentando-se como o melhor substituto. Seja quem for, vai enfrentar uma primária em janeiro. Ao redor, outros líderes da esquerda apresentam desunidos suas próprias candidaturas em um clima de derrota anunciada.

Só o radicalismo de Fillon dá agora aos progressistas da esquerda um pouco de esperança de criar uma alternativa à esmagadora pressão da direita e da extrema-direita.

Arquivado Em: