Ouro para a América Latina

Nunca foram conquistadas tantas medalhas de ouro na região como nos Jogos do Rio

o argentino Juan Martin del Potro, ganhou a medalha de prata no tênis após 14 meses afastado das quadras por lesão.
o argentino Juan Martin del Potro, ganhou a medalha de prata no tênis após 14 meses afastado das quadras por lesão.Charles Krupa (AP)

Se o sucesso no quadro de medalhas olímpico for medido em ouros, a América Latina merece aplausos. Nunca nesse século os países americanos de língua espanhola e portuguesa – e quaisquer dos dialetos como o náhuatl, o maia, o miskito, o tukano, o quéchua, o aimará, o mapuche, etc. – haviam conseguido, em conjunto, tantas medalhas de ouro como no Brasil. E a conta teria sido maior se Cuba tivesse repetido feitos passados, se o México tivesse cumprido metade dos objetivos planejados, como o Brasil.

Quadro de medalhas dos países da América Latina (apenas os que ganharam pelo menos uma medalha).
Quadro de medalhas dos países da América Latina (apenas os que ganharam pelo menos uma medalha).

A América Latina ganhou 19 medalhas de ouro. O Brasil, país anfitrião, ficou no décimo-terceiro lugar no quadro de medalhas com sete de ouro. Depois veio Cuba, com cinco, a Colômbia, com três, a Argentina, também com três e Porto Rico, com uma. No total, contando pratas e bronzes, são 51 medalhas, menos do que em Londres (56), Pequim (56) e Atenas (55), mas não muito longe.

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Chama a atenção a decadência da delegação cubana, que com apenas onze medalhas fica a três das conquistadas em Londres e muito longe das 24 de Pequim e das 27 de Atenas. Ainda assim, é um feito extraordinário para um país de doze milhões de habitantes.

A Colômbia se ergue como a nova potência de língua espanhola do continente. Com oito medalhas, repete a marca de Londres, mas aumenta os ouros de um para três. A Argentina também avança. Repete as quatro medalhas de Londres, mas passa de um para três ouros.

Apesar das dúvidas iniciais e a enxurrada de críticas às autoridades esportivas, o México volta para casa com cinco medalhas, três de prata e duas de bronze. Em Londres foram sete, com a surpresa do ouro no futebol masculino.

O Brasil conseguiu 19 medalhas, longe das 30 colocadas como objetivo pelas autoridades do gigante sul-americano. Um sucesso em todo o caso, após as 17 de Londres.

Como curiosidade, doze dos 19 medalhistas brasileiros são integrantes das Forças Armadas. Três são de ouro. No México quatro dos cinco medalhistas pertencem ao Exército e à Marinha.

ARGENTINA

Os Jogos Olímpicos não começaram bem para a Argentina. A seleção de futebol, que sempre deu grandes alegrias olímpicas ao país, chegou em plena crise: o treinador se demitiu, nenhum jogador importante quis ir aos Jogos. E efetivamente o futebol olímpico argentino foi muito mal. Mas a Argentina tirou esse gosto ruim da boca com uma Olimpíada acima da expectativa.

A Argentina conquistou três medalhas de ouro que significam um grande sucesso. Em Londres conseguiram somente uma e em Pequim, duas. É preciso voltar a 1948 para encontrar uma Argentina com três ouros. A judoca Paula Pareto, o hóquei sobre grama masculino e o casal de velejadores Santiago Lange e Cecilia Carranza deram alegria a um país que não costuma arrasar nos Jogos. Lange emocionou a todos com sua vitória aos 54 anos após superar um câncer de pulmão no ano passado.

Mas a medalha que mais comoveu os argentinos nos Jogos não foi de ouro. É a prata conquistada por Juan Martín Del Potro no tênis. Os argentinos, acostumados a ter bons tenistas, são fascinados pelas histórias de superação. Por isso Del Potro, que esteve a ponto de deixar o tênis por uma grave lesão, foi o grande herói com sua vitória emocionante sobre o espanhol Rafael Nadal, que o levou à final onde, esgotado pelo esforço, não conseguiu bater Andy Murray, mas esteve muito perto.

Del Potro monopolizou todas as capas dos jornais e as televisões brigam para tê-lo em seus programas. Os argentinos estão totalmente cativados por seu tom humilde e sua batalha contra os limites de seu próprio corpo. Esse Jogos foram também a despedida da Geração Dourada, o melhor grupo de jogadores de basquete da história argentina. Os EUA cortaram a caminhada rumo às medalhas do grupo de Manu Ginobili, que apesar disso se despediu como a única geração, junto com a espanhola, que lutou de igual para igual com os EUA e chegou a vencê-los várias vezes nos últimos 10 anos.

Dessa forma a Argentina sai dos Jogos com um gosto bom na boca, mas com a necessidade de buscar novas referências em seus dois grandes esportes olímpicos: futebol e basquete. Por Carlos E. Cúe.

COLÔMBIA

A Colômbia comemora. As duas medalhas de ouro que tinha em sua história até então foram superadas nos Jogos do Rio. Os atletas colombianos obtiveram oito medalhas no total e três são de ouro. Óscar Figueroa foi o primeiro a conquistar uma medalha dourada na Olimpíada, após vencer o levantamento de pesos (menos de 62kg). O jovem, que durante sua adolescência viveu o conflito da Colômbia, ao precisar sair de onde vivia pela violência, abriu o caminho no Rio que hoje é festejado pelo país. Caterine Ibargüen no salto triplo e Mariana Pajón no BMX também conquistaram a medalha de ouro. Pajón se transformou na única atleta colombiana que possui duas medalhas douradas.

O boxeador Yuberjén Martínez deu pela primeira vez à Colômbia uma medalha de prata nesse esporte. Até então, o boxe de seu país havia conquistado três de bronze. Yuri Alvear, ganhadora do bronze em Londres 2012, voltou a ter um desempenho destacado. No Rio conseguiu levar uma medalha de prata no judô, categoria até 70kg. Luis Javier Mosquera no levantamento de peso, Carlos Ramírez no BMX e a boxeadora Íngrit Valencia conquistaram a medalha de bronze. Valencia também passará à história por ser a primeira boxeadora colombiana que se classifica aos Jogos Olímpicos. Por Sally Palomino.

MÉXICO

Sabor agridoce, uma textura de última hora no México, resignado e dedicado a criticar os responsáveis pelo esporte no país quase desde o primeiro dia dos Jogos. As três medalhas ganhas no sábado, no penúltimo dia de competição, minimizam um pouco as reclamações gerais.

O México conseguiu medalhas em cinco modalidades diferentes, duas clássicas, o tae-kwon-do e os saltos ornamentais, uma lógica, no boxe, uma inesperada, no pentatlo, e a última, talvez uma das mais merecidas, a prata de Lupita González na marcha atlética de 20 quilômetros, uma luta infernal com as atletas chinesas.

A grande decepção, o futebol. O México ainda chora a tragédia da Copa América desse ano, quando perdeu de 7x0 para o Chile. A vitória momentânea de Fiji na fase de grupo dos Jogos, partida que o México acabou vencendo por 5x1, retratou o nervosismo da seleção, o nervosismo de um país que tem medo de não cumprir com seus objetivos.

Deixando de lado o ouro no futebol em Londres, o desempenho da delegação mexicana foi bem parecido, ganhando apenas um bronze a mais do que no Rio. Mas as sensações agora e à época parecem bem diferentes. Os Jogos Olímpicos do Rio criaram um vilão no México, o encarregado nacional do esporte, Alfredo Castillo. Por Pablo Ferri.

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