Peru

Keiko Fujimori: líder em pesquisas e alvo preferencial das ruas no Peru

Manifestações cobram falta de debate público dias antes das eleições gerais peruanas

Protestos contra a candidata presidencial Keiko Fujimori, na terça-feira, em Sydney.
Protestos contra a candidata presidencial Keiko Fujimori, na terça-feira, em Sydney.EFE

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A quatro dias das eleições gerais no Peru, a cientista política Carmen Ilizarbe destaca o papel das manifestações de rua que culminaram, na terça-feira, com a marcha “Keiko não vai”, realizada em Lima e em outras 20 cidades no aniversário do autogolpe do ex-presidente Alberto Fujimori, cuja filha, Keiko, lidera as pesquisas para a eleição no próximo domingo. A arena institucional e midiática tem inclinado o tabuleiro a favor da candidata da Força Popular, e as manifestações preenchem a lacuna deixada pela falta de um verdadeiro debate público.

Ilizarbe destaca que as decisões do Jurado Nacional de Eleições, dos Jurados Eleitorais Especiais e do Congresso resultaram na exclusão de dois candidatos que disputavam o segundo lugar. "Caiu César Acuña, que a desafiava e representava um segundo ‘fujimorismo’. Se o retiraram da disputa, Fujimori deveria ter sido desqualificada pela mesma razão", explica a especialista, citando a punição por dar dinheiro em eventos eleitorais.

Para Ilizarbe, a alteração da lei sobre os partidos políticos em janeiro pelo Congresso "permite espaços de interpretação autêntica que decidem quem pode entrar na disputa e quem não. Vimos uma reminiscência do ano 2000, porque se aproveitam de brechas legais e da fragilidade das instituições, como o partido do outro candidato excluído, Julio Guzmán, para virar o tabuleiro do jogo", afirma. A interpretação autêntica foi uma norma aprovada durante o Governo de Alberto Fujimori (1990-2000) para permitir sua reeleição imediata, apesar de ser proibido pela Constituição.

Manifestações lideradas por jovens ocorrem porque o espaço para o debate público está fechado

Ilizarbe, que estuda as intersecções da política e da cultura no Peru, avalia que nos meios de comunicação "há mais simpatia por uma ou duas candidaturas e uma guerra contra aquelas que são percebidas como opositoras de peso ao fujimorismo: esse é outro plano inclinado. Nas arenas institucional e midiática, que incluem as empresas de pesquisas de opinião, a atuação não é imparcial, e mostram uma tendência irreversível", comenta.

Os participantes na chamada Grande Marcha Nacional “Keiko não vai”, na noite de terça-feira em Lima, ocuparam quase três quilômetros de avenidas do centro da cidade durante três horas, em uma mobilização de cerca de 40.000 pessoas

A cientista política acredita que as manifestações contra Keiko e a favor da democracia lideradas por jovens no domingo passado, em Lima, ocorrem porque o espaço para o debate público está fechado. "A rua surgiu como um espaço de representação, de coletivos tradicionais e antigos, como alguns sindicatos, mas outros são muito novos. Estão articulados, não apoiam uma candidatura, não têm o mesmo discurso ideológico, essas forças apoiam umas às outras", descreve.

Ilizarbe classifica o “Não ao Fujimorismo” como uma afirmação com a qual é fácil reunir muitas pessoas, mas explica que a frase traz outras demandas. "Pode parecer um ‘não’, mas inclui uma pluralidade de proposições: algumas organizações exigem [punição] e denunciam crimes impunes da época do fujimorismo que não foram abordados nos Governos posteriores; outros pedem um modelo econômico diferente; ou uma visão do país que dá prioridade à água; ou defenda os direitos da população LGBTIQ; ou das mulheres: há questões de fundo", acrescenta.

A marcha de terça-feira em Lima e 20 cidades do país foi precedida de manifestações de peruanos durante o fim de semana em Helsinque, na Finlândia, e no Rio de Janeiro contra o autogolpe de 5 de abril de 1992, quando Fujimori levou o Exército para as ruas, enviou militares aos meios de comunicação e fechou o Congresso e o Poder Judiciário. “Nós nos manifestamos com a esperança de lutar por condições mínimas para nossa sociedade, o fortalecimento do Estado de Direito e o respeito irrestrito aos direitos humanos”, diziam alguns dos manifestantes na praia de Botafogo, no Rio.

Ilizarbe afirma que a marcha de 5 de abril foi o ponto culminante de um conjunto de ações prévias na rua, nas quais tiveram papel destacado as mulheres que denunciam esterilizações forçadas, mas também os jovens, embora nos espaços virtuais sempre mais difíceis de medir

Os participantes na chamada Grande Marcha Nacional “Keiko não vai”, na noite de terça-feira em Lima, ocuparam quase três quilômetros de avenidas do centro da cidade durante três horas, em uma mobilização de cerca de 40.000 pessoas que começou e terminou na praça San Martín, depois de percorrer quatro quilômetros de maneira festiva e pacífica. Nas principais capitais de algumas regiões do Peru a iniciativa se repetiu, buscando “afirmar a democracia”, segundo os organizadores.

No último mês, houve três marchas e vigílias semelhantes na mesma praça do centro de Lima – coordenadas por associações juvenis, universitárias e culturais, bem como entidades como a Federação Têxtil do Peru –, com uma presença de 90% de jovens. Um grupo de estudantes da Universidade Nacional do Callao portava cartazes com os nomes Kenneth e Martín, sequestrados por aparatos militares em 1992 e 1993, e cujos corpos não foram encontrados até hoje. “O sangue derramado jamais será esquecido”, entoavam.

As eleições gerais no Peru serão no domingo, dia 10 de abril, e as pesquisas apontam como favorita a líder da Força Popular.

Protagonistas e antecedentes

Somos 2.074. Um dos movimentos que lideraram as marchas “Keiko não vai” reúne pessoas que pedem justiça para as 2.074 mulheres que denunciaram no Ministério Público esterilizações forçadas durante o Governo de Alberto Fujimori.

As Zonas. Grupos de jovens de Lima que protestou em cinco marchas contra a lei do trabalho juvenil em 2014 e 2015.

Coordenadoria contra a impunidade. Formada por familiares de desaparecidos pelo Grupo Colina, integrado por militares responsáveis por violações de direitos humanos, como os casos La Cantuta, Barrios Altos e El Santa, massacres cometidos em 1992.

Em 26 de maio de 2011, antes do segundo turno das eleições, 20.000 pessoas saíram às ruas de Lima sob o lema “Não a Keiko”.

Entre 1999 e 2000, as manifestações da população contra a corrupção do Governo de Fujimori consistiam em lavar a bandeira do Peru nas praças das principais cidades.