Dilma vai à ONU dizer que é vítima de golpe, e é criticada por ministros do Supremo

Presidenta aproveita reunião da ONU para expor sua versão

Senador tucano fala em “desespero” e ministro do STF diz que ela comete “equívoco”

Rousseff no último dia 19.
Rousseff no último dia 19. EFE

Após o Congresso ter aprovado a admissibilidade do impeachment no último domingo, a presidenta Dilma decidiu reforçar a comunicação com o exterior para dizer que é vítima de um golpe. Depois de  falar para repórteres de jornais estrangeiros, Dilma agora quer dar a sua versão sobre o seu processo de destituição a chefes de Estado que participarão da assinatura do Pacto de Paris na Organização das Nações Unidas (ONU). Nesta quinta-feira, a mandatária brasileira seguirá para Nova York onde, em seu discurso no evento, deverá falar que este não é um processo legal de destituição presidencial.

Rousseff começou a escrever a sua fala na terça-feira, quando decidiu de última hora que participaria do evento internacional. A declaração dela está prevista para ocorrer na manhã de sexta-feira, quando representantes de 195 países participam da assinatura do acordo climático elaborado em dezembro do ano passado, na COP 21. Desde o início da crise política, poucas nações ou organismos internacionais se manifestaram a favor da petista. Apenas o Uruguai, a Bolívia, a Venezuela e o Equador, além da secretaria geral da Organização dos Estados Americanos fizeram pronunciamentos nesse sentido.

O vice, Michel Temer, e a oposição, no entanto, reagiram à investida da presidenta de usar a tribuna da ONU para se defender. Em entrevista ao influente jornal Financial Times, Temer afirmou que não há nenhum golpe acontecendo no Brasil, ao contrário do que a mandatária tem falado. “Vários ministros do Supremo têm dito que um eventual impeachment da presidente não é golpe. É um processo constitucional”, afirmou ele. De fato, Celso de Mello, Gilmar Mendes e Dias Toffoli afirmaram que o processo seguiu a Constituição. “Ainda que a presidente da República veja, a partir de uma perspectiva eminentemente pessoal, a existência de um golpe, na verdade, há um gravíssimo equívoco”, disse Celso de Mello, o mais longevo ministro da Corte, segundo o jornal O Globo. Para Toffoli, a fala de Dilma é uma estratégia de defesa e que alegar que há golpe em andamento é “uma ofensa às instituições brasileiras”.

Presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, o senador oposicionista Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), também foi aos Estados Unidos para participar da mesma reunião que Rousseff. Em solo americano, ele tenta rebater à imprensa internacional os argumentos apresentados pela presidenta. “Espero que ela não faça deste evento um comício político, no qual apresente uma visão falsa do que é a democracia brasileira e sobre o funcionamento de suas instituições”, disse Nunes à correspondente do EL PAÍS, Silvia Ayuso. Nunes afirmou que nos últimos tempos, a presidenta, “em desespero para se manter no cargo, está trabalhando para destruir essa imagem positiva do país”.

Dilma decidiu usar as brechas disponíveis para defender seu ponto de vista, mesmo que para isso tenha de deixar o país nas mãos do seu ex-aliado e agora rival. Será a primeira vez que a presidenta deixará o país desde que seu vice-presidente, Michel Temer (PMDB), rompeu a aliança com ela.

“Sugiro que a Dilma consulte, durante a viagem [para os Estados Unidos], a Constituição e a lei do impeachment, pois, se aceitar minha sugestão, desembarcará em solo americano sabendo que cometeu crime fiscal e que por isso deve ser afastada da presidência”, criticou líder da bancada do Democratas na Câmara dos Deputados, Pauderney Avelino.

Temer presidente por dois dias

Como ficará ao menos dois dias no exterior (quinta e sexta-feira), Rousseff transferirá o Governo ao peemedebista. Mesmo com a caneta presidencial em mãos, Temer não deverá ocupar o gabinete de Rousseff. Todas as vezes que assumiu a função interinamente o vice despachou de sua sala, em um anexo do Palácio do Planalto, ou do escritório da Presidência da República em São Paulo, onde se encontra atualmente.

Desde que seu processo de impeachment foi aprovado pela Câmara dos Deputados, no domingo passado, Rousseff intensificou seu contato com os meios de comunicação e reforça a mensagem de que o processo não tem base legal. Junto a isso, também aumentou a temperatura das críticas ao seu vice e ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a quem chama de conspiradores.

Nesta quarta-feira, o advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, um dos ministros mais próximos da presidenta, defendeu que ela use a tribuna internacional para tratar de questões internas. “É legítimo que o faça [o discurso]. E ela o fará no exercício de suas funções como representante do Estado brasileiro”, afirmou Cardozo.

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