crise política no brasil

Macri teme que instabilidade no Brasil contagie seu Governo

Presidente argentino vê na possível queda de Dilma reforço do argumento kirchnerista de que região sofre "golpe neoliberal"

Mauricio Macri e Dilma Rousseff, em dezembro.
Mauricio Macri e Dilma Rousseff, em dezembro.blog do Planalto

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"As sociedades brasileira e argentina estão muito conectadas, no bom e no mau sentido. A Argentina vive um período de ajuste, no qual basta apertar um botão para o cenário social ficar complicado. A situação no Brasil, com um Governo eleito com o voto indireto, e não nas urnas, pode incentivar uma reação social em ambos os países. Isso desestabiliza toda a região e, claro, enfraquece ainda mais o Mercosul", diz Monica Hirst, doutora em Estudos Estratégicos e professora da Universidade Torcuato di Tella, especialista em relações entre o Brasil, seu país de origem, e a Argentina, onde mora há 30 anos.

Hirst acredita que o Governo Macri enfrenta um dilema importante. "É óbvio que um Governo Temer será mais convergente com as políticas de Macri. Mas ele terá de se relacionar com um Governo que chegou ao poder de uma maneira, para muitos, ilegítima. Alguns na Argentina veem esta crise como uma oportunidade para fortalecer a liderança incipiente deste país, mas eu, com a experiência de tantos anos, não vejo como a crise no Brasil pode contribuir para o sucesso de um novo modelo liberal argentino", conclui Hirst.

O Governo argentino tem mantido uma certa distância, mas deixando claro sua enorme preocupação. A chanceler argentina Susana Malcorra chegou a convocar uma reunião urgente do Mercosul para apoiar as instituições no Brasil, mas que não se concretizou. Apesar de suas diferenças ideológicas, Macri buscou uma aliança com a presidenta Dilma Rousseff desde o início e transmitiu a mensagem de que a Argentina estava interessada em um Brasil estável. Não fez nada, apesar das críticas da oposição, para apoiar a queda de Dilma. Embora tampouco tenha participado da campanha da esquerda latino-americana, com o presidente boliviano Evo Morales como grande protagonista, que fala de um "golpe" no Brasil. Macri nadou nos dois lados, mas agora é forçado a assumir uma posição. Até agora sempre defendeu ações que estejam "de acordo com a Constituição brasileira". Uma vez que o processo constitucional seja concluído, terá que decidir como se relacionará com o novo Governo.

Federico Merke, professor de Relações Internacionais da Universidade de San Andrés, também acredita que esta crise não beneficia em nada a Argentina. "Um cenário de grande instabilidade está se abrindo. Todas as opções que vêm agora são ruins. Se [o impeachment] avança no Senado, estaria assumindo um vice-presidente que também é investigado. O Brasil é o país mais poderoso da região, que sempre contribuiu para estabilizar a política, para evitar conflitos, tinha um papel de moderador. Nenhum país sai ganhando com um Brasil imprevisível, instável, sem energia para pensar na integração regional", destaca.

No ambiente político argentino, alguns acreditam que a crise brasileira coloca o foco precisamente sobre a estabilidade argentina, com um Governo recém-eleito, e vai trazer ao país vizinho os investimentos que poderiam ir para o Brasil. Merke avalia, por outro lado, que o Brasil pode servir como um espelho negativo do que poderia acontecer na Argentina. "Fica difícil para Macri ter um interlocutor confiável no lado brasileiro. E também é um sinal para Macri ver que um Governo que assume com pouca diferença de votos, como no Brasil, quando perde a legitimidade enfrenta uma crise doméstica. Se a inflação não diminuir, o desemprego aumenta, os investimentos tão esperados não chegam... A América Latina está demonstrando que as pessoas se cansam [em um prazo] mais rápido do que os Governos precisam para resolver as coisas."

Mas acredita-se que a Argentina possa consolidar sua liderança. "Embora a lua-de-mel com Macri tenha terminado, ainda existem expectativas positivas. Ao sair do default [não pagamento da dívida], a Argentina passa a ocupar um papel de referência na região. Os países vão olhar para a Argentina para ver para onde a discussão avança", afirma.