Eleições

Peru escolhe não escolher

Em vez de votar ‘sim’ a qualquer um, a nação parece ter preferido dizer ‘não’ à filha de Fujimori

A candidata presidencial Keiko Fujimori nesta terça-feira em Lima.
A candidata presidencial Keiko Fujimori nesta terça-feira em Lima.Ernesto Arias (EFE)

Às eleições presidenciais de domingo no Peru se apresentaram duas candidaturas, com o país dividido em partes praticamente iguais: a de Keiko, filha de Alberto Fujimori, ex-presidente golpista, e a de Pedro Pablo Kuczynski (PPK), ambos líderes de coalizões basicamente negativas, tanto ou mais contra o outro do que a favor de si mesmas. A do ex-banqueiro, direita clássica, tinha um único elemento unificador, todos-contra-Fujimori; e a de Keiko era uma vaga maré populista, sobretudo de origem rural e meios modestos, contra a elite de Lima, mas igualmente conservadora. E em vez de votar “sim” a qualquer um, a nação parece ter preferido dizer “não” à filha de Fujimori, que ontem à noite perdeu, como se diz em inglês, “pela pele dos dentes”.

A democracia peruana, com imprensa independente, liberdade de expressão e eleições quando compete, sofre, no entanto, de graves disfunções, a maior das quais pode ser a inexistência de um sistema estável de partidos, que aparecem na conjuntura eleitoral e desaparecem sem deixar rastro. Para isso pode ter contribuído o fujimorato (1990-2000), o Governo do pai, que em 1992 deu um autogolpe de Estado para se movimentar sem restrições constitucionais e em consequência do qual está agora na prisão. E a grande ironia é que Keiko tinha criado a Força Popular –a coisa mais parecida com um partido político moderno– a única força realmente vencedora no pavilhão do fujimorismo porque obteve 73 cadeiras de 130 no parlamento, resultado que completa a balbúrdia de uma opinião pública que dá a maioria absoluta ao partido da filha, mas quando se trata de votar na pessoa só lhe dá o empate técnico com um adversário particularmente sem força e que até recentemente tinha nacionalidade norte-americana.

Depois de décadas de excelentes indicadores econômicos, embora ultimamente um pouco afetados pela crise, parece que no Peru o ‘macro’ não foi capaz de se infiltrar no ‘micro’, com um descontentamento generalizado que aumenta a grave deterioração da segurança pública, embora os números não atinjam os índices de criminalidade dos países da América Central. Keiko –que passou 10 anos se preparando para ser presidenta– não existiria politicamente se Alberto Fujimori não tivesse derrotado o movimento supostamente revolucionário Sendero Luminoso, mas também os excessos de seu mandato contribuíram para a formação de uma coalizão antifujimorista, com o que estivesse mais à mão. E tudo isso como um déjà vu, porque em 2011 a Primeira Filha foi derrotada por Ollanta Humala, o presidente agora de saída, que liderou uma coalizão que incluía a esquerda, muito semelhante à atual.

O fujimorismo não tem força para se impor claramente e o antifujimorismo não tem conteúdo próprio, o que coloca o país numa situação de irresolução permanente. Uma pista para o futuro desse beco sem saída poderia ser dada pela capacidade de Keiko em preservar a existência de seu partido para além do seu comportamento eleitoral, embora já se especule, na melhor tradição nacional, que parte de seus deputados estaria disposta a trabalhar com PPK. É assim que o Peru, no domingo, escolheu não escolher.