Dirigente da UE questiona eurodeputados pró-Brexit: “Por que estão aqui?”

Legislativo do bloco vota nesta terça-feira uma resolução que pressiona o Reino Unido a lhe notificar “imediatamente” sobre o resultado do referendo

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, dirigiu-se nesta terça-feira à bancada partidária do UKIP, na qual estava presente o eurodeputado Nigel Farage, no começo da sessão plenária extraordinária convocada em Bruxelas para discutir o Brexit, aprovado por um plebiscito na última quinta-feira. “Estou surpreso de vê-los aqui. Os senhores apoiaram a saída, por que estão aqui?", cutucou o luxemburguês, chefe do Poder Executivo da União Europeia, aos promotores da campanha pela desfiliação britânica do bloco continental. Minutos depois chegou a vez de Farage, que foi vaiado pelo plenário e, referindo-se a supostas sanções europeias ao Reino Unido, evocou o fantasma da restrição ao livre comércio. “Podemos reinstalar alíquotas automotivas, mas centenas de milhares de trabalhadores alemães perderiam seus empregos. Sejamos realistas e adultos e negociemos um acordo sensato de isenção tarifária. O Reino Unido será amigo de vocês, mas nos deixem sair.”

Antes, Juncker pediu providências rápidas na aplicação do resultado do referendo da semana passada, faltando ainda que o Reino Unido o notifique oficialmente às autoridades europeias: “Quero que seja respeitada a decisão do povo britânico, que haja ações em vez de brincar de gato e rato. Disseram claramente que querem ir embora”. Juncker advertiu que as negociações sobre a saída só começarão depois que o Reino Unido tomar a iniciativa. “Se não houver o recurso ao artigo 50 [do Tratado de Lisboa], as negociações não começarão.”

O político luxemburguês reconheceu a gravidade da situação e reiterou que é preciso elucidar as incógnitas que cercam as relações UE-Reino Unido após a consulta, cujo resultado continua, qual um terremoto, derrubando as Bolsas do mundo todo: “Sou uma pessoa tranquila, mas não gosto da incerteza, eu gostaria que os nossos amigos britânicos se decidissem”, afirmou Juncker. Ele também reagiu aos ataques dos partidários do Brexit que acusam a Comissão de não ter legitimidade. "Não sou um tecnocrata. Não sou um burocrata. A Comissão foi eleita por este Parlamento.”

Numa sessão particularmente intensa, Juncker negou os rumores de que estaria doente e se mostrou combativo e disposto a encarar o euroceticismo que paira sobre o futuro do projeto comunitário, de Marine Le Pen na França a Geert Wilders na Holanda. “Não estou nem cansado nem doente. Continuarei lutando até a morte por uma Europa unida.” Le Pen, líder da ultradireita francesa, também se pronunciou durante a manhã. “O voto dos britânicos é o fato político mais importante desde a queda do Muro [de Berlim], um sinal de liberdade enviado ao mundo inteiro. O grito de amor de um povo por seu país”, afirmou a pré-candidata a presidente da França. As vozes da Escócia e Irlanda do Norte, regiões que se manifestaram no referendo a favor da permanência na UE, também foram ouvidas no plenário. “A última coisa de que o povo da Irlanda do Norte precisa é de mais uma fronteira”, criticou a eurodeputada Martina Anderson, do partido nacionalista irlandês Sinn Fein.

Ao final da sessão, o Parlamento Europeu aprovou, com 395 votos a favor, 200 contra e 71 abstenções, uma resolução de urgência para dar início ao desligamento do Reino Unido. A medida teve apoio dos principais grupos parlamentares – conservadores, socialistas, liberais e verdes, enquanto os partidos eurocéticos e o grupo Esquerda Unitária Europeia se mostraram relutantes em apoiá-la. A bancada de esquerda alegou que, diante da crescente insatisfação com o projeto comunitário, é necessária “outra Europa”.

Em seu primeiro artigo, a resolução pede que seja iniciado o processo de desligamento do Reino Unido. “Deve-se respeitar plena e devidamente a vontade expressa pela população, começando pela ativação imediata do artigo 50 do Tratado da União Europeia”, diz o texto. Além disso, insiste na necessidade de aplicar com rapidez o procedimento de retirada, apesar de o Reino Unido ter manifestado a intenção de esperar pelo menos mais três meses. Os Estados membros estão divididos quanto à velocidade do processo: Paris quer acelerar a saída ao máximo, enquanto Berlim opta pela calma. “A bola está no campo britânico”, afirmou nesta terça-feira Jeanine Hennis-Plasschaert, ministra da Defesa da Holanda, país que ocupa a presidência rotatória da UE neste semestre.

O texto propõe aprofundar a chamada Europa de duas velocidades, reforçando seu núcleo, e menciona a necessidade de reformar a União para torná-la “melhor e mais democrática”, com capacidade para enfrentar desafios como o baixo crescimento econômico, o desemprego e a imigração. O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, reconheceu no começo da sessão o trabalho do britânico Jonathan Hill, comissário (ministro) europeu para a Estabilidade Financeira, que havia feito campanha contra o Brexit e pediu demissão após o referendo. Hill, que foi substituído por Valdis Dombrovskis, vice-presidente da Comissão, foi ovacionado pelos eurodeputados.

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