Coluna
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Sônia Braga e o imaginário nacional

Falamos de política e esquecemos de nos devotar a esta mulher que retorna ao cinema e rebobina o desejo e o fetiche de milhões de homens brasileiros

Sônia Braga em Cannes, nesta quinta.
Sônia Braga em Cannes, nesta quinta.JULIEN WARNAND (EFE)

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Falamos muito de política, por causa da intervenção tímida e espalhafatosa da equipe de “Aquarius” no tapete vermelho do festival de Cannes, e esquecemos de nos devotar a esta mulher que retorna ao cinema e rebobina o desejo e o fetiche de milhões de homens brasileiros. Sônia ao redor do imaginário sexual dos tristes trópicos.

Ela, Sônia Braga, a protagonista do filme de Kleber Mendonça Filho, a fêmea que assanhou a sociologia de Gilberto Freyre (no livro Modos de homem, modas de mulher) e nos fez eternos passageiros daquela desembestada lotação rodriguiana filmada por Neville d´Almeida.

Lembro muito bem do derretimento de Freyre ao falar da atriz, em uma das primeiras entrevistas que fiz com o autor de Casa-Grande & Senzala, primeira metade dos 80. “Ancas grandes, peitos pequenos, cabelos encaracolados... É a miscigenação, o próprio Brasil”, soletrava o que havia escrito naquela tarde no bairro de Santo Antônio de Apipucos, arredores do Recife.

Básico instinto

Sem essa de papel decorativo de musa. Sônia falou e disse o cenário político: “O Brasil de hoje está dividido como nunca esteve. Um fenômeno difícil de superar com uma democracia nascida da ditadura e com uma imprensa pouco objetiva. Essa divisão dá medo e há risco de fascismo. No governo há ministros corruptos e é justo que se demitam”.

Diante daquele protesto contra o golpe, ressurgiu, com o mesmo encanto radical dos anos 1980, a mitológica morenidade, capaz de nos despertar de novo os básicos instintos -diria mais uma vez o escritor e músico Fausto Fawcett.

Na pele de uma discreta musa bolcheviche dos trópicos, ela voltou. Para trazer de volta as diversas Sônias que fizeram parte da educação sentimental e testosterônica da minha geração. A fofa Helena e a selvagem Gabriela.

Com a novela Dancing Days inventou a modernidade da pista dance globalizada e do teledrama; encarnou a patroazinha sonsa e tórrida de Dama do Lotação; Sônia como a mulher que escapa, a fêmea em fuga contra o esqueminha lar doce lar de outrora, o desejo itinerante, passageira do bonde chamado desejo. Haja Sônias para tanta imaginação.

Ao vê-la adentrar o tapete vermelho, meu sucateado coração estremeceu como na primeira vez. Retomei a devoção que havia iniciado n'O livro das mulheres extraordinárias.

Sônia, Soníssima, no filmaço O Beijo da Mulher-Aranha , dirigido por Hector Babenco, aquele baseado na obra homônima do argentino Manuel Puig, aqui uma Sônia para além dos clichês tropicalizantes, uma Sônia que se torna fetiche, imagem delirante do universo gay politizado no último.

Dona Flor

Uma antologia de Sônias é rebobinada bem no centro do prazer dos nossos cérebros. Conferi com os amigos de geração, daí esse plural cheio de moral. A danada de Dona Flor e seus dois maridos, que fez nossa testosterona ferver como azeite de dendê na moqueca baiana. No filme baseado no livro de Jorge Amado, dirigido por Bruno Barreto, a morena prendada brinca com o virtuoso Teodoro (Mauro Mendonça) e o cafajeste Vadinho (José Wilker).

E a cena em que a Gabriela da novela escala o telhado, com aquele vestidinho de chita? Inesquecível. Bem-vinda Sônia Braga ao lugar de onde nunca saiu: o cinema da nossa pluralíssima imaginação.

Xico Sá, jornalista e escritor, é autor d´O Livro das Mulheres Extraordinárias (editora Três Estrelas), entre outros. Na televisão, é comentarista do programa “Papo de Segunda” (canal GNT).

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