As francesas ou são “senhoras” ou “senhoritas”

A tradição insiste em considerar o marido como o chefe de família e impor seu sobrenome à esposa

A ministra do Meio Ambiente, Ségolène Royal.
A ministra do Meio Ambiente, Ségolène Royal.STEPHANE DE SAKUTIN (AFP)
Mais informações
De primeira-dama a primeiro-cavalheiro
20 chacoalhões culturais para que seu filho vire feminista
Um museu de mulheres guerreiras
Ao ritmo atual, igualdade econômica entre os sexos só chegará em 2186

Uma das surpresas negativas na França é a dificuldade enfrentada pelas mulheres para manter sua identidade. No país da igualdade, o tratamento de senhora ou senhorita continua sendo a ordem do dia. E, em todos os tipos de formulários, é exigido o nome de casada. O de solteira, aliás, é chamado jeune fille, ou seja, mocinha, como se manter-se solteira condenasse a mulher à imaturidade.

De nada serviram as leis e regulamentos para mudar as coisas. Na França, já não é obrigatório usar o sobrenome do homem, e o chamado jeune fille foi alterado para “de família”. Mas a tradição pesa; o que o deputado do partido Os Republicanos traduz como “não se pode impor a felicidade”; um argumento surpreendente.

O problema é que essa diferença no tratamento social tem algumas implicações mais profundas. Dessa forma, as grandes empresas (bancos e, principalmente, as operadoras de telefonia) tendem a nomear os homens como cliente principal, ao ponto de exigir sua permissão para muitas operações, mesmo se as contas forem conjuntas e os cartões e celulares estejam no nome de cada um.

A inseminação artificial é proibida para mulheres solteiras, e o Governo socialista não cumpriu a promessa de acabar com tal discriminação. Espanha, Portugal, Bélgica e Reino Unido permitem a prática há muito tempo. “Este é um país que ainda se mantém em um conservadorismo excepcional”, lamenta a senadora ambientalista Esther Benbassa. “A cultura francesa mescla sedução, galhardia, machismo e poder.”

Para tentar entender este fenômeno tão insólito no país da igualdade, esta jornalista solicitou ao Centro Nacional de Pesquisa Científica contatos de pessoas especializadas em discriminação sexual. A lista enviada dois dias depois continha os nomes de sete sociólogas. Três delas eram senhoras e quatro, senhoritas, segundo constava claramente no e-mail enviado. Apenas um oitavo contato era fornecido sem especificar o estado civil da pesquisadora.

Uma espanhola já aposentada que esteve casada brevemente em sua juventude e vive na França há décadas continua ainda hoje enfrentando funcionários públicos cada vez que lhe exigem o nome de casada. A lei está do seu lado. Os costumes, não.

“Mas, escute, você vai exigir que todos estes senhores atrás de mim especifiquem seu estado civil?”. Do guichê, a mulher a observa impassível; e inflexível.

A exceção é Ségolène Royal, ministra de Energia e Meio Ambiente e ex-candidata à presidência da República.

Royal tem mantido sua identidade porque nunca se casou com o presidente François Hollande, embora tenha tido quatro filhos com ele. Nem sequer a que foi ministra da Igualdade de Hollande foi tão longe. Najat Vallaud-Belkacem usa este sobrenome hifenizado (uma modernidade neste país) porque, há onze anos, se casou com o alto oficial Boris Vallaud. Nomeada ministra da Educação em 2014, é, além disso, a primeira mulher na história da França a assumir tal ministério.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS