A fenda brasileira

A violência simbólica deixa feridas muitas vezes imperceptíveis no futuro de um país

Muro colocado diante do Congresso, em Brasília, para separar os manifestantes contra e a favor do Governo.
Muro colocado diante do Congresso, em Brasília, para separar os manifestantes contra e a favor do Governo. UESLEI MARCELINO (REUTERS)

Nos últimos anos, e com maior intensidade nos últimos meses, uma boa parte da sociedade brasileira tem se radicalizado na sua própria visão da situação política interna. Razões abundam para cada porção ideologizada da sociedade que faz interpretações. A radicalização tende a priorizar e reforçar o posicionamento próprio gerando um isolamento gradual daqueles que estão do outro lado. As fronteiras imaginárias são a vitória de um tipo de compreensão que acha melhor a exclusão de seus oponentes.

Talvez esta seja a questão mais perigosa que esteja atravessando o Brasil hoje: a fenda social, além da institucional. Uma fenda que os argentinos conhecemos e reproduzimos historicamente com uma habilidade artesanal inigualável. Nós somos especialistas em estabelecer formas de discurso que constituem binômios radicais que produzem a separação de todo aquele que pensa diferente: é o fim do pluralismo. É um círculo vicioso que reproduz modos discursivos e de ação que procuram fixar fronteiras e marginalizar todo aquele que pensa de outro jeito. Nesta dinâmica não tem direita ou esquerda: todos reagem do mesmo jeito. Na construção desta fenda, a mídia joga um rol central como geradora de visões muitas vezes distorcidas dos acontecimentos. A manipulação midiática também faz parte do problema.

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Nas últimas semanas alguns dirigentes políticos tem incrementado este nível de rispidez social nos debates. A promoção sutil ou explicita da violência (verbal ou física) numa autoridade pública é inaceitável. Um grande poder implica em uma grande responsabilidade (isso cabe também para mídia). O que fica para os que seguem cegamente aquele que consideram seu líder? As mudanças devem começar pelo discurso dos representantes políticos, qualquer que sejam suas responsabilidades.

Ao mesmo tempo, a democracia não é só aquela que pende das instituições da República. Também existe uma democracia no modo pelo qual os cidadãos se comunicam, reagem e compartilham (ou não) o cotidiano. Podemos ser cidadãos antidemocráticos? Sim. Toda vez que anulamos a palavra diferente à nossa, que rotulamos com ironia aqueles que pensam de maneiras distintas de construir uma sociedade. Os modos que a linguagem assume não são insignificantes: nas ocasiões trata-se da precedência às ações.

É muito simples agredir nas redes e acabar bloqueando a aqueles (outrora amigos) que postam posições políticas com as quais não concordamos. É simples insultar alguém na rua (mas não acaba sendo muito democrático).

Esse tipo de violência simbólica deixa feridas muitas vezes imperceptíveis no futuro de um país. Esse modo de dialogar no cotidiano não é algo sem importância e produz cicatrizes. Na Argentina, por exemplo, desde a última década muitas famílias se separaram depois de anos de divisão política. Muitos amigos deixaram de se falar. O tecido social nem sempre é forte, pode se rasgar sim.

Talvez fosse bom que cada um de nós, não importa o ponto de vista que se tenha, seja ainda mais responsável pela própria animosidade. É preciso continuar atacando a corrupção sem justificar os crimes (que não pertencem a uma só parcela isolada).

A indignação frente aos males sociais é entendível. Porém não podemos deixar de ter o respeito que a democracia precisa. Caso contrário, a fenda se engrandece, nos divide e poderemos cair nela. Naquele caso ficará cada vez mais difícil entreolharmos pacificamente aos olhos do amanhã. Sim, o amanhã tem que nos que encontrar juntos... convivendo.

Nicolás José Isola, filósofo argentino, é pesquisador e doutor em Ciências Sociais. Twitter: @NicoJoseIsola