De primeira-dama a primeiro-cavalheiro

EUA nunca estiveram tão perto de ter uma mulher na presidência e do dilema sobre o que fazer com um “primeiro-cavalheiro”

Bill e Hillary Clinton em Arkansas, nos anos sessenta.
Bill e Hillary Clinton em Arkansas, nos anos sessenta.

O mundo estava contra Bill Clinton em janeiro de 1992. Depois de passar semanas como o favorito entre os pré-candidatos democratas à Casa Branca, sua popularidade estava desmoronando, sua reputação era questionada, e sua liderança nas pesquisas, a poucos dias do início das primárias, era pouco valorizada. Tudo porque uma ex-repórter de TV chamada Gennifer Flowers havia contado a uma revista de fofocas detalhes da aventura extraconjugal que ela manteve durante anos com Clinton. Numa desesperada tentativa de salvar imagem e a campanha, Clinton se submeteu a uma das longas entrevistas do programa de televisão 60 Minutes ao lado da esposa, Hillary. E então algo aconteceu.

Quase no final da transmissão, o jornalista Steve Kroft comentou que achava admirável que o casal Clinton continuasse junto. Hillary cresceu para cima do entrevistador. “Não estou aqui do lado do meu homem como se eu fosse a Tammy Wynette”, reagiu, claramente irritada, em referência à primeira-dama da música country e ao seu hino Stand By Your Man (“fique ao lado do seu homem”). “Estou aqui porque o amo, o respeito e levo em conta o que ele passou. E se as pessoas acham que isso não é suficiente, bom, que diabos, que não votem nele.” A imprensa caiu matando em Hillary.

Uns sentenciaram que Hillary havia alienado o eleitorado feminino. Outros disseram que havia alienado os fãs da música country, o que era ainda pior. No The New York Times, o colunista conservador William Safire descreveu a intervenção como pífia. “Os dois Clintons precisam resolver o problema que Hillary representa”, escreveu. Três dias depois, Bill Clinton saiu das primárias de New Hampshire com um excelente segundo lugar e o caminho livre para a vitória. O mérito coube, então e ainda hoje, a Hillary. Acabava de renascer um futuro presidente dos Estados Unidos. Mas, sobretudo, acabava de nascer uma nova forma de ser primeira-dama.

O primeiro homem no posto de primeira-dama

Margaret Thatcher, a ‘Dama de Ferro’, pinta o banheiro da sua casa, em Lamberhurst, ao lado de Denis Thatcher, seu marido e ideólogo de salão.
Margaret Thatcher, a ‘Dama de Ferro’, pinta o banheiro da sua casa, em Lamberhurst, ao lado de Denis Thatcher, seu marido e ideólogo de salão.

“O posto de consorte político tem isso de ser maleável. Funciona como reflexo do que acontece na sociedade”, diz Anita McBride, chefa de gabinete da primeira-dama Laura Bush nos anos 1990 e hoje diretora de vários cursos da Universidade Americana de Washington sobre o legado das primeiras-damas norte-americanas. Mas, apesar de tanta flexibilidade, a função nunca passou por uma mudança tão substancial como a que pode estar prestes a ocorrer neste ano. Em 2016, a candidata favorita do Partido Democrata na disputa presidencial é Hillary Clinton; Bill virou o marido político que precisa servir como apoio sem se intrometer.

Se ganhar as eleições, os Estados Unidos vão enfrentar uma boa série de incógnitas protocolares. Como chamar oficialmente este primeiro-cavalheiro? A resposta mais concreta é uma brincadeira feita por Bill Clinton, que pediu que se referissem a ele como Adão, o primeiro homem. Onde ele vai trabalhar? Hillary fez história nos anos noventa ao se instalar em um escritório na ala oeste e demonstrar que um esposo político vale para algo mais além de sair nas fotos e cuidar da casa.

Mas, segundo o credo mais heteropatriarcal, um ex-presidente varão é obrigado a ter mais cautela ao aproximar-se do centro de poder. Se não, considera-se que poderia estar eclipsando ou, para as mentes ainda mais pré-históricas, manipulando sua mulher. E, acima de tudo isso, falta resolver o que o próprio Clinton comentou à apresentadora Oprah Winfrey quando foi a seu programa durante a campanha presidencial de Hillary em 2008: “Do que vou ser chamado não me preocupa tanto quanto o que podem me pedir para fazer”.

Angela Merkel vê seu marido, Joachim Sauer, depositar seu voto nas eleições que deram a ela seu terceiro mandato como chanceler da Alemanha.
Angela Merkel vê seu marido, Joachim Sauer, depositar seu voto nas eleições que deram a ela seu terceiro mandato como chanceler da Alemanha.

Nos EUA, o trabalho da primeira-dama é mais marcado pelas expectativas do que pelas obrigações, e o que se espera historicamente dela é que seja, acima de tudo, mãe e esposa. Todas as primeiras damas desde 1992 tiveram de enviar receitas personalizadas à competição anual de preparo de biscoitos da revista Family Circle. Inclusive Michelle Obama, que não cozinha e antes de se mudar para a Casa Branca era o principal esteio econômico de sua família.

A tímida chegada das mulheres ao poder norte-americano está colocando em evidência quão caduca, se não inútil, é essa perspectiva tão sexista. Atualmente existem, na esfera imediatamente inferior, seis governadoras. Todas casadas e em famílias espalhadas por todo o país. Três são republicanas, e três, democratas.

O argentino Juan Domingo Perón, marido político incorrigível. Sua primeira mulher, Evita, quase foi nomeada vice-presidenta. A segunda, Isabel Perón (na foto), governou o país após sua morte.
O argentino Juan Domingo Perón, marido político incorrigível. Sua primeira mulher, Evita, quase foi nomeada vice-presidenta. A segunda, Isabel Perón (na foto), governou o país após sua morte.

De seus maridos, só a metade (os de New Hampshire, Oklahoma e Carolina do Sul) dedica tempo à tarefa mais típica de uma primeira-dama: atender a mansão oficial. Chuck Franco, primeiro-cavalheiro do Novo México, está aposentado e se dedica a cuidar da residência pessoal do casal, mas não a oficial. Quem se entregou ao papel de dono de casa de forma mais pública é Wade Christensen, em Oklahoma: publicou um livro de receitas, Getting grilled (Fazendo churrasco), não como advogado que é, mas como primeiro-cavalheiro. Em vez de receitas de biscoitos, na capa ele aparece com uma bandeja cheia de carne.

Entre esses dois extremos está Andy Moffit, marido da governadora de Rhode Island e funcionário de uma das maiores consultorias do país. Ao falar com The Washington Post, resumiu assim a situação: “O melhor que ninguém tenha pensado nisso é que não há expectativas concretas. É bem libertador”. Ele continua trabalhando em período integral.

O resto do mundo já resolveu este debate

O empresário Denis Thatcher também trabalhou todos os 11 anos em que sua mulher, Margaret, foi primeira-ministra do Reino Unido. E mais, na biografia autorizada de Thatcher, o milionário aparece em ocasiões contadas, geralmente apenas para interromper reuniões noturnas e mandar a primeira-ministra dormir gritando: “Bed, woman!” (Cama, mulher!). Mas também estabeleceu um legado na intimidade, lendo para Margaret as planilhas de balanço nas quais ela engasgava e aconselhando-a em questões de economia.

Susana Martinez, governadora do Novo México (EUA), é a única do casal que trabalha; seu marido, Chuck, está aposentado há anos.
Susana Martinez, governadora do Novo México (EUA), é a única do casal que trabalha; seu marido, Chuck, está aposentado há anos.

Na Austrália, Julia Gillard, primeira-ministra entre 2010 e 2013, tinha uma estratégia de relações públicas nos corredores do parlamento: seu namorado, Tim Mathieson, um cabeleireiro risonho que era amigo e cortava o cabelo de políticos de todas as facções. Quando alguém precisava de um retoque antes de uma intervenção pública, Mathieson aparecia.

Liberados das pressões que tradicionalmente se voltam sobre as mulheres, os primeiros-cavalheiros do resto do mundo tiveram a oportunidade de reinventar o papel do esposo político. Alguns passaram de complemento a cúmplice no privado, como Thatcher. Outros, de acessório a figura acessível em público, como Mathieson.

Bill Clinton seria o primeiro a reunir essas duas características: o profissional com experiência para assessorar sua esposa e, ao mesmo tempo, o primeiro modelo público de homem que convive com uma mulher mais poderosa que ele. A própria Hillary parece estar defendendo esses dois lados.

No mês passado, em um comício em Kentucky, afirmou: “Já disse ao meu marido que ele tem de acordar e consertar a economia!”, vendendo quão útil poderia ser ter Bill como primeiro-cavalheiro. E em dezembro, em um debate, predisse que ela continuaria “escolhendo as flores e a louça para cada jantar de Estado” e que Bill iria “a missões especiais”. Assim, ela se encarregava de certas funções de primeira-dama para evitar que os meios de comunicação mais reacionários dissessem que Bill é dominado. Mas também lembrava que ela é quem manda.

Os benefícios de um consorte de tais dimensões midiáticas são incalculáveis. Em 2011, Dan Mulhern, marido da então governadora de Michigan, publicou na revista Newsweek uma carta aberta na qual explicava a seu filho quão inseguro se sentiu quando sua mulher conseguiu o posto e ele se tornou “líder da casa”.

Lamentava não ter um precedente em quem se inspirar para saber se tinha decidido o melhor. “Senti-me vulnerável, pensando no que significava ser homem”, dizia. “E não foi o fim de minha masculinidade. Foi um começo mágico.”

Em março, Michigan ficou contra Hillary Clinton: o Estado preferiu seu rival, Bernie Sanders. Bill Clinton não citou nenhum cantor country, mas prestou ajuda a Hillary com suas mensagens sobre economia. Na semana seguinte, ela venceu em Ohio. Talvez tenha acabado de nascer uma nova forma de ser esposo político.

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