CINEMA

Falar, o único caminho para curar os males da ditadura

Estreia ‘Trago comigo’, filme de Tata Amaral que mescla realidade e ficção para incitar debate urgente

Cena de 'Trago comigo'.
Cena de 'Trago comigo'.Divulgação

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O filme, uma remontagem da série que a cineasta fez para a TV Cultura em 2009, mostra os passos de um diretor de teatro, ex-militante estudantil vivido por Carlos Alberto Riccelli, para recordar seus dias de resistência e luta armada, enquanto trabalha com um grupo de jovens atores em uma peça de teatro sobre seu tempo de militância. Foi um trabalho que ele, depois de tantos anos coberto por uma carcaça de esquecimento, relutou em fazer. Mas que abraçou quando entendeu que era o caminho a seguir, como diz o personagem, “para conseguir dormir à noite”. “Quando decidi fazer a série, depois o filme, tinha percebido a necessidade de iluminar o passado para curar feridas do presente. Parti de uma motivação pessoal, mas quando a história da peça de teatro veio parar nas minhas mãos vi que ela retratava bem o resgate da memória, porque rememorar é justamente construir uma narrativa”, conta Tata, que lançou no Facebook a campanha #TragoComigoUmaLembrança para difundir junto com o filme uma série de vídeos com relatos sobre a tortura no Brasil.

#TragoComigoUmaLembrança

Maria Lucia Homem, psicanalista, autora do Pancinema, lendo o testemunho de Dulce Pandolfi na Comissão da Verdade. #TragoComigoUmaLembrança #TragoComigoFilme https://www.facebook.com/pancinema/

Gepostet von Trago Comigo am Donnerstag, 16. Juni 2016

Maria Lucia Homem, psicanalista, autora do Pancinema, lendo o relato verídico de Dulce Pandolfi na Comissão da Verdade. #‎TragoComigoUmaLembrança‬

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Mas a diretora não queria que a história ficasse somente no plano da ficção. Combinou cenas ficcionais com relatos reais de militantes torturados para costurar um filme que, além de rememorar, fosse capaz de chamar as novas gerações. Um desses depoimentos foi dado por Amélia de Almeida Teles, que militava no Partido Comunista do Brasil nos anos de chumbo e terminou nos porões do DOI-Codi, torturada inclusive pelo comandante Brilhante Ustra – homenageado na Câmara dos Deputados por Jair Bolsonaro no último 17 de abril. Na opinião de Teles, cuja família moveu uma ação contra Ustra que resultou na primeira condenação de um agente da ditadura como torturador, é essencial abrir esse e outras oportunidades de diálogo. “As novas gerações não conhecem parte da história do Brasil, por causa de uma política institucional não explicitada para que não se faça memória daquele período. Tanto é assim, que muitos arquivos de torturadores permanecem fechado e faltam peças para reconstruir e esclarecer aquele período”, diz.

Tata Amaral.
Tata Amaral.Divulgação

O embate geracional é uma das apostas mais interessantes do longa. De um lado, coloca um diretor de teatro mais velho, que pouco a pouco resgata seu espírito de militante. De outro, atores jovens, que desconhecem sua luta e nem sempre entendem suas motivações. O primeiro os acusa de alienados; eles questionam “se o movimento era elitista”, “por que tinha poucos negros” e fazem outras perguntas pertinentes, mostrando-se de fato interessados quando a discussão finalmente se instala. Tata Amaral esperava gerar esse tipo de reação também nas plateias, mas nem em seus “piores pesadelos” imaginava que o debate envolveria, por exemplo, pessoas que hoje saem às ruas para pedir a volta da ditadura. “A atualidade do filme me impressiona. Quando fizemos a série, sete anos atrás, isso nem passava pela nossa cabeça. Acho que ele se faz mais necessário do que nunca”.

Carlos Alberto Riccelli é Telmo, um diretor de teatro.
Carlos Alberto Riccelli é Telmo, um diretor de teatro.

“Quem pede a volta da ditadura faz isso por ignorância política”, opina Amélia Teles. Para ela, que hoje integra a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e é assessora da Comissão Municipal da Memória da Verdade da Prefeitura de São Paulo, quem viveu sabe o que é – ainda que, como o personagem central de Trago comigo, alguns mergulhem no esquecimento. “Fui testemunha ocular daquele período obscuro e não quero esquecer. É minha bandeira. Mas já vi muitos militantes da época, que viveram fatos violentos e não conseguem se lembrar. Cada um reage de um jeito”. O que é preciso, para pessoas como Tata e Amélia, é reagir.

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