Ronaldo Caiado: “Governo do PT estava lambuzado em bandalheira”

Senador do DEM diz que discurso de que Dilma é vítima de golpe não se sustenta

O senador Ronaldo Caiado.
O senador Ronaldo Caiado. Ag. Senado

Um dos principais opositores de Dilma Rousseff (PT) no Congresso Nacional, o senador conservador Ronaldo Caiado (DEM-GO) diz que já esperava que o partido de Luiz Inácio Lula da Silva sofresse, em algum momento, um impeachment. Ele avalia que a população não deseja o retorno da petista ao comando do país.

Pergunta. Na sua avaliação, há alguma chance de Dilma Rousseff (PT) não sofrer impeachment?

Resposta. Nada sinaliza que o impeachment não passe. O Brasil está passando por essa crise que tem nome, sobrenome e CPF. Nunca vi ninguém no país querer voltar a uma situação que o Brasil estava vivendo com o PT.

P. Imaginava que passaríamos por um segundo impeachment menos de 30 anos após a redemocratização?

R. Num debate que tive com o ex-presidente [Luiz Inácio] Lula, em 1989, eu disse: Se um dia vocês chegarem ao poder, o país passará pelo maior desastre político-administrativo de sua história. Já fiz essa previsão. Nunca tive dúvida de que eles caminhariam para esse lado. De que poderia resultar em um impeachment. A formação deles, do PT, é a de corrupção do sindicato do ABC Paulista. É um grupo que entende muito de fazer pressão, chantagem. Sabe fazer a prática de um banditismo dentro de uma formalidade sindical. Quando chegaram ao poder, não fizeram diferente. Essa ação foi continuada pela Dilma. Não estou dizendo que ela cometeu esse tipo de crime. Ela diz que é honesta. Mas ela foi conivente com essa prática que foi implantada com a chegada do PT ao Governo. Não estou dizendo que o PT inventou a corrupção, mas com ele a corrupção tomou proporções inimagináveis. Quebrou a Petrobras e assaltou aposentados. Nesse quadro, temos 12 milhões de brasileiros desempregados.

P. Você está dizendo que os erros de Dilma começaram com Lula, que governou por oito anos. Se o erro inicial e principal era dele, e não dela, porque ele não caiu e ela está quase caindo?

R. Não se pode fazer esse paralelo entre um período de oito anos e outro de 13 anos. Você há de convir que existe um processo de apodrecimento do quadro. Você vê em todos os países da América Latina uma forte influência do populismo nos últimos anos. Vimos isso na Argentina, Bolívia, Venezuela e Brasil. O populista, durante um período inicial, desenha uma outra concepção. Ele ilude as pessoas. Ele anestesia a capacidade de raciocínio e das pessoas. Bloqueia a capacidade de reação do cidadão. Ele se coloca como salvador da pátria, distribuidor de benesses para tentar lançar uma cortina de fumaça para inibir qualquer reação da oposição. Com o Lula houve um quadro de endeusamento. Foi o presidente mais popular do Brasil, mas se você criar um parâmetro, notará que o Lula hoje tem uma avaliação péssima junto à sociedade brasileira (segundo a pesquisa Datafolha, Lula lidera as pesquisas de opinião para as eleições de 2018, mas ra. A decepção com ele é maior do que com a Dilma, porque ele tinha eleitor, ela não. Era uma candidata de bolso de colete. Ele não foi imune aos oito anos. As coisas eram escondidas a tal ponto que a sociedade não acreditava quando falávamos. Diziam que éramos oposição, que o Lula era bom.

P. Caso se confirme o impeachment, o que podemos esperar do Governo Temer?

R. O Michel Temer vai ter de entender o momento da história em que ele está presidindo o país. Tem de se esperar dele não são boas notícias. Ninguém numa hora dessas tem de dar saquinhos de bondades para quem quer que seja, pelo contrário. Tem de ter compromisso com a história, com o país. Não pode ter compromisso com reeleição. Se ele não for fazer mudanças substantivas, vai simplesmente repetir a prática anterior. Não tem remédio que não seja amargo.

P. Pode-se esperar aumento de impostos, reformas duras, privatizações?

R. O Governo perde toda a credencial se falar em aumento de impostos quando ele reajusta o salário de funcionários públicos que têm estabilidade e cria novos ministérios. Ou ele revoga essas decisões ou se perde. Quando ele resolve atender partidos criando novos ministérios, desaba totalmente o discurso. Ainda temos de esperar para ver como será o novo Michel Temer após o dia 31 de agosto.

P. Como você e seu partido vão lidar com esse Governo, continuarão em sua base após o impeachment?

R. Nosso apoio será com total independência crítica. Não será incondicional.

P. Os petistas e seus aliados dizem que Dilma está sofrendo um golpe. Como você vê essa avaliação deles?

R. Isso é uma coisa tão primária. O PT e o PCdoB se eternizaram com chavões. Como você vai ter um golpe com uma presidente que vai se defender no plenário do Senado Federal, em uma sessão presidida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal? É algo inédito. Deve ser uma nova interpretação do dicionário Aurélio para a palavra golpe. É um argumento ridículo diante de uma série de crimes de responsabilidade.

P. Como a carta de Dilma Rousseff pode influenciar no julgamento da presidenta?

R. Acho que foi um tiro no pé. Podemos ganhar mais dois votos e chegar a 61. A carta dela não diz nada. Seria o mesmo que eu, como cirurgião, praticasse todas as más práticas cirúrgicas e botasse a culpa na enfermeira, no anestesista ou em qualquer outra pessoa. Num presidencialismo, o chefe de Estado não pode se livrar dessa responsabilidade. São argumentos que agridem o bom senso e a capacidade de compreensão das pessoas. Quer dizer que ela não sabia de nada do que estava ocorrendo? Ela fez uma campanha em 2014 dizendo que estava tudo bem, tudo estava tranquilo. Aí, há nove meses, ela percebe que não estava nada correto, que a situação não estava tão boa. As pessoas do Governo do PT estão lambuzadas em tudo que é tipo de bandalheira, todo tipo de escândalo e vem dizer que não tem nada irregular. Ainda vão para rua para protestar. Qualquer pessoa nessa situação estaria dentro de casa, refugiada, sem coragem nem de olhar para os filhos. Parece que fazem parte de outro universo.