Alice Braga: “As mulheres precisam de mais papéis de protagonista em Hollywood”

Atriz brasileira encarna a personagem principal de ‘Queen of the South’, adaptação para o inglês da telenovela ‘La Reina del Sur’

A atriz brasileira Alice Braga, protagonista de 'Queen of The South'. USA NETWORK / TURNER

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A atriz leu A Rainha do Sul (Companhia das Letras) há oito anos e se “apaixonou completamente”. Não oculta sua fascinação por Teresa Mendoza. “Ela não é uma vítima do que acontece na sua vida. Foi uma pessoa solitária, mas nunca se vitimizou por isso, não optou por cruzar os braços e seguir o caminho mais fácil. Seu processo de conversão é muito interessante. Eu me apaixonei pela forma como o livro contou essa história”, acrescenta.

A nova série, que estreia na terça-feira nos EUA pela rede USA Network e em 6 de julho na América Latina pelo Space, não leva a protagonista à Espanha, como na história original, e sim ao Texas, onde se desenrola boa parte da trama. Braga diz que Queen of the South é uma adaptação que dará mais ênfase ao caminho que a personagem precisa percorrer e ao seu enfrentamento com o mundo das drogas. Cita como exemplo o caso de Narcos, que tem como eixos a história de Pablo Escobar e o panorama geral do tráfico de cocaína no mundo naquela época. No caso da série que ela protagoniza, conta, o tema do narcotráfico estará presente como uma subtrama, mas será, sobretudo, uma produção focada no “entretenimento com 100% de ação”.

Braga, conhecida no exterior principalmente por sua participação em Cidade de Deus, sabia desde o início que sua representação da personagem deveria ser uma homenagem à protagonista do romance A Rainha do Sul. Revela que o desafio na hora de abordar a personagem foi se manter fiel à sua essência literária, já que os criadores optaram por apenas se inspirar nos protagonistas, mas criando novas situações. “Foi um desafio para mim poder realizar isso, representar uma personagem, com suas facetas, personalidade e forma de ver o mundo segundo o livro, e introduzi-la num cenário completamente diferente.”

Trailer de 'Queen of The South'. USA NETWORK / TURNER

Braga reforça a ideia do empoderamento feminino que a série procura mostrar. Diz que a indústria audiovisual tem uma ideia equivocada quanto às personagens que mostram força, já que geralmente não os associa ao gênero feminino. “É necessário ter personagens femininas que sejam importantes e fortes, por isso acho que tenho muita sorte de poder interpretar uma mulher assim”, diz Braga.

Carreira e vida pessoal

Alice Braga trilhou um longo caminho diante das câmeras antes de encarnar Teresa Mendoza. Começou aos 16 anos, fazendo comerciais, e não parou mais de trabalhar. Faz uma retrospectiva de sua carreira e admite que é tímida quando fala dela mesma, o que a faz rir. “Posso dizer que me sinto muito afortunada por todas as oportunidades que me surgiram. Nunca me esqueço do fato de os meus agentes viram o meu trabalho em Cidade de Deus e decidiram me abrir as portas. Eu me sinto de certa forma abençoada.”

Teresa Mendoza, interpretada por Alice Braga.
Teresa Mendoza, interpretada por Alice Braga.USA NETWORK / TURNER

Entretanto, também revela que teve uma crise, aos 29 anos, e que se sentia incapaz de fazer testes para papéis. Questionava os rumos da sua carreira. “Eu me sentia muito frágil com relação a ela. É a única coisa que eu poderia dizer que me arrependa”, reflete.

Comentando a denúncia de “golpe de Estado” no Brasil feita recentemente pelo elenco de Aquarius em Cannes, a atriz paulista também saca sua faceta política. Diz que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e as acusações de corrupção ao círculo próximo do presidente interino Michel Temer compõem um “momento muito lamentável” para o Brasil, e acrescenta: “Acho que como cidadãos é importante trazer o tema à discussão, debate-lo, tratá-lo. Acho que é importante que não fiquemos calados a respeito”.

Braga traz a arte da interpretação no sangue. Essa paixão e entrega aos seus personagens foi ensinada por sua mãe, Ana Maria, também atriz, a quem considera sua “maior influência”. “Quando nasci, ela decidiu deixar de atuar, mas foi e será uma atriz para sempre. Ela me inspirou a acreditar nas minhas personagens, a estudá-los, a me entregar a eles e a dar sensibilidade à interpretação”, diz Alice, que também evoca a importância da sua tia Sonia Braga – muito elogiada em Cannes por sua atuação em Aquarius.

Passado o mau momento que atravessou, fiel aos conselhos da mãe, olha para o horizonte da sua carreira, entregando-se de coração a tudo o que faz – a esta profissão que a apaixona e ao fato de estar num set de filmagens, “meu lugar favorito no mundo”.