Eleições no Peru

Autoridade eleitoral do Peru aponta Kuczynski como vencedor

Pedro Pablo Kuczynski, de Peruanos por el Kambio, ficou em primeiro lugar com 50,12%

Simpatizantes de Kuczynski comemoram a vantagem do candidato.
Simpatizantes de Kuczynski comemoram a vantagem do candidato.Silvia Izquierdo (AP)

Mais informações

Quatro dias depois do segundo turno, o chefe do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE, na sigla em espanhol), Mariano Cucho, informou que o candidato presidencial Pedro Pablo Kuczynski, de Peruanos por el Kambio, ficou em primeiro lugar com 50,12% contra 49,88% da sua oponente, a líder da Fuerza Popular, Keiko Fujimori. O economista e ex-banqueiro de investimentos conseguiu 8.580.474 votos contra os 8.539.036 da ex-congressista, ou seja, uma diferença ajustada de apenas 41.438, e 0,3 décimos em porcentagem.

Kuczynski, que adiou duas vezes uma conferência de imprensa na parte da manhã e da tarde, aguardando o andamento da contagem oficial de 100% das atas processadas, disse ao sair de casa: “Vamos trabalhar muito. Falta pouco (para terminar a contagem dos votos)”. As atas ainda não contabilizadas estão sendo avaliadas, por causa das impugnações, no Tribunal Nacional Eleitoral.

Horas antes, o vencedor virtual das eleições já tinha começado a agir como presidente eleito do Peru. Tanto que seus dois candidatos a vice-presidente, Martín Vizcarra e Mercedes Aráoz, já começaram a tarefa de transferência de poder com o Governo atual, do nacionalista Ollanta Humala. Kuczynski manteve um silêncio de três dias à espera de que Fujimori reconhecesse a derrota, mas na quinta-feira decidiu rompê-lo para se apresentar como virtual vencedor das eleições. Vizcarra e Aráoz são próximos do economista e ex-banqueiro de investimento, e terão muito peso. “Dizem que estou velho, é verdade, mas o coco [cabeça] e a experiência funcionam para mim. E se acontecer alguma coisa, tenho duas apólices de seguro: Martincito e Mechita, assim vamos trabalhar”, disse Kuczynski, 77 anos, há uma semana em Arequipa, como resposta aos rumores sobre sua saúde.

Kuczynski manteve um silêncio de três dias à espera de que Fujimori reconhecesse a derrota

Aráoz disse na quinta-feira ao jornal Gestión que as primeiras questões que devem chegar a um consenso serão a luta contra a insegurança e a recuperação econômica, para ter recursos contra o crime. “O que vem a seguir é reconciliação, trabalho, diálogo. PPK é um líder que gosta de conversar, o espaço está aberto para as melhores opções para o crescimento do país, reduzir a pobreza, dar melhor educação”, disse Aráoz, economista e ex-ministra de Economia e da Indústria e Comércio durante o Governo de Alan García.

Vizcarra, de 52 anos, é engenheiro civil e foi governador da região de Moquegua entre 2011 e 2014, em uma gestão cuja principal realização foi colocá-la em primeiro lugar nos indicadores de educação. Quem o conhece afirma que é um grande negociador. Foi convidado duas vezes para ser primeiro-ministro do Governo de Ollanta Humala. Além disso, através do investimento em infraestrutura de água e outros acordos com comunidades afetadas pela mineração, em 2012, destravou o projeto de mineração Quellaveco da empresa Anglo American, que não tinha o apoio da população. Em entrevista ao EL PAÍS disse que é a garantia de que o Governo de Kuczynski vai priorizar as regiões, ao contrário dos Governos anteriores.

Aráoz foi até dezembro representante do Peru no Banco Interamericano de Desenvolvimento, e negociou a última etapa do Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos. Em 2009, em meio a uma greve na Amazônia contra os decretos legislativos que mudavam o regime da terra, disse que se fossem revogados “era o fim do TLC”.

39.000 votos

Enquanto isso, Fujimori se recusa a admitir a derrota, em meio a um ambiente interno complexo no fujimorismo, que perdeu na reta final uma vitória que tinha assegurada há uma semana. Embora 99,95% dos votos já tenham sido contados e haja uma diferença de 39.051 cédulas a favor de PPK, Fujimori declarou na quinta-feira: “Estamos esperando pacientemente”.

Na quarta-feira, durante uma sessão no Congresso, o parlamentar Pedro Spadaro comentou: “Não se sabe quem é o Governo entrante; paciência, pelo menos, já se sabe de quem é o Congresso”. O fujimorismo tem 73 congressistas contra os 18 de PPK e isso pode deixar tudo mais difícil. “Com uma margem estreita de apenas 39.000 votos estamos esperando os pronunciamentos oficiais tanto do ONPE [junta eleitoral central] como do Tribunal Nacional Eleitoral. Nosso partido e nossa líder vão respeitar o que o povo peruano indicou no domingo, mas temos o direito de que todos os votos sejam contados. O processo eleitoral ainda não terminou”, disse Spadaro.

A deputada fujimorista Lourdes Alcorta reclamou também que, no domingo, o Governo colocou nas ruas uma quantidade de policiais “maior do que o normal” para resguardar as eleições, impedindo que estes votassem, e seu grupo político acredita que teria sido na Fuerza Popular. Na quarta-feira, a congressista fujimorista Luz Salgado se mostrou relutante em dialogar com o próximo Governo e disse que PPK precisa “baixar o tom de sua linguagem porque não se pode acusar alguém de traficante de drogas e depois querer dialogar”.

Duro final para Humala

J. FOWKS

O presidente peruano, Ollanta Humala, deixará o cargo em julho afundado nas pesquisas e da pior maneira possível: com um pedido da promotoria para que o juiz impeça que a primeira-dama, Nadine Heredia, saia do país. A presidenta do Partido Nacionalista, uma referência política do grupo de Humala, é investigada pelas contribuições a esta organização nas campanhas eleitorais de 2006 e 2011, em que seu marido foi candidato. A Promotoria de lavagem de ativos formalizou a investigação preliminar que inclui, entre outros, o irmão de Heredia, ex-tesoureiro do partido. Humala criticou esta decisão da promotoria porque “prejudica a imagem do Peru”.