Christopher Phillips | International Center of Photography de NY

“As crianças vão entender e trabalhar imagens de uma maneira diferente”

Em São Paulo, o curador do fala sobre fotografia na era digital e elogia o modernismo brasileiro

Christopher Phillips na SP Foto 2016.
Christopher Phillips na SP Foto 2016.

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Ele esteve no Brasil para acompanhar as novidades da SP Foto (encerrada no mês passado), que reuniu especialistas e um público de 16.000 pessoas em São Paulo, e falou ao EL PAÍS sobre as mudanças radicais impostas pela tecnologia à criação de imagens na arte, que “fazem o mundo parecer ficção científica”. Phillips é professor de fotografia crítica na New York University e foi editor da revista Art in America por dez anos, mas confessa que hoje se apoia mais em seus estudantes de 20 anos e na neta de cinco para abordar os mistérios da fotografia contemporânea.

Pergunta. O que você enxerga no horizonte da fotografia contemporânea? É possível defini-la?

Resposta. Nos últimos 25 anos, tem havido discussões muito intensas sobre esse novo mundo de imagens digitais, em crescimento há várias décadas. Muitos sentem que passamos a um mundo imagético completamente diferente, em especial nos últimos cinco ou seis anos, graças a uma aceleração extraordinária da tecnologia. Devemos isso à chegada dos smartphones e das mídias sociais... Tudo se desenvolveu tão rapidamente, e é tão dependente de imagens digitais, que parece ficção científica. Só podemos pensar a fotografia contemporânea com esse panorama em mente, ainda assim é difícil defini-la.

P. Vivemos hoje rodeados de imagens, mas ainda somos analfabetos visuais,  incapazes de interpretá-las. Como corrigir esse paradoxo?

R. Gostaria de ter uma resposta fácil a essa pergunta. Somos conscientes que há bilhões de novas imagens disponibilizadas toda semana nas redes sociais. Porém, não há método simples para que as pessoas acessem esse conteúdo, escondido atrás de bloqueios de segurança etc. Em algum momento, deverá surgir uma grande pressão para um compartilhamento mais amplo dessas imagens. Grandes companhias como Apple e Microsoft deverão pensar o que fazer a esse respeito. Que imagens são essas, que finalidade têm, quem as está usando? É um tema cada vez mais relevante.

P. A escola pode contribuir nesse sentido, ensinando as pessoas a ler imagens assim como leem textos?

R. De novo, não tenho uma boa resposta. Se tivesse, estaria ocupado construindo essa escola. O que observo é que as crianças que estão crescendo agora – e que conheço, porque tenho uma neta de cinco anos – vão entender imagens e trabalhar com elas de uma maneira bem diferente dos mais velhos, como eu. Minha neta tem feito fotos, alterando-as digitalmente no celular, desde os dois anos de idade. Antes de aprender a falar, ela já sabia tirar fotos, escolher as boas e dispensar as ruins. Vê como algo comum e automático de se fazer. As novas gerações de criadores de imagens serão completamente diferentes que qualquer outra geração a lidar com a fotografia.

P. Como quem realmente se interessa por fotografia pode criar imagens duradouras, que não desaparecem no oceano da Internet?

R. Essa, sim, é uma questão que nunca mudou, desde os inícios da fotografia. Para fazer imagens que duram, é preciso estudar aquelas imagens poderosas que você vê uma vez e não consegue esquecer. Tem que trabalhar duro, pensar muito... É como qualquer outra forma de arte. Há gente extremamente talentosa, que para não se esforça tanto para criar fotos memoráveis. Mas esse é um grupo muito, muito pequeno de pessoas.

P. O que a fotografia artística tem de especial, se aprendermos a enxergar?

"Admito que não tenho mais tanta certeza: não é fácil dizer que tipo de arte é a fotografia hoje".

R. Dez anos atrás eu teria dado uma resposta precisa a essa pergunta, citando a obra de fotógrafos importantes como Cartier Bresson e outros para exemplificar... Hoje, admito que não tenho mais tanta certeza: não é fácil dizer que tipo de arte é a fotografia hoje. Dou aulas todos os anos na escola de arte da New York University a fotógrafos jovens e inteligentes. Nos últimos cinco anos, houve mudanças tão radicais nas ideias deles em relação à fotografia, qual é sua relação com outras formas de construir imagens e de fazer arte... que isso fez sentir que eu deveria voltar à escola também. Algo que meus estudantes de 20 e poucos anos de idade têm dito nos últimos dez anos é: “Não há mais necessidade de se fazer fotos impressas. Você pode exibi-las numa tela ou enviá-las às mídias sociais”. É um olhar radicalmente diferente. Nesse sentido, vivemos um momento muito excitante, mas é também um momento de não saber onde se está parado – e é assim que me sinto.

P. Você, além de curador, é fotógrafo?

R. Sou fotógrafo assim como minha neta de cinco anos é.

P. Hoje são as selfies, antes eram os autorretratos. Há diferença entre as duas coisas?

R. As selfies são um fenômeno novo. Uso meus estudantes na NYU novamente como exemplo: eles cresceram fazendo selfies e isso faz parte de seu ritual cotidiano. Fazer essas fotografias e postá-las em redes os ajuda a entender quem são – e também muda quem eles são, todos os dias ou todas as semanas, se eles quiserem. Os jovens com quem converso têm uma atitude muito mais relaxada em relação à sua identidade social e individual do que pessoas de gerações mais velhas. Mudam o tempo todo o cabelo, a cor da sobrancelha e o jeito de se vestir... para criar um tipo diferente de personalidade, que eles querem ter naquele momento. Nunca tinha visto isso antes e estou certo que é algo totalmente diferente de tudo o que já vivemos culturalmente.

P. A SP Foto celebrou 10 anos nesta edição. Qual a importância, na sua opinião, de um evento como esse para a fotografia no Brasil?

R. A meu ver, é um evento muito importante. Primeiro, porque, pessoas que trabalham com fotografia no Brasil, é uma maneira de se encontrar, conversar e conhecer curadores e colecionadores do país. Também oferece a visitantes estrangeiros como eu uma chance de passar uma semana tendo discussões intensas com fotógrafos e demais profissionais da área, que conhecem a história e as tradições da fotografia no Brasil. Assim se forja uma rede internacional de pessoas realmente obcecadas com fotografia, que pensam nisso sobre isso todos os dias. Para mim, só pode ser uma coisa boa.

P. Como a fotografia brasileira é vista no exterior?

R. Muitos especialistas em foto, acredito eu, são muito conscientes de que o Brasil tem provavelmente a mais rica tradição fotográfica da América Sul, indo de volta ao século XX. Curadores, como eu, conhecem bem o movimento modernista brasileiro dos anos 1960. Hoje sabemos que esse foi um momento histórico importante, não só para o Brasil, mas para toda a história mundial da criação de imagens. A fotografia brasileira contemporânea é provavelmente um pouco menos conhecida fora do país, por isso é tão importante que exista um evento como esse.

P. Você organizou uma exposição do fotógrafo paulistano Caio Reisewitz no ICP em 2014. Como se deu seu encontro com ele?

R. De uma maneira muito comum. Existe uma feira de arte anual em Nova York chamada de Armory Show, em que galerias do mundo inteiro apresentam suas melhores obras. Frequento o evento desde que começou, 25 anos atrás. La conheci, há uns 12 anos, a galeria Luciana Britto, uma das melhores do Brasil, onde fui apresentado ao trabalho de Caio Reisewitz. Mais tarde, eu conheci o Caio, que viaja com regularidade a NY, e segui o desenvolvimento da obra dele por uns cinco ou seis anos. Depois planejamos a exposição, e vale dizer que foi um enorme sucesso.

P. Qual é a importância de continuar imprimindo fotos e exibindo-as em museus como o ICP?

R. Sempre existirão fotógrafos que amam a trabalho na sala escura, que realmente querem dominar o processo tradicional da foto – ainda que eles se tornem a minoria. A fotografia se tornará mesmo uma forma de arte, muito especializada. Algumas pessoas mais jovens, na faixa dos 20 anos, de fato se queixam de ver as imagens somente na tela – que é algo um pouco frio e distante para eles. Essa é uma das razões pelas que os fotolivros têm crescido nos últimos 10 anos. É algo que você pode segurar, folhear, para frente e para trás, e na sua própria velocidade... pode fazer dez cópias e distribui-las aos seus amigos mais próximos. Torna-se algo muito mais íntimo e pessoal. O tato é um sentido que, pelo jeito, os jovens ainda julgam importante.

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