Flip | Festa Literária Internacional de Paraty

Joselia Aguiar assume curadoria da Flip

A jornalista e historiadora assume a programação do maior evento literário do país

Da esquerda para direita: Liz Calder, criadora da Flip, conversa com autores na mesa de encerramento de 2016. Entre eles, as escritoras Helen Macdonald, Kate Tempest e Laura Liuzzi.
Da esquerda para direita: Liz Calder, criadora da Flip, conversa com autores na mesa de encerramento de 2016. Entre eles, as escritoras Helen Macdonald, Kate Tempest e Laura Liuzzi.Walter Craveiro

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“Sem dúvida, é muito importante que as mulheres assumam postos e posições. Fico feliz de ser essa pessoa neste momento na Flip”, disse Joselia ao EL PAÍS. Segundo a jornalista, baiana de Salvador e radicada em São Paulo há vários anos, a diversidade será uma de suas missões na composição da festa, mas não só em relação às mulheres. “Para mim, é importante não reproduzir nenhum dos padrões normativos – de gênero, de cor, sociais, regionais... Como curadora, me preocupo em garantir um equilíbrio numérico e penso em maneiras de escapar desses modelos”, declara Joselia, que em breve lançará uma biografia do escritor Jorge Amado pela editora Três Estrelas.

A nova curadora da Flip, Josélia Aguiar.
A nova curadora da Flip, Josélia Aguiar.Silvia Constanti

Não é a primeira vez que a Flip tem uma mulher responsável por definir homenagens, autores convidados para os debates principais e os temas de atividades paralelas. Em 2005, o evento viveu uma dobradinha interessante: teve a curadoria da editora Ruth Lanna e prestou homenagem a Clarice Lispector (1920-1977) – uma das maiores escritoras brasileiras, cuja obra vive desde então um processo contínuo de resgate e é editada hoje em grande parte do mundo. “Vejo mais como um convite, que diz ‘vamos investigar isso?’ É interessante que se abra esse espaço, porque resulta em um olhar específico e em uma série de oportunidades”, opina Ruth.

No entanto, ela chama a atenção para outras circunstâncias que entram na equação que cabe ao curador resolver quando assume um evento de grande porte. E se desconecta da ideia de “cotas a ser cumpridas”. “A Joselia é uma pessoa superpreparada para essa tarefa. Não porque é mulher, mas porque ela é ela. As pessoas entendem a programação, muitas vezes, como um juízo de autoridade, como se o que ficasse de fora não fosse bom. E não é assim”, diz.

Mauro Munhoz, diretor da Casa Azul, a associação responsável pela Flip, ressalta “que a questão de gênero está posta hoje de maneira importante e intensa”. Porém nega que a escolha de uma curadora para a 15ª edição da festa atenda unicamente à demanda por igualdade de gêneros que ecoa nas ruas. “A diversidade é uma questão muito relevante e estamos sempre atentos a ela. Mas a escolha da Joselia está fundamentada, claro, na competência dela, que conhece literatura, história e cujo trabalho tem profunda relação com o DNA da Flip”, defende o arquiteto, que garante novidades para o ano que vem. “Todo ano é diferente dos anteriores, sem que se perca a unidade”.

No ano passado, 44% dos autores convidados eram mulheres – a maior presença feminina na história do evento, que de uns anos para cá começou a abrir mais campo para as vozes femininas. Foram bastante celebradas as mesas de escritoras como a bielorrussa Svetlana Aleksiévitch e a britânica Kate Tempest, além das mesas sobre a obra da poeta carioca Ana Cristina César, grande homenageada da ocasião.